quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Pode-se fazer um diagnóstico de pré-psicose?

Pode-se fazer um diagnóstico de pré-psicose? Ama questão preliminar ao diagnóstico de estrutura

Is it possible to diagnosticate the stage before pshycosis? A structure diagnosis's preliminary question


Piero FeliciottiI*; Carlo ViganòII, III**; Roseli Cordeiro Pereira (Tradução)
IScuola di Psicoterapia ICLeS - Itália
IIAssociação Mundial de Psicanálise - França
IIICausa Freudiana de Paris - França

Endereço para correspondência



RESUMO
No artigo é abordada a possibilidade de se fazer um diagnóstico de pré-psicose. Para tanto, apresenta a concepção lacaniana de estrutura psicótica, dando ênfase às noções de diagnóstico e transferência. Posteriormente, ressalta-se a evolução do pensamento lacaniano acerca do tema com vistas a descobrir novos instrumentos para o enfrentamento da situação de um sujeito cujo sintoma encontra-se pouco definido. Finalmente, enfatiza-se a importância de evidenciar a função de forclusão e suplência do Nome-do-Pai utilizando-se a noção lacaniana da estrutura do nó borromeano.
Palavras-chave: Psicanálise, Psicose, Diagnóstico, Estrutura.

ABSTRACT
In this article the author talks about the possibility of diagnosticating the stage before the psychosis. In order to do that, he presents the psychotic structure according to the Lacan's conception and emphasizes the notions of diagnosis and transference. After that, he stands out the Lacan thought's evolution about this subject in order to discover new instruments to face the situation in which there is a citizen with indefinite symptom. At last, the author shows the importance of pointing out the foreclosure function and the Name-of-the-Father's suplency, using the borromean knot Lacan's notion structure.
Keywords: Psychoanalysis, Psychosis, Diagnostics, Structure.



O termo pré-psicose não é de Lacan. E se nos anos do Seminário III - As psicoses (1955-56), ele faz referências ao debate em torno daquilo que precede a psicose, no curso do mundo psicanalítico, é propriamente para tomar distância de posições extremadas. Assim, disse Lacan: "Antes de nos perguntarmos como é a entrada e de fazer a história da Pre-psychotic Phase, antes de tomar as coisas no sentido da gênese, como sempre se faz, o que é fonte de confusões inexplicáveis [...]" (LACAN, 1985, p. 67-68), convém tomar novamente em consideração a construção do delírio na forma em que Freud propôs. Sua construção mostra que os fenômenos da psicose podem ser explicados se forem dados a eles as modificações de "elementos de um sistema construído em função das coordenadas da linguagem" (Ibid.).
Esse deslocamento de acento da psicogênese do delírio à lógica de sua construção nos aparece muito moderna e parece antecipar o propósito que guiou os extensores do DSM: definir o fenômeno sem ocupar-se das causas.1 Na realidade, Lacan é mais avançado e não diz: esqueçamos as causas em que somos muito divergentes em nossas opiniões e registremos os fatos, os índices sintomáticos. Se ele repele as hipóteses genéticas é porque o fenômeno psicótico lhe aparece claramente como efeito do peso que o significante tem na experiência humana, diferentemente do que ocorre com o animal (isso se o animal tiver uma experiência!). Quando nos convida a não nos deixar fascinar pela prospectiva da gênese, Lacan não tem em mente uma hipótese particular; é somente para articular o problema corretamente, isto é, a partir da relação do sujeito com o símbolo e, em particular, com o fato de que na originária introdução na dimensão simbólica existe a possibilidade de uma "Verwerfung primitiva, isto é, que não seja simbolizada qualquer coisa que se manifestará no real" (Ibid., p. 96).
Naturalmente não se trata de qualquer coisa que seja simplesmente um dado da percepção, mas de um objeto, algo que venha talhado fora da economia das satisfações e dos dados da percepção. Nenhuma possibilidade, portanto, de que os sintomas do eixo I do DSM (que ficam sobre o plano dos dados fenomenológicos, devido à sua tipicidade e sua recorrência) possam se constituir na última palavra sobre a natureza da psicose. No fundo, também os sonhos típicos tiveram para Freud a mesma consideração dos outros sonhos, a partir de sua natureza simbólica e, portanto, da estrutura própria do significante, que é a de representar um sujeito por outro significante e não a de representar um fragmento de realidade. Nem a chamada ao símbolo deve nos induzir a pensar que queremos introduzir aqui as considerações da ordem da etno-psiquiatria e colocar a loucura relacionada às estruturas culturais veiculadas pela linguagem. Vejamos, de forma contrária, como a prospectiva etno-psiquátrica, (da qual Lacan fala no L'envers de la psychanalyse (LACAN, 1992), pode constituir em um campo de aplicação da estrutura lacaniana da psicose. O contexto social não explica a estrutura da psicose, mas coloca os problemas em nível de diagnóstico.
"O que é o inicio de uma psicose? - pergunta-se Lacan - Uma psicose tem, como uma neurose, uma pré-história? Existe, ou não, uma psicose infantil?" (LACAN, 1985). Esse também é um tema da atualidade. A exemplo, alguns psiquiatras ingleses (COW et al), que se inspiram na filosofia da linguagem, têm observado que a infância de psicóticos adultos é sempre caracterizada por distúrbios da linguagem, pela dificuldade específica de aprendizagem da gramática e da sintaxe, documentada pelo currículo escolar.
Todavia, ao atentar para os fenômenos descritos por Schereber sobre o desenvolvimento de seu delírio, Lacan conclui que tudo leva a presumir a não existência de pré-história na psicose. Quando, na história de uma psicose, em determinadas condições, qualquer elemento que surja no mundo exterior e não tenha sido primitivamente simbolizado faz com que o sujeito se encontre absolutamente desprovido, incapaz de operar a partir do surgimento de uma denegação. "O que então se produz tem caráter de ser absolutamente excluído do compromisso simbolizante da neurose, e se traduz em um outro registro, com uma verdadeira reação em cadeia do imaginário (sic), isto é, na contra diagonal do nosso pequeno quadrado mágico" (Ibid.).2 O sujeito não tem condição de operar alguma mediação simbólica na relação com a realidade, aquela que Freud chama realidade psíquica, e entra em uma outra maneira de mediação, substituindo a mediação simbólica "um formigamento, uma proliferação imaginária nas quais se introduz, de um modo deformado e profundamente a-simbólico, o sinal central de uma mediação possível" (Ibid.).
É essa uma formulação muito pertinente e clinicamente irrepreensível do que Lacan chama crise e que é distinta da elaboração imaginária que, posteriormente, levará a estabilizar os sintomas psicóticos. Como exemplo, os dois episódios delirantes de Schreber: o primeiro, na seqüência do desejo irrealizado de ter filhos e o segundo, ocorrido após cinco anos, na época de sua nomeação para presidente da Corte de Apelação. Naqueles anos, sua vida era perfeitamente normal. Além disso, não foi com base nessas crises que se estabeleceu o diagnóstico de paranóia. Entretanto, reduz-se a crise (a posteriori, podemos chamá-la momento do desencadeamento) a uma concessão segundo a qual a psicose seria uma doença de desenvolvimento dissimulado, escondido. Como podemos valorizar a estrutura e, em particular, o problema de um diagnóstico precoce?
A pista que Lacan nos fornece é a de que qualquer coisa que seja colocada no real representa para o sujeito algo de si mesmo que nunca tenha sido simbolizado. Notamos ainda que é o estudo da psicose a fazer irromper o registro do real o que Freud sempre colocava como fator de ordem quantitativa que não permite exaurir a subjetividade no binômio imaginário-simbólico. Em particular, a dimensão do real nos levará a repensar, em termos diversos, o tema da pré-psicose não mais na pista de uma temporalidade linear, mas como o estado que precede o desencadeamento psicótico. E não só: a dimensão do real tirará o diagnóstico de psicose de certa dependência, do ponto de vista quantitativo, sempre presente em Freud sob a forma de perda total da realidade.
Ao examinar a estrutura do delírio, o estatuto da certeza que se gera aí, como distinto da crença neurótica, Lacan chega a colocar o dito como o elemento diferencial da psicose. Isso não resguarda a relação que o sujeito tem com as significações, com a dupla significante-significado: relação labiríntica e conectada com a história do sujeito, seja na psicose ou na neurose, mas relação do sujeito com o significante como tal. Na psicose, o significante não se localiza no Outro e, como conseqüência, não se encarna em outro sujeito no símile da inter-subjetividade (de fato, a relação com o símile, com o espelho, no psicótico, é sempre altamente problemática: o imaginário do psicótico tem formas monstruosas). A ação do significante não comporta identificações, mas se faz no real. Um significante significa, mas deixa o sujeito na perplexidade acerca do ponto de origem desse significado: quem quer dizer alguma coisa? Um órgão corpóreo, nenhum ou o Outro como tal? (no fundo, quem quer dizer é sempre o Outro, isto é, a história que já havia dito algo sobre o sujeito. Mas a relação com essa história é profundamente diferente para o psicótico, que tem sobre si a pesada tarefa de reconstruí-la, quase como se fosse o pai de si mesmo).
Em razão dessas premissas estruturais, que rigorosamente tendem a diferenciar a psicose da neurose, pareceria incompreensível a afirmação de que "Nada se assemelha tanto a uma sintomatologia neurótica quanto uma sintomatologia pré-psicótica" (LACAN, 1985). Mas não é assim; pelo contrário, a afirmação de Lacan tem uma lógica que nos propomos a explicitar, que comporta não só que o pré-psicótico não é neurótico. Para demonstrá-lo, não podemos nos contentar com fórmulas do tipo "o inconsciente é passado no mundo externo"; é preciso interrogar sobre o que é sintoma na psicose. Para fixar a atenção sobre as relações que nos interessa evidenciar, as do sujeito com o significante, e que podem nos dar indicações sobre a estrutura subjetiva, recordaremos que "É necessário conceber o significante, antes de tudo, como distinto da significação" (Ibid.).
Em ocasião da abertura da Seção Clínica de Paris, Lacan foi questionado sobre se também na psicose um significante representaria um sujeito para outro significante. Bem, não é esse o problema do psicótico (mas o é para nós e para nossa escolástica). O problema do psicótico é o significante não representativo, o significante como aquele que age, antes de tudo, fora da significação e, por isso, também da representação do sujeito3.
Consideraremos dois fragmentos clínicos, dois episódios de crises subjetivas e, portanto, de encontro com o real não simbolizado subjetivamente, em cujo séquito tem levado a diferentes diagnósticos.
Sofia, depois de uma briga com a amiga, enquanto voltava para casa, sentia suas frases retornarem à mente sem poder expulsá-las. O cachorro do vizinho, que sempre abanava para ela quando chegava, parecia-lhe diferente, escondido no escuro. Chovia. Sofia levava uma sombrinha, que devia protegê-la da chuva, mas diante do cachorro, sentiu-se perdida e tudo lhe pareceu diferente, nunca visto. O primeiro relâmpago foi para ela a luz de uma astronave que vinha prendê-la. Estava, ao mesmo tempo, em sua casa e no espaço, desligada do solo, presa no vazio, sentindo estar sozinha e desligada do mundo, em outros lugares, entre pessoas que não falavam sua língua e não compreendiam o que dizia.
Chiara, já no primeiro encontro, relatou com precisão como foi o início do processo. Encontrava-se na montanha, durante as férias de inverno, quando seu grupo de amigos foi dividido em dois subgrupos: o dos mais jovens, do qual fazia parte, e o dos mais velhos, que não queria a companhia dos mais jovens. Nesse último, estava sua melhor amiga, com a qual interrompe toda relação. De volta à cidade, passou a não se alimentar, mesmo sem necessitar de dieta. Não soube explicar o porquê de tal atitude, mas tinha a impressão de poder ter mais prazer... A mãe, preocupada, levou-a a uma dietóloga: ela se atém à dieta, mas quando pesa os ingredientes para se alimentar, sempre elimina algo.

Diagnóstico e transferência
A aparição de um significante novo, de uma nova estrutura nas relações entre os significantes de base, assume "um caráter devastador". Lacan coloca como "um núcleo irredutível" (LACAN,1985) na simbolização do sujeito essa falta de significante que interessa a relação edípica. Trata-se de um buraco e "Não existe nada mais perigoso que investir em um vazio" (Ibid., p. 238). Nesse caso, o sujeito não teve nenhuma possibilidade de se interrogar, de fazer questões; a questão se coloca primeiro, sem que o sujeito a tenha feito. Em outras palavras, na psicose, o momento de desencadeamento é estrutural e obriga o psicótico a uma antecipação lógica contínua (é o "Tróia" (Ibid., p. 59), que vem do Outro e pelo qual o sujeito se coloca no lugar do Outro. Ele se põe a reconstruir, a suportar o Outro que realiza nele a questão vivente. Esse colocar-se com o próprio ser no lugar do Outro pode se apresentar em vários níveis:
a) nível imaginário: assim o sujeito faz como o outro; aqui, a afirmação de Lacan sobre a semelhança entre neuróticos e aquela que só impropriamente podemos definir como pré-psicose;
b) nível simbólico: quando esse trabalho de imitação, esse esforço para manter-se longe do vazio não existe mais e incumbe o real do encontro ruim, a psicose floresce no delírio, que já há longo tempo estava implícito (como De Clérambault já havia colocado em evidência);
c) nível do semblante: seria a possibilidade mais feliz. O significante novo, inventado pelo psicótico, consegue dar certa curvatura ao real, muitas vezes no contexto da criação literária, artística ou científica, impondo-se no social.
Lacan nos recorda um exemplo desse encontro com o real, trazendo-o das suas apresentações do paciente:
Recorda aquele pequeno sujeito que evidentemente parecia, a nós, muito lúcido. Visto de que modo cresceu e havia prosperado na existência, em meio à anarquia, só um pouco mais visível que os outros, da sua situação familiar, era agarrado a um amigo, que havia tornado o ponto fundamental na sua existência e improvisadamente aconteceu alguma coisa e não era capaz de explicar o que. Concluímos que isto se referia à aparição da namorada do parceiro e hoje completamos dizendo que ele sentiu este fato como incestuoso, donde a defesa [...]. Este bravo jovem havia compreendido muito menos que nós. Colocava obstáculo frente a qualquer coisa e lhe faltava toda a chave, meteu-se no leito por três meses, para reencontrar-se. Era a própria perplexidade (Ibid., p. 238-239).
Ele acrescenta que um mínimo de sensibilidade nos faz tocar em algo "que se encontra sempre naquela que é chamada pré-psicose". E aqui não se trata de imaginar o que pode se passar pela cabeça de um sujeito que se encontra diante do vazio, mas de traduzir a razão disso4. Se o banquinho sobre o qual se apoia nossa solitária existência na multidão moderna é reduzido a ter só três pernas, e o sujeito se confronta, em uma encruzilhada da vida, com a falta de uma das pernas do banquinho, não se pode dizer que consegue estar sentado ali. Para Sofia, a falta de significante colocou em jogo o conjunto dos significantes, as relações que entre eles eram estabelecidas precedentemente. O mesmo não aconteceu com Chiara, que, ao evitar engordar, poderia ganhar novamente a posição no grupo. Isso é suficiente para se fazer um diagnóstico de histeria?
Sabemos o quanto um diagnóstico diferencial entre neurose e psicose é importante para decidir a condução do tratamento. O analista, porém, não se contenta com uma hipótese diagnóstica como faria um psiquiatra; ele é mais exigente e conduz as entrevistas preliminares. O que interessa é a existência de um sintoma que o sujeito possa colocar sob transferência. Em outras palavras, o analista parte da suposição dessa letra de gozo que o psicótico inventou, para que, na transferência, ela possa fazer cadeia.
Ainda que Sofia tenha sido vista em um serviço psiquiátrico, e Chiara tenha sido conduzida pela mãe ao serviço privado, em ambos os casos não existe um sintoma que, para o sujeito, faça demanda ao analista. Porém, em ambos os casos, as jovens desejam falar do que se passa com elas. Pode-se talvez afirmar que não existe uma demanda de análise subjetivável... Já Michel Silvestre afirmava a existência de psicóticos que procuram por analistas em número nem maior nem menor que as anoréxicas. Assim, seria mais justo dizer que as duas mulheres desejavam subjetivar o que lhes acontecia, isto é, construir qualquer coisa que organizasse melhor o gozo, enquanto não faziam as próprias produções. Se não fosse assim, não procurariam tratamento. O que importa é o analista atuar para se tornar interlocutor de modo que, aprés coup, nas entrevistas preliminares, uma demanda possa tomar forma.
Dessa forma, o problema se desloca todo sobre a condução das entrevistas, porque diagnóstico e sintoma se realizam sob transferência, tanto na neurose quanto na psicose. Assim, independentemente da estrutura, a questão é saber como construir um sintoma que seja capaz de interrogar o sujeito em nível de inconsciente, como operar uma retificação subjetiva. Nessa ótica, a categoria de pré-psicose é a de obstáculo lógico, mais do que de ajuda. Diferentemente, o tratamento viria decidido unicamente pelo contexto, e Sofia seria conduzida a fazer um bom exame da realidade, a reencontrar o fio de seu discurso de modo que evitasse o dever de inventar nova língua, por meio do reforço de certas identificações precedentes, com o convite implícito de colocar à parte a horrível experiência da crise. Chiara, ao contrário, seria escutada, em busca de qualquer coisa que interrogasse seu tornar-se mulher, o que daria à anorexia o valor de um grito que nós tratamos como apelo ao Outro, ao pai.

A evolução da busca de Lacan
Retomemos o percurso da busca Lacaniana, porque isso nos conduz a descobrir novos instrumentos para afrontar a situação de um sujeito cujo sintoma ainda esteja pouco definido, pelo menos na relação com o Outro do significante. Com o escrito Uma questão preliminar a cada possível tratamento da psicose (1998), Lacan dá um salto epistemológico em relação ao Seminário III e da à falta de um significante fundamental um estatuto lógico: a forclusão do Nome-do-Pai. Esse é um conceito que se separa da fenomenologia observável e, portanto, coloca as dificuldades como instrumento para o diagnóstico. O Nome-do-Pai é aquele significante que constitui a chave de volta (lacanianamente, o ponto de capiton) para toda operação metafórica, enquanto fornece ao sujeito aquele lugar vazio na cadeia significante. Tal lugar permite as operações de substituição e condensação; vale dizer, a significação do falo. é um significante totalmente assemântico, não significa nada e, por isso, presta-se a conectar entre eles as significações. Pode colocá-lo em rede enquanto representa o vazio que o significante, como tal, introduz na vida humana (a morte da Coisa como destino da pulsão). Ao mesmo tempo, isso permite defender-se mediante substituições significantes, recalque e retorno do recalcado. É como no jogo do quinze: os deslocamentos da trama são possíveis só se existir uma casa vazia.
Na psicose, portanto, a cadeia é bloqueada; o sujeito encontra-se em uma alienação que é absoluta diante do Outro, da qual não se separa um S1 que o represente. Como se vê, essa é uma definição estrutural, que contrasta com outra afirmação de Lacan (feita na sede da Seção Clínica, no dia de sua inauguração) na qual também na paranóia um significante representa um sujeito para outro significante. O fato é que na neurose o sintoma foi, até certo ponto, pensado exclusivamente segundo o paradigma exaustivo do recalque, portanto como metáfora; ao contrário, ele é o próprio tema da pré-psicose a nos mostrar que o paradigma de uma forclusão da metáfora (que corresponde à freudiana perda total da realidade) deixa um enigma a propósito do sintoma5.
Para buscar a solução desse enigma, Lacan, só no campo da psicanálise, seguiu uma estrada diferente daquela de fazer do impasse uma categoria nosográfica, o borderline, isto é, de fazer sintoma o não-sintoma. É uma via que, como veremos, permite recuperar uma versão do sintoma absolutamente freudiana, aquilo de uma fixação, de um agarramento indestrutível a uma forma de gozo que é, atualmente, produção de uma suplência subjetiva.
As etapas que levam a essa nova solução são, fundamentalmente, três:
1- O Seminário XI, em sua primeira lição sobre "Os nomes do pai". Tal lição permaneceu inédita porque, nesse meio tempo, a separação da IPA determinou mudança de prioridade. Se o Nome-do-Pai pode encontrar uma suplência (como indica o plural), quero dizer que a forclusão não é um mecanismo para pensar em termos absolutos; o ideal é que a compensação da qual Lacan falava no Seminário III não fosse só imaginária (identificação com a imagem do amigo, a compensação identificatória da qual fala na página 230), mas pode comportar certa reparação do simbólico;
2- a segunda etapa é o Seminário XVII, no qual Lacan consegue unificar pulsão, fantasma e vínculo social em uma única escritura, a dos matemas do discurso. Não nos esqueçamos de que foi a partir da lógica dos discursos que Lacan teve a inspiração de fundar uma Section clinique para transmitir o saber do analista no discurso clínico. O instrumento lógico dos discursos permitia a Lacan fazer um enlaçamento entre política e clínica e demonstrar como esses redistribuíram os postos na revolução do discurso universitário ao institucional. Era também a articulação que não se conseguia fazer na anti-psiquiatria; portanto, a ética da psicanálise, ao contrário da ética do sacrifício ou da luta (de Basaglia), permitia dar espaço ao que emerge na contingência da particularidade do sujeito psicótico;
3- enfim, a clínica do nó borromeo dará a Lacan a oportunidade de reformular a teoria do sintoma, elaborando, ali, um tipo de teoria ampliada, na qual faz da suplência do Nome-do-Pai o ponto de reparação de um defeito de simbolização. Isso abre a estrada para um diagnóstico diferencial, que pode prescindir da demonstração de um sintoma como mensagem6 e evitar, ao mesmo tempo, a operação ambígua de inventar novos sintomas do tipo psicose do órgão ou distúrbios de personalidade (que lido como o aforisma lacaniano segundo o qual a personalidade é a paranóia, o que faria dessa última um tipo de ideal implícito).

Teoria do sintoma
É importante sublinhar neste ponto que o progresso de Lacan na elaboração de uma teoria ampliada do sintoma nos abre possibilidades:
- individualizar uma estrutura comum para fenômenos como anorexia, toxicomania, alcoolismo, bulimia, psicossomática, depressão, pânico e também aquele que vem sendo chamado pré-psicose sem, no entanto, recorrer ao conceito de borderline ou de distúrbios de personalidade. Fato importante, não só porque tais conceitos foram elaborados em uma ótica genético-evolutiva (e, portanto, fora da orientação estrutural) e nem tanto porque a personalidade para Lacan é, como se dizia, a paranóia, mas sobretudo porque esses conceitos evitam, até o fim, a questão de uma clínica e de um diagnóstico sob transferência (que resguarda a particular cifra produzida pelo sujeito). Eles tendem a reconduzir a clínica psicanalítica para o lado de uma clínica do comportamento, da objetividade médico-diagnóstica e porque, ao dessubjetivar a patologia e a resposta do Outro, fazem referência a um sujeito constituído, mais que constituinte.
Mas não há dúvidas de que essas patologias pedem uma nova teoria do sintoma, e não só para os lacanianos, a julgar pelas expressões como psicossomática, psicose de órgão, patologias narcisistas e outras. Deparamo-nos com comportamentos que não dão lugar a uma demanda de tratamento clássico e em cujo sujeito não procura uma interpretação: esses não têm a estrutura da mensagem que nos interrogue no lugar do Outro. São, antes, respostas do Outro, qualquer coisa que o sujeito encontre sobre o seu caminho na vida social, até o ponto em que somos levados a dizer que tais fenômenos estão fora do discurso, fora daquilo que, no Outro, responde à estrutura significante. Isso implica, portanto, revirar a teoria do sintoma e do inconsciente e reconsiderá-la do ponto de vista daquilo que (no sintoma e no inconsciente) não responde no significante. Isso é do ponto de vista da pulsão. É uma teoria que põe no centro o problema do gozo e não as formações do inconsciente.
Podemos dizer que no último Lacan, a concepção do sintoma se aproxima de um modelo psicótico. Jacques-Alain Miller, nos Seminários de 96 e 97, tende a tomar, como modelo dessa forma de sintoma, o sintoma obsessivo.7 Isso é a conseqüência do fato de que o Outro vem caracterizar-se por uma falta estrutural e não contingente: não existe significante do gozo. A forclusão originária torna-se estrutural: no Outro não tem o significante que possa dizer o gozo, e o Nome-do-Pai torna-se externo ao Outro. Assim, o falo é o significante do desejo, mas só enquanto torna-se significante de um manque-à-jouir.
Nessa ótica, o sintoma, todo sintoma, torna-se uma suplência: toda formação humana é um modo de frear, de organizar o gozo, a pulsão de morte. O sintoma torna-se a forma que o sujeito encontra para lidar com a incompletude do significante. Existe quem passe para o recalque, o neurótico. E, então, o fantasma torna-se o modo de ter sob controle o desejo do Outro, mediante um objeto que o sujeito crê ter em mãos e que condensa do gozo recuperável, privado. Existem outras maneiras de apropriar-se do gozo, de introduzi-lo em uma dialética de alienação - separação e aqui os novos fenômenos da patologia se aproximam da psicose.
O sintoma é, portanto, do gozo que vem fixado por uma função simbólica: F(x). Vejamos como essa função pode ser pensada quando supre o Nome-do-Pai edípico: é uma letra, isto é, um significante só, já que não funciona a metáfora e, por isso, o Outro é saltado como cadeia significante: um significante assemântico, com o qual o sujeito faz frente ao gozo, transformando-o em letra de gozo. É uma estrutura que evoca a da Holofrase: S1 - S2 se grudam, fazem um e isso fixa o gozo, mas fora do discurso. Poderia se escrever S1 - a. Por isso a interpretação não funciona, pelo menos no modo clássico.
Assim, antes que a estrutura subjetiva seja decidida no Outro, ou melhor, para que "a insondável decisão do ser" (1998, p. 117) não venha ratificada no lugar do Outro, o sintoma torna-se o modo com o qual cada um pode gozar do próprio inconsciente, fazendo do sintoma o próprio parceiro: sempre que existe sintoma existe vida! Isto é, há negativização e fixação do gozo, pausa da pulsão de morte. Só que o sintoma como forma de gozar do inconsciente não demanda nada a ninguém porque, se existe demanda, conclui-se que exista perda de gozo. Lacan o antecipava no Seminário III, ao citar um caso de apresentação de enfermos: "Existe uma outra forma de defesa no que diz respeito a provocada por uma tendência ou por um significado proibido. É a defesa que consiste em não aproximar-se ao ponto do qual não existe resposta para a questão" (LACAN, 1985, p. 238).
Suponhamos que um semelhante S1 não seja o Nome-do-Pai (que vem sempre com o S2), mas um traço unário que tem a identificação, certamente, de modo instável. Poderia se dizer que é uma função exclusivamente simbólica: pai simbólico só enquanto morto, P0. Instância não castrada e não castrável, que pode também se chamar Super-eu, a entendê-lo Kleinianamente, um elemento discreto e fora do discurso. Efetivamente, essa nova articulação do sintoma, a que tínhamos chamado modelo psicótico do sintoma, tem como sustentação uma nova definição da função do pai. Esse S1, traço de identificação ideal, pode-se aproximar da identificação narcísica com a Coisa, que, como recorda Laurent, é o regime de identificação típico da melancolia (LP, nº 9). Pode-se também encontrá-lo na histeria, quando o pai vem idealizado como pai morto: "É um título, como ex-combatente" (Seminário XVIII, p.108). O retorno do gozo captura a modalidade da Coisa que cai sobre o eu; a pulsão se concentra toda na identificação ideal.
O que introduz a diferença e assinala a possibilidade de entrada no discurso (e, portanto, a saída da depressão) é preferivelmente o pai real, o que dá a pére-version: real nas duas direções, a do pai em carne e osso enquanto agente, instrumento da castração (Cfr. LACAN, 1992, p. 146) e aquele do real que tem no pai o seu gozo.

Teoria da clínica
Essa é a nova concepção de sintoma e suas conseqüências do diagnóstico. Com respeito à habitual (ao menos no âmbito lacaniano) oposição estrutural neurose/psicose, ora uma, ora outra conquista valor: a oposição letra/discurso. Essa não elimina a primeira, mas a estabelece. De que modo as três estruturas subjetivas entram no discurso e, eventualmente, em qual discurso? A psicose, que é fora do discurso do Mestre, pode entrar no do analista ou pode-se só manter em equilíbrio com uma suplência (ou com as passagens ao ato no social ou com as identificações)? Pode-se afirmar que as suplências (entre as quais retorna o sinthomo para Joyce) colocam em ato o que Lacan, no Seminário XVII, chama discursos insustentáveis?8
Lacan faz referência à matemática, que "não se pode construir se não a partir do fato que o significante possa significar a si mesmo" (LACAN, 1992, p.103). Analogamente, os discursos insustentáveis exprimem a tentativa (sintomática) do sujeito de proteger-se do postulado segundo o qual um significante não pode significar a si mesmo, isto é, o impossível no qual consiste a castração. O compromisso sintomático não se realiza no nível da significação e graças a ela, por deslocamento de significantes, mas no nível do vínculo social. O impossível de suportar não vem manipulado via falsas ligações significantes por ser, ao contrário, eliminado com um jogo de prestígio. As identificações imaginárias, as especularizações, ao serem manipuladas, levam a uma estrutura do discurso na qual o lugar da verdade (embaixo à esquerda) aparece esvaziado do matema que o ocupa, o qual à sua volta vai holofrazizar-se no lugar de comando (no alto à esquerda). Assim, a anoréxica, ao tomar o nada como objeto a, pode chegar a colocar no lugar da verdade o vazio e a identificar-se como aquele nada em uma deformação insustentável do discurso histérico.
A lei fundamental do significante não está, portanto, nas mãos de um sujeito cuja existência vem sempre direta. Isso, além de tornar insustentável, em nível social, a identificação anoréxica (que no social faz sintoma), fornece-nos a indicação para intervir, em nível de direção de tratamento, no que será levado a escolher a holofrase discursiva. Compreende-se, a exemplo, a utilidade dessa nova concepção do sintoma em patologias ditas como borderline, os adolescentes, os psicóticos ou pré-psicóticos e, em geral, no trabalho institucional, isto é, em todas as situações nas quais o sujeito apresenta identificações que não são discursivas, ou porque o discurso do Outro está fixado em uma holofrase, ou porque é passado na realidade do discurso social.
São duas situações diferentes. A primeira coloca o problema, que é de natureza ética. Colocam-se as barreiras à eventualidade da passagem ao ato ou do desencadeamento psicótico, ou constrói-se um lugar de acompanhamento que o possa acolher, de modo a fazê-lo jogar discursivamente. A segunda, como a fixação em um gozo regressivo, a exemplo bulímico, coloca a alternativa entre interpretar e, portanto, reforçar o sintoma ou coloca o sujeito em condição de falar do outro, propondo-lhe a experiência do pequeno grupo no qual pode emergir a diferença subjetiva.
Em ambos os casos não existe perda de gozo, mas tentativa de circunscrevê-lo em um discurso. A letra que opera essa fixação pode ser inscrita no corpo de forma mais ou menos intensa. Com esses sujeitos é necessário, então, operar uma leitura, uma escanção dos traços e da vida cotidiana, na procura das identificações das crises e das passagens ao ato, para construir o lugar, ainda que puramente virtual, de sua verdade subjetiva. É esse um trabalho preliminar que coloca em jogo um S1 distinto daquele que fez corpo com o sujeito em uma letra de gozo que o identifica nominando-o. A via para conectar a letra a um discurso não é, portanto, aberta pelo interrogativo e pelo enigma no qual se encontra o saber (S2) em posição inalcançável, em baixo, à direita, sem relações de impossibilidade com a verdade. Deverá ser um ato que permita ao sujeito interrogar-se sobre o saber, de uma nova maneira, a partir desse S1 e que, por ora, nos limitamos a definir como a autoridade clínica colocada em campo pelo desejo do analista.
Iremos ilustrar esse processo de instauração da transferência com uma vinheta clínica que os operadores do Anteme 110 de Bruxelas contam. Os educadores se dão conta de que um rapaz fugiu da comunidade. Perguntam-se sobre o que fazer e conversam com o responsável terapêutico. Discutem e decidem procurá-lo na cidade, sem, no entanto, nada fazer para levá-lo de lá. Dois educadores o encontram, o cumprimentam, oferecem-lhe um sorvete e, depois, retornam ao Antenne. À noite o rapaz retorna à casa. Esse episódio assinala uma escanção na relação com os educadores e a comunidade. A certeza de que o queriam preso, ali dentro, é substituída por uma interrogação sobre o que queriam dele; o desejo do Outro fez de seu comparsa fora da fixação superegóica que havia permeado sua existência.
Essas tentativas de fazer entrar o sujeito no discurso, muitas vezes, requerem trabalho em outros níveis, para introduzir as escanções no interior de uma codificação social para as quais têm contribuído a família e as instituições sociais. São escanções de tempo lógico, que podem se transformar nas múltiplas transferências nas quais o sujeito é preso. Um leitor é quem provoca a escolha da sua holofrasização, provocando uma série de movimentos do mesmo sujeito. Isso só torna-se possível pela colaboração ou pelo confronto entre os operadores, que podem adotar técnicas diversas ou que têm uma idéia precisa da psicanálise. Por isso é oportuno operar com um diagnóstico que é também transclínico e que parte do ponto de vista de como o sujeito está no trabalho, antes de cada questão, para fazer suplência com os próprios sintomas e lidar com o gozo. É, porém, um diagnóstico sob transferência, sob Outro, enquanto pressupõe que isso seja colocado na ótica da construção analítica.
Esse modo de entender o diagnóstico demonstra como o diagnóstico de estrutura subjetiva, muitas vezes, tinha o sabor do diagnóstico clássico, isto é, era visto como espécie de pronunciamento sobre o estado do sujeito que tem efeitos de segregação. Conceber, ao contrário, um diagnóstico em termos de discurso quer dizer, no fundo, esconder a leitura do momento de subjetivação (porque ninguém é toxicômano ou anoréxico vinte e quatro horas por dia), o que poderia se chamar diagnóstico dinâmico.
Não devemos nos esquecer de que a crítica de Lacan à sua própria concepção de intersubjetividade (aquela baseada sobre o esquema L) é conseqüente à colocação em evidência da estrutura do fantasma, que, em seu funcionamento, coloca à sua volta em discussão, que seja uma palavra plena, também no caso da neurose. O isolamento da letra, a construção do caso que se faz no trabalho à plusieurs, nada tem a ver com a idéia de que se trata de uma palavra plena. Mas o diagnóstico é sob transferência também por outro motivo. Nessa concepção do sintoma e do inconsciente como forma de tirar e de fixar um gozo, a interpretação é de parte do inconsciente do sujeito; entretanto, da parte do operador existe o ato. O ato do operador ou do terapeuta é o que leva o inconsciente a mover-se, que o leva ao trabalho para o qual o diagnóstico é sempre o resultado aprés-coup do ato; é precisamente um evento dialético que traz à luz o modo no qual o sujeito responde ao Outro. Poderíamos nos referir às neuroses atuais de Freud e ler a teoria do trauma à luz do tempo lógico, reformulado por Lacan como "Um mais a" (LACAN, 1975, p. 49).
Em suma, na pré-psicose, como nas demais patologias conhecidas por borderline, coloca-se em evidência que a possibilidade de diagnóstico é secundária à entrada do sujeito no discurso, que isso é o limite, uma prerrogativa do discurso humano. A tarefa dessa entrada, nesses casos, é confiada à oferta de um desejo que nasce em um discurso diferente daquele da normatividade edípica, o do analista. Se o universitário tem para oferecer o seu DSM, e a histérica, o seu amor humanitário, o analista se endereça para um sujeito segregado nas suas formas de gozo para fazer vacilar a letra do gozo, aquele (a) S (barrado) que holofrasiza o discurso do sujeito, para dar início a um movimento qualquer de metáfora. Opera com aquilo que Jacques-Alain Miller chamou o avesso da interpretação.

Uma teoria unificada do campo clínico
Com a introdução da categoria de discurso, Lacan reconsidera todo o campo da psicanálise a partir da pulsão e não mais do significante e dá uma teoria unificada que é, precisamente, de tipo continuísta e na qual identificação e pulsão são articuladas em uma mesma estrutura. Podemos nos perguntar, então, qual é, sobre o plano clínico, a figura comum que melhor responde a uma clínica pensada a partir do gozo e da suplência sintomática.
Existe outro ponto importante: nessa figura comum deverá ser encontrado um ponto para atravessar que corresponde ao impasse da adolescência e é o entroncamento no qual os sujeitos tomam estradas diversas. Esse ponto de impasse concerne à utilização do fantasma (freudianamente, a erotização dos fantasmas infantis), que constitui o fenômeno estrutural da adolescência como momento chave e crucial da subjetivação. A figura que, em termos clínicos, parece responder melhor a essa leitura unificada é a da depressão - melancolia versus mania. Mas ainda uma vez nos encontraremos simplesmente no lugar comum da psiquiatria atual, se não nos dermos conta de algumas precições que a elaboração lacaniana torna possível.
É necessário, porém, precisar de outra forma. Com esse ponto de atravessamento, trata-se de indicar qualquer coisa que não seja propriamente uma estrutura clínica: de fato, Lacan não dá à depressão o posto de estrutura. A depressão não faz sintoma, não é formação do inconsciente; é letra e não discurso. Entretanto, as outras escolas procuram fazer, desses estados estrutura; nós as colocamos fora do discurso e procuramos uma instância transclínica com a qual nos orientamos. A instância transclínica é o fantasma e, nesse caso, a sua desnecessidade ou falta. Se o fantasma é o que liga o desejo e a causa (sob a forma de objeto causa do desejo), Laurent nos adverte que: "Mania e melancolia desenham aqui dois modos de separar o desejo da causa" (LP, nº 9). É um modo de dizer que do ponto de atravessamento da adolescência a alienação não se dialetiza com a separação, porque o fantasma não liga desejo e causa. É daqui que originam essas patologias que são chamadas alienação sem separação ou, como nos parece mais preciso, defeito de separação por defeito de alienação. Substancialmente, não têm extração do objeto com o qual se chega à montagem da pulsão no fantasma.9
Se a pulsão não se liga a um objeto, não pegará a estrada de um desejo articulável. Como escrever, então, um matema para esse impasse do fantasma, para essa alternância de depressão-melancolia e de mania e mostrar, ao mesmo tempo, que esses são o avesso uma da outra, enquanto duas voltas da pulsão e dois modos de ter o desejo separado da causa? Ao escrever esse matema, podemos observar o oscilar pulsional que se verifica nessas formas patológicas e que faz com que, por exemplo, a bulimia seja um momento de desencadeamento pulsional em relação à anorexia, isto é, à polaridade maníaca que, já presente na anorexia, torna-a mais evidente. Podemos sobretudo compreender porque muitos sujeitos que têm traços de tipo paranóide ou esquizofrênico permanecem em uma evolução tal que os colegas psiquiatras devem diagnosticar como distúrbio bipolar (ou esquizo-afetivo?).
O matema que poderia indicar essa espécie de balança instável da pulsão na qual não existe lugar para o sujeito barrado poder ser: (A) < > (a). Podemos também mostrá-lo assim:


A relação entre os dois elementos do matema é a de circularidade que indica uma não-função. O sujeito não existe, ou melhor, permanece inteiro, patológico e fora do discurso, enquanto a entrada no discurso se dá pela via fálica, isto é, via negativização do objeto e sua introdução na pulsão com recuperação de gozo. Se não existe essa passagem, o gozo se apresenta pleno, em que as únicas escanções são das letras, inscritas ou no próprio corpo ou no social.
Como ler essa não-função circular sobre o registro melancolia-mania? Partimos da mania: nela, disse Lacan, existe uma não-função do objeto (a). O resultado é, de certo modo, um total desequilíbrio sobre outra vertente, a das significações que proliferam e se mobilizam em fuga contínua e que não se pode capturar. Não são associações; é a corrente maniacal. Isso porque não existe cadeia significante. De fato, é o que faz com que o inconsciente funcione como linguagem, como cadeia; são os controles, os vínculos e aquilo que não existe na mania. Associações, controles e vínculos funcionam só para um objeto que, metonimicamente, fixa o gozo e esconde o desejo. O ponto de estofo só funciona se existe um gozo que, metonimicamente, retorna e que a função do Nome-do-Pai se encarrega de anular, de metaforizar, de levar via na cadeia associativa (Freud dizia que, na mania, o sujeito triunfa do pai, mas o dizia sem considerar a carga mortífera da pulsão de morte que existe nesse triunfo, como demonstra o risco de vida e a alteração dos mesmos parâmetros biológicos na mania).
Assim, a mania é rejeição do inconsciente pela não função do objeto (a). O maníaco se perde em uma série infinita e descontrolável de S1, S1, S1, S1... que nunca faz vínculo. É uma língua privada que nada tem a ver com linguagem. O sujeito, livre do objeto, observa um alívio que o faz afrouxar todas as amarras, inclusive aquelas relativas ao significante. Por exemplo, a função maniacal do álcool é a de adormentar o objeto extremamente presente e, assim, o sujeito desinibe-se. A excitação maniacal pode parecer uma festa, mas é uma sucessão desorientada de elementos singulares da linguagem, livre das constrições da semântica, emancipada do real.10 De qualquer modo, o sujeito é esmagado sobre a letra.
Sobre a outra vertente, a melancolia-depressão, é o contrário: ceder do Outro (A) no mais puro modelo de luto e melancolia (FO, 8). O que distingue o luto da melancolia é que, a partir da perda do objeto real, o trabalho do luto se encarrega de reelaborar esse buraco central (com o último Lacan, diremos buraco originário, forclusão originária), ao recorrer à ressistematização e à mobilização de todas as significações (fálicas) da vida do sujeito. É a reparação da ferida fálica que recorre aos recursos fálicos, ao inconsciente, à linguagem.
Na melancolia, ao contrário, tem-se uma falência do sujeito em relação a essa tarefa: o sujeito se exime da tarefa de bem-dizer o objeto, isto é, a falta do objeto. Como um vil (mas a distinção entre forclusão na melancolia e recalque na depressão menor é estrutural), o sujeito se recusa ao desejo, isto é, ao dever de colocar em boa ordem e em boa conexão as próprias idéias (os significantes) para circunscrever o buraco da falta de objeto. É um rejeito do inconsciente pela não-função do Outro. Aqui o desejo que se apaga, o afrouxamento, também psicomotor, que não é típico de uma estrutura, mas que se pode reencontrar em toda estrutura: neurótica, perversa, ou psicótica, porque todas as três são presas ao dever de bem-dizer, isto é, com a função de suplência que a linguagem diz respeito, do gozo puro. Digamos que o sujeito é totalmente ocupado pelo objeto, que a cadeia significante se comprime, afrouxa e as significações não. Por isso que não é da pulsão? Nesse caso, a pulsão emerge como pulsão de morte no estado puro, como na melancolia. O sujeito é totalmente esmagado sobre o objeto, objeto horrível, pleno, que não passa pela pontuação fálica e deve recorrer ao ato (também suicida) para introduzir uma falta.
Retornemos sobre a valência cujo pólo depressivo existe nos chamados borderline. A patologia borderline teria em comum com a depressão essa recusa do Outro; é uma manobra que, para tentar a separação sem passar pelo Outro, mobiliza os objetos que não são causa de desejo, mas objetos infantis, regressivos, que colocam freio ao gozo mortífero desencadeado pela presença desse objeto inominável, enquanto não negativizado pelo significante. Assim, a comida na anorexia/bulimia, a droga, o álcool fazem função de objetos separadores, falsos, porque não encontrados sobre o corpo do Outro. Portanto, não se constrói um fantasma com esses objetos, dado que se reforça uma identificação, como já dizia Freud quando afirmava que a droga procura um reforço identificatório.
Nesse ponto, a questão que expressamos no título pode encontrar hipótese de resposta sobre qual diagnóstico de psicose se aproxima da expressão lacaniana segundo a qual essa seria uma "insondável decisão do ser". Dessa decisão, a nossa escola pôde explicitar duas características, em dois momentos sucessivos, que estiveram bem marcadas em duas intervenções de Jacques-Alain Miller: em 1986, ele desenvolveu como a decisão psicótica concerne o tema da liberdade humana, em oposição à lâchete moral frente ao significante, típica da mania.
Em 1992, ao contrário, mostrou-nos como essa constitui o protótipo da ironia - em respeito ao real - em oposição ao humorismo com o qual o significante nos defende do real.

Por uma clínica da suplência
Concluiremos fazendo menção àquela que poderia se chamar a nova questão preliminar. Se é preliminar a todo tratamento colocar em evidência a função do Nome-do-Pai e sua forclusão, no tratamento dos novos sintomas é preliminar deixar claro a função de suplência do Nome-do-Pai. Para esclarecer essa questão, Lacan encontrou a estrutura do nó borromeano. Ele procurava uma colocação para o objeto (a) como falta estrutural que caracteriza o sujeito. A hipótese era colocá-lo na estrutura da questão em que aparece como quarto termo da lógica do amor11, resumo da frase: "1) Eu te pergunto (Imaginário) 2) de negar-me (simbólico) 3) isto que te ofereço (Real) porque não é isto". A expressão "não é isto" nos diz que coisa é o objeto (a).
Na estruturação do nó, Lacan colocará o objeto (a) no espaço central que, normalmente, assegura a manutenção do nó. Quando, porém, os três anéis não são corretamente enlaçados, e para que se mantenham juntos, mesmo se não mais em modo borromeico, será formado um quarto anel que pare a soltura de um ou de todos os outros (desencadeamento). Esse quarto anel é o que mostra a função da suplência. Trata-se, portanto, de uma suplência "ao vazio improvisadamente advertido pela Verwerfung inaugural" (LACAN, 1998).
O ponto de partida da elaboração dessa suplência é encontrado no Seminário VIII: o silêncio de Sócrates no Banquete é o amálgama incluído no Outro, que organiza o Outro em posição de estimação. Nesse lugar, Lacan coloca um significante diferente dos outros S(A), sem o qual os outros significantes não representam nada. É uma forma de escrever que, frente ao gozo, o Outro não existe; é a função fundadora do "defeito no universo". Aparece depois, no Seminário XX, a língua, isto é, um simbólico desligado do Outro e referido ao Uno do gozo. Nesse ponto, o Nome-do-Pai não é um modo de suturar a divisão do Outro, o do mito freudiano. O nó borromeo é o Uno do gozo: na heterogeneidade dos três registros, real, simbólico e imaginário, existe um medium, não ideal, o anodamento borromeano.
O anodamento, porém, é estruturalmente forcluído e requer um quarto elemento, implícito ou explícito, que faça nó: para Freud, o quarto, explícito, é o Édipo. Lacan individualiza essa função de suplência como a de dar nome às coisas12. O quarto elemento supre essa função de nominação que falta no Outro. O desencadeamento da psicose não é a ruptura do anel do simbólico e, como tal, não será mais a condição necessária e suficiente para fazer o diagnóstico de psicose. Pode-se pensar que essa venha a ser reparada e, assim, o diagnóstico deverá recolher os traços da suplência. Devemos notar que nessa perspectiva do nó, também o ato do analista, o avesso à interpretação, torna plural: corte, escanção, equívoco, suplência, simbólica.
Uma última observação a título de conclusão do tratamento. No tratamento das novas patologias, em nossa experiência, emerge um problema: são muito freqüentes os adolescentes, em particular bulímicos e toxicodependentes, para os quais o tratamento torna-se a ocasião de acesso ao fantasma e, portanto, a uma instituição subjetiva. É o contrário de uma análise encerrada que deveria levar à destituição subjetiva e ao atravessamento do fantasma. Nesse ponto, parece não haver mais transferência e os sujeitos interrompem o tratamento. No fundo, a escanção que induz a forma de se colocar o sintoma na entrada no discurso tem efeito estabilizante, que atua propriamente em como se coloca em função o fantasma. Trata-se de um trabalho que, na passagem da letra ao discurso, segue, preferivelmente, no sentido do funcionamento do Édipo ou de qualquer modo de suplência sintomática. É, seguramente, um efeito terapêutico, e, para outros andamentos, é necessário uma decisão do sujeito. Mas isso não aponta problemas para a psicanálise?
Já que é a ética do discurso analítico que permite esse movimento, não podemos ver uma resposta para o problema na tendência a recorrer ao grupo para o tratamento dessas patologias? O grupo poderia oferecer ao sujeito, mediante as transferências laterais, a ocasião para recontratar a definição social do sintoma e, por isso, colocar à prova o próprio fantasma e sustentar-se diferentemente em sua procura. É essa a indicação que nos vem pelo trabalho em equipe nas instituições. O que a equipe sustenta com o prender desse ato é a obra do sujeito. A presa do ato de suas letras de gozo cria "nova semântica13", uma interpretação do joui-sens.

Referências
LACAN, Jacques. O Seminário Livro 3 - As psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.
LACAN, Jacques. O Seminário Livro 17 - O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992.
LACAN, Jacques. O Seminário - Livro 18: D'um discours qui ne serait pás du semblant.
LACAN, Jacques. O Seminário - Livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1975.
LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.


Endereço para correspondência Piero Feliciotti
via A. Lucentini, 14 - 62029 - Tolentino
E-mail: orfeove@tin.it

Carlo Viganò
E-mail: carlo.vigano@fastwebnet.it

Roseli Cordeiro Pereira (Tradução)
E-mail: barcia@barbacena.com.br

Artigo recebido em: 24/4/2007
Aprovado para publicação em: 14/5/2007



*Psiquiatra, psicanalista, psicodramatista. Diretor da Scuola di Psicoterapia ICLeS - Instituto per la Clínica dei Legami Sociali - Sede di Macerata. Itália.
**Psiquiatra e psicanalista radicado em Milão. Membro da Associação Mundial de Psicanálise e da Causa Freudiana de Paris, integrante da Comissão de Saúde Mental da Associação Mundial de Psicanálise.
1O processo que guiou o nascimento do DSM colocou os psiquiatras modernos em situação que recorda, longinquamente, a de Lacan: de fato, a dependência do homem pelo significante foi imposta sob a urgência do fator econômico, da lei de mercado, que leva a medir tudo na tentativa de reduzi-lo em significante, em sistema contábil. Do ponto de vista do método, essa evidência resulta da combinação de dupla metáfora: a oitocentesca do homem-máquina-a-vapor (termodinâmica) e a atual do homem-computador (cibernética). É esse processo que põe a psiquiatria diante da linguagem como tal e de um real que foge sempre e vem talhado fora da economia das satisfações, e a tal ponto o psicótico é isento das satisfações sociais de colocar em discussão, de maneira radical, o mesmo vínculo social. Toda a impostação do cognitivismo com sua obsessão pela valorização objetiva, não faz outra coisa que evidenciar - sobre registro contábil - essa dependência estrutural do significante. Ao contrário, o discurso do analista opera uma reviravolta na qual a dependência pelo significante passa do discurso de mestria ao do inconsciente.
2Lacan refere-se, aqui, ao eixo a-a' do esquema L.
3É a questão posta pelo matema S(A), assim vizinho à posição psicótica, que coisa é aqui o S? Qualquer coisa que seja é da parte do sujeito e não do Outro; no gráfico, é da parte da resposta e não da pergunta; é qualquer coisa da qual o sujeito se apropria na separação do outro e que cria, como significante novo, como invenção. É esta a letra? Estruturalmente sim; ainda se esta letra deve passar pelo Outro para aproximar-se à sublimação e não ser mortífera, como também para tornar-se sintomática, nas entrevistas preliminares.
4Porque a diferença é de estrutura: no fundo, também o neurótico é perplexo, só que pode colocar no inconsciente a perplexidade que, depois, retorna a interrogá-lo no enigma do sintoma, isto é, pode removê-la, graças ao Nome-do-Pai, que faz o trabalho de representar o sujeito. O mito do Pai, o mito edipico, serve ao neurótico para estar longe da perplexidade sobre o Outro e sobre sua falta estrutural.
5Como Jacques-Alain Miller colocou em evidência, até certo ponto do seu ensinamento, Lacan pressupõe, mas não formaliza o Real. Assim, a relação Nome-do-Pai/ Desejo da Mãe, vem a corresponder ao Simbólico/Imaginário: o DM não Dom no Nome do Pai é antes, então, aquele das fantasias, e não do fantasma, este DM entrega à criança um espaço onisignificante no qual tudo é possível. É um pouco a vertente Kleiniana de Lacan, antes da introdução do fantasma. A reprovação disto parece-nos dada pelo fato que, se partimos da oposição dos dois registros, Simbólico versus Imaginário, e isto é do esquema L, a psicose (e a pulsão) são reconduzidas a um puro mecanismo imaginário no qual o delírio é qualificado de produção irreal. Entretanto, em Uma questão preliminar, Lacan corrige (a posteriori) o esquema R, especificando que, a partir da introdução do objeto (a), o Real torna-se um lado de Moebius, o que provoca uma torsão da relação entre Simbólico e Imaginário que não é mais de correspondência.
6Na segunda parte do seu ensinamento, passado pela dialética do reconhecimento ao sujeito e como efeito da estrutura de linguagem, Lacan se desembaraça da retórica da mensagem e chega a dizer que a linguagem não serve para comunicar, mas para fazer a marca de um sujeito. Portanto, ao avesso, nenhuma letra, sem que o Outro a leia.
7Na lição de 21 de maio de 1997 (L'autre qui n'existe pas et ses comités d'éthique), Jacques-Alain Miller introduz a referência à metapsicologia da neurose obsessiva de inibição, sintoma e angústia, referência que serve de guia no Seminário do ano sucessivo (O parceiro-sintoma) e que é desenvolvido amplamente através do comentário do artigo de Freud, em particular nas lições de 3 e 10 de dezembro de 1997.
8Assim temos chamado a modalidade de discurso na qual o lugar da verdade vem esvaziado imaginariamente mediante uma identificação holofrástica. Criam-se deste modo as condições das quais fala Lacan no Seminário XVII, pela qual o sujeito se desembaraça do "do dinamismo do trabalho da verdade."
9Parece-nos, além disso, que essa elaboração torna impraticável um conceito como o de metáfora débil para definir o que está em jogo na passagem perigosa da adolescência. De fato, que seja para nós um forte é antes o mito com o qual o neurótico se assegura do Outro. Se seguimos a revolução que a rotação dos discursos torna possível, acordamo-nos que no fundo a metáfora é débil, como demonstra, no plano inferior do discurso do analista, o marcador da impossibilidade entre S2 e S1. Em outras palavras, a última verdade do discurso histérico é que o pai é castrado do fim ao início e portanto que a sua intervenção mítica não poderia remeter totalmente em circulação um gozo para sempre perdido. Portanto além do Nome-do-Pai (S2), o S1 resta uma possível invenção (existe do Um) também se e propriamente por que é, no fundo, um árbitro, um salto no vazio, um ato criador e sem garantia. Mas é propriamente isto que une em S (A), a posição do neurótico e a do psicótico, em uma "insondável decisão do ser". Pode o pior (como é o trabalho extenuante do psicótico para reconstruir-se), uma letra que mata, como disse Lacan, mas também uma possibilidade de liberdade (não sem o Outro). O único elemento que nos deva parecer restar débil é, então, a lógica dos discursos, de tal modo que o sujeito possa concluir ai uma revolução. Essa debilidade discursiva pode ser ausente, a exemplo no interior da prática institucional (mas também no discurso familiar holofrasizado), que vos opõe, ao contrário, o vínculo débil de uma identificação forte. Esse discurso mascarado débil anotação, que obriga o sujeito àquelas deformações discursivas que tornam-se sintomáticas (enquanto instáveis) para a organização social (e familiar).
10J. A. Miller, D.E.A. 1986-87.
11Na noite anterior da lição de 9 de fevereiro de 1972 do seminário XIV,... Ou pire, uma pessoa lhe apresentou a figura do esquema do Borromeo e, súbito, esta parece a Lacan mais propícia que a do tetraedro sobre o qual estava trabalhando.
12[...] eu mostro a função radical do Nome-do-Pai, que é de dar as coisas, com todas as conseqüências que isto o importa, até ao gozo especialmente". J. Lacan "R.S.I", Ornicar?, nº 5, inverno 75/76.
13J. A. Miller, "Le plus-de-dire", La cause freudienne, nº 30. 1995.

 

Certeza e crenças delirantes

Certeza e crenças delirantes

Certainty and delusional beliefs


Cristia Rosineiri Gonçalves Lopes Correa*
University of Warwick (UK)



RESUMO
O presente artigo examina a abordagem da certeza e das crenças delirantes na filosofia e na Psicanálise. Argumenta que, enquanto Wittgenstein proporciona uma compreensão de conceitos psicopatológicos como as crenças delirantes e suas relações com os julgamentos de racionalidade, Lacan, na Psicanálise, parece sugerir que é a certeza subjetiva o que conota certas crenças como delirantes. Propõe, nessa direção, que o argumento apresentado por Lacan coloca em questão a sugestão de Wittgenstein de que a crença delirante seria constituída por uma falha da racionalidade.
Palavras-chave: Certeza, Crenças delirantes, Lacan; Racionalidade, Wittgenstein.

ABSTRACT
This article examines the approach to certainty and delusional beliefs in philosophy and psychoanalysis. It suggests that whereas Wittgenstein provides an understanding of psychopathological concepts such as delusional beliefs and its relationship to judgements of rationality, Lacan, in psychoanalysis seems to suggest that it is subjective certainty what marks out beliefs as delusional. In this sense, the present article proposes that Lacan’s account questions Wittgenstein’s suggestion that delusional beliefs would be constituted by a failure in rationality.
Keywords: Certainty, Delusional beliefs, Lacan, Rationality, Wittgenstein.



A VISÃO PSIQUIÁTRICA TRADICIONAL SOBRE CRENÇAS DELIRANTES A crença delirante, na qualidade de um elemento que constitui um quadro psicótico, é freqüentemente definida como uma falsa crença que é sustentada a despeito de evidência contrária. Uma crença falsa que não é justificável em termos do background educacional e cultural do paciente, e que é sustentada com completa convicção e que não pode ser abalada por argumentos (HARRE e LAMB, 1986).
Flew (1973, p. 94) estabelece como critério da presença de uma crença delirante a condição de ela ser completamente indefensável. Para o autor, uma crença é considerada delirante na medida em que ela descredita o sujeito da crença e, indiretamente, a si mesma. Glover (1970, p. 134-135), por sua vez, argumenta que a crença delirante é uma categoria especial de crenças falsas, estabelecendo ‘esmagadora’ evidência existente contra ela como o critério para considerar como delirante uma dada crença. Segundo ele, o critério da falsidade torna delirante uma dada crença quando essa falsa crença não apresenta abertura para persuasão racional, quando ela não é alterada diante de uma ‘esmagadora’ evidência existente contra ela. Pelo contrário, mesmo diante disso, de acordo com Glover, crenças falsas delirantes se mantêm não-abaladas.
Em situações nas quais eu sustento uma crença falsa a despeito de ser apresentada uma esmagadora evidência contra ela e conseqüentemente o meu agir não poder ser explicado em termos de crenças comuns em meu grupo ou sociedade, a única explicação que parece restar é que minhas habilidades de fazer julgamentos com base em fatos práticos estão prejudicadas em uma extensão não usual (GLOVER, 1970, p. 135, tradução nossa) 1.
Entretanto, a despeito de essa definição de crença delirante ser encontrada na maior parte dos modernos manuais de Psiquiatria e Psicologia e parecer ser amplamente aceita, nem todas as crenças delirantes são culturalmente atípicas, nem incorrigíveis e nem necessariamente falsas crenças.
Ainda no modelo psiquiátrico tradicional, Gelder et al. (1983) oferecem uma solução para o impasse colocado pela ênfase psiquiátrica tradicional sobre o papel desempenhado pela falsidade na constituição de crenças delirantes. Eles definem crença delirante como freqüentemente, mas não invariavelmente, uma crença falsa sustentada com grande convicção, que não pode ser alterada diante de uma evidência que a contradiga. De acordo com os autores, a crença delirante não é uma crença convencional, porque ela está em discordância com o background educacional e cultural do paciente.
Uma crença delirante é uma crença firmemente sustentada, a despeito das evidências contra ela, não sendo uma crença convencional passível de ser sustentada por alguém, dada sua bagagem educacional e cultural. Essa definição intenciona separar crenças delirantes, que são indicadoras de desordem mental, de outras crenças fortemente sustentadas, que podemos encontrar entre pessoas saudáveis. Uma crença delirante é habitualmente uma crença falsa, não o sendo invariavelmente (GELDER et al., 1983, p. 12) 2.
Dessa maneira, argumentam que crenças delirantes têm de ser distinguidas das crenças não-delirantes de sujeitos normais, mas que são igualmente impermeáveis a argumentos racionais e fundamentados. O fato de, em circunstâncias excepcionais, crenças delirantes poderem ser ou tornar-se subseqüentemente verdadeiras mostra que não é o critério factual o de demarcação para estabelecer crenças como delirantes ou não. Antes, para eles, o critério para estabelecer uma crença como delirante é a ausência de bases racionais para sustentá-la (GELDER et al., 1983, p. 12-13). Assim, a crença delirante é definida por eles não mais como falsa, mas como uma crença não-fundamentada.
Embora via de regra as crenças delirantes sejam falsas crenças, em circunstâncias excepcionais elas podem ser verdadeiras ou subseqüentemente podem tornar-se verdadeiras. Assim, um homem pode desenvolver um delírio de ciúme em relação à sua esposa na ausência de qualquer evidência razoável de infidelidade. Mesmo se sua esposa está sendo infiel, nessa circunstância a crença em questão é ainda delirante, caso não existam fundamentos racionais para sustentá-la. Exceções desse tipo nos alertam que não é a falsidade da crença que determina se ela é delirante, mas sim a natureza dos processos mentais que conduziram a ela (GELDER et al., 1983, p. 13). 3
No entanto, a partir da sua reivindicação da racionalidade como elemento faltante na constituição de crenças delirantes, conclui-se que para eles as bases racionais para sustentar crenças são avaliadas a partir de razoáveis evidências factuais. Em outras palavras, parece que para os autores os parâmetros para avaliar a racionalidade da crença de alguém são supridos pelas razoáveis evidências vindas dos fatos, o que fica claro no exemplo dado por eles na citação anterior, do desenvolvimento de um delírio de ciúme. De acordo com os pesquisadores, a falta de razoável evidência de infidelidade nesse exemplo não oferece bases racionais para essa crença, e a falta de bases racionais torna essa crença delirante.
Como resultado, ainda que incluindo a consideração de crenças verdadeiras no conceito de delírio, a ruptura com critérios factuais feita por essa abordagem é apenas aparente, uma vez que permanece a ênfase sobre os fatos. Além disso, ao definir crenças delirantes como crenças não-fundamentadas, eles solucionam o enigma colocado pelas crenças verdadeiras no conceito de delírio. Por meio dessa abordagem, crenças delirantes podem ser verdadeiras, mas implicam que a crença falsa inevitavelmente caracteriza o delírio – o que não é verdade. Em outras palavras, a partir dessa abordagem constata-se que a falsidade, embora não necessária, é uma condição suficiente para estabelecer uma crença como delirante. Conseqüentemente, essa abordagem não ajuda a distinguir uma crença delirante de uma outra não-delirante, se ambas são falsas e pelo menos aparentemente impermeáveis à argumentação racional.

WITTGENSTEIN SOBRE CERTEZA E SABER Wittgenstein (1969, 1997) apresenta argumentos filosóficos que visam enfatizar o papel constitutivo desempenhado pela racionalidade na estrutura conceitual das razões que as pessoas dão para justificar suas ações. Ele enfatiza o papel desempenhado pela racionalidade na atitude de reivindicar certeza e levantar dúvida dentro dos jogos lingüísticos. Nesse sentido, na medida em que aborda a certeza na sua inserção nos jogos lingüísticos, a leitura de Wittgenstein parece sugerir um corte com a certeza transcendente ligada a seu conceito de espírito.
As regras dos jogos de linguagem circunscrevem as proposições que descrevem o quadro de referências que o sujeito herda e que o faz discernir o verdadeiro do falso. Essas regras podem ser aprendidas puramente pela prática, sem aprender quaisquer regras explícitas (WITTGENSTEIN, 1997). Dessa maneira, a certeza é balizada no interior dos jogos lingüísticos, uma vez que certas proposições empíricas rígidas podem tornar-se fluidas, e proposições fluidas podem tornar-se rígidas. Assim, para Wittgenstein, a verdade de certas proposições empíricas pertence ao nosso quadro de referências (WITTGENSTEIN, 1969, p. 35, 83). A partir dessa reivindicação, o autor parece emparelhar certeza e verdade, pois para ele alguém pode distinguir o verdadeiro do falso quando se norteia por um quadro de referências herdado dos jogos lingüísticos.
Segundo Wittgenstein, a palavra “certo” expressa completa convicção, ausência total de dúvida, um estado no qual alguém busca convencer outras pessoas. Ele qualifica esse estado de certeza subjetiva. ‘Com a palavra “certa” exprimimos convicção, completa ausência de qualquer dúvida, e, a partir daí, tentamos convencer as outras pessoas. É a certeza subjectiva’ (WITTGENSTEIN, 1969, p. 65, 194).
Wittgenstein argumenta que nossa visão de mundo depende de um background de certeza, e que alguma coisa tem de nos ser ensinada como base, que existe um conjunto de proposições tidas como “certas”, das quais não duvidamos e sobre as quais vêm se apoiar as nossas dúvidas. O jogo de dar e perguntar por razões que possam vir a fundamentar as crenças, de apresentar reivindicações acerca do saber e da dúvida, depende de um background de coisas que nós não colocamos em questão e não duvidamos. Então, Wittgenstein sugere que alguém pode sustentar coisas como certas, sem oferecer razões explícitas para elas. Em outras palavras, Wittgenstein sugere que alguém pode reivindicar estar certo acerca de coisas que ele sempre ouviu e leu. Pode reivindicar estar convicto acerca de um arsenal de informações que ele adquiriu por toda a sua vida de quem tinha autoridade nos assuntos em questão para lhe ensinar, como as proposições de que a Terra existe desde muito antes do seu nascimento, de que a água ferve e não congela a 100 oC, de que ele tem pés etc. De acordo com Wittgenstein, alguém pode estar convicto de proposições como as descritas, sem precisar apresentar fundamentos para justificá-las.
Acredito que tenho antepassados e que todos os seres humanos os têm. Acredito que há várias cidades e, em termos gerais, nos principais fatos da geografia e da história. Acredito que a terra é um corpo na superfície do qual nos deslocamos e que não desaparece subitamente tal como qualquer outro corpo sólido: esta mesa, esta casa, esta árvore, etc. Se pretendesse duvidar da existência da terra muito antes do meu nascimento, teria de duvidar de todas as espécies de coisas que são ponto assente para mim (WITTGENSTEIN, 1969, p. 73, 234).
Assim, Wittgenstein conclui que a certeza precede as razões dadas por alguém para justificar suas reivindicações, ou seja, a certeza pode ser reivindicada por alguém, sem ele necessariamente possuir razões para isso. Ele não precisa ter fundamentos para sua certeza. A criança aprende, acreditando no adulto. A dúvida vem depois da crença (WITTGENSTEIN, 1969, p. 57, 160). Se uma criança puder duvidar imediatamente daquilo que lhe ensinam, isso só pode significar que ela era incapaz de aprender certos tipos de jogos de linguagem (WITTGENSTEIN, 1969, p. 85, 283).
Aprendi uma enorme quantidade de coisas e aceitei-as na base de autoridade de homens; depois achei que algumas dessas coisas se confirmavam e outras não, de acordo com a minha própria experiência (WITTGENSTEIN, 1969, p. 57, 161).
Entretanto, Wittgenstein argumenta que é impossível apresentar proposições como absolutamente certas, como fez Descartes (1986), porque se pode duvidar de qualquer certeza individual em tais e tais circunstâncias, caso essas proposições estejam embasadas em razões fundamentadas em experiência prévia. Antes, essas proposições são consideradas certas porque elas desempenham um papel vital e normativo em nossos jogos de linguagem. De acordo com Wittgenstein, embora a certeza não seja necessariamente infalível, o sujeito não tem nenhuma razão geral para duvidar desse arsenal de saber herdado por ele, o sujeito não duvida geralmente disso e ele não está, de fato, em uma posição para duvidar disso (AUDI, 1995, p. 979-980). Dessa maneira, para Wittgenstein, a certeza supre um background para o jogo de dar razões ou de duvidar, existindo diferentes tipos de certeza.
Cabe aqui ressaltar que, se de um lado Wittgenstein sugere que a certeza precede a apresentação de razões no sentido de que a certeza pode ser reivindicada sem razões para justificá-la como a proposição de que eu nunca estive na Lua, do outro lado ele enfatiza o papel desempenhado pela racionalidade fundamentada em prévia experiência no jogo de dar razões ou duvidar. Em outras palavras, para Wittgenstein, embora o sujeito não tenha nenhuma razão geral para duvidar de coisas como a água ferve e não congela à temperatura de 100 oC, ele pode duvidar de coisas como essas em tais e tais circunstâncias, se a sua dúvida estiver fundamentada na sua prévia experiência, no sentido de que tudo na sua experiência fale a favor e nada contra sua dúvida.
Posso imaginar um homem que tenha sido educado em circunstâncias muito especiais e a quem tenham ensinado que a origem da terra data de há 50 anos e que, portanto, acredite nisso. Podíamos ensiná-lo: a terra existe há… etc. Estaríamos a tentar dar-lhe a nossa imagem do mundo. Isto aconteceria através de uma espécie de persuasão (WITTGENSTEIN, 1969, p. 79, 262).
De maneira similar, as razões apresentadas por um sujeito para justificar suas reivindicações quando fundamentadas na sua prévia experiência podem não somente fundamentar dúvidas acerca de coisas normalmente dadas como certas, mas também certezas no que se refere às suas reivindicações em certas circunstâncias, uma vez que tudo na experiência dele fale a favor, e nada contra suas reivindicações.
Agora, será que a experiência nos ensina que em certas circunstâncias as pessoas sabem isto e aquilo? Certamente, a experiência mostra-nos que, normalmente, depois de um certo número de dias um homem consegue orientar-se numa casa em que tem vivido. Ou também: a experiência, ensina-nos que, depois de um certo período de aprendizagem, é possível confiar num juízo emitido por um homem. Segundo nos ensina a experiência ele teve de aprender durante um certo tempo para ser capaz de fazer numa previsão correta. Mas... (WITTGENSTEIN, 1969, p. 123-125, 434).
“Eu sei que este quarto está no segundo andar, que atrás da porta um curto patamar conduz às escadas, etc”. Podiam imaginar-se casos em que eu proferisse esta frase, mas seriam extremamente raros. Mas, por outro lado, revelo este conhecimento durante todo o dia pelas minhas ações e também pelo que digo. O que é que outra pessoa depreende dessas ações e palavras? Não será justamente que eu estou seguro dos meus fundamentos? – A partir do fato de eu ter vivido aqui durante muitas semanas e ter subido e descido as escadas todos os dias, ela depreenderá que eu sei onde se situa o meu quarto. Assegurar-lhe-ei que “eu sei” no caso de ela ainda “não saber” coisas que a obriguem a concluir que eu sabia (WITTGENSTEIN, 1969, p. 123, 431).
Portanto, diz Wittgenstein que mesmo a certeza acerca de coisas sustentadas como certas e a certeza fundamentada em prévia experiência não são infalíveis e podem compreender dúvidas. Na verdade, só podemos reivindicar saber então a certeza acerca de coisas passíveis de dúvidas. Entretanto, Wittgenstein argumenta que, embora elas sejam passíveis de dúvida, o sujeito não precisa duvidar delas. O sujeito pode reivindicar certeza acerca dessas coisas. O sujeito não precisa ser cético no que se refere a essas coisas todo o tempo. A partir da abordagem da certeza operada por Wittgenstein, podemos concluir que, embora ele reconheça que a certeza não é infalível, ele reivindica que o sujeito pode ter certeza acerca de coisas tidas como certas. E reivindica também que o sujeito pode ter certeza fundamentada em prévia experiência. Que a certeza não é algo raro na vida de um sujeito normal e ela pode tomar o seu legítimo lugar.
Em certas circunstâncias, o sujeito precisa apresentar para o outro fundamentos que satisfaçam esse outro, que ele, o sujeito, está em uma posição de saber – que ele está certo – acerca de alguma coisa. Deve ser mostrado que o sujeito está em uma posição de saber. Wittgenstein sugere ainda que a certeza que concerne a coisas que são ponto assente para o sujeito, em certas circunstâncias, precisa ser justificada com razões fundamentadas na prévia experiência que sempre ensinou o sujeito sobre isso. Em outras palavras, se alguém sabe acerca de alguma coisa, ele está certo acerca disso. No entanto, em certas circunstâncias, quando dúvidas podem surgir, se alguém reivindica que sabe, ele precisa mostrar como ele sabe. Ele precisa apresentar razões fundamentadas em prévia experiência.
Não bastaria assegurar a alguém que eu sei o que acontece num certo lugar – sem lhe dar fundamentos que o convençam de que eu tenho possibilidade de saber (WITTGENSTEIN, 1969, p. 125, 438).
Num tribunal, a mera afirmação “Eu sei” proferida por uma testemunha, não convenceria ninguém. É preciso mostrar que ela tinha possibilidade de saber. Também a afirmação “Eu sei que aquilo é uma mão”, proferida quando alguém olhasse para a sua própria mão, não seria credível a menos que conhecêssemos as circunstâncias em que fora dita. E se as sabemos, parece ser uma afirmação de que a pessoa que fala é normal a esse respeito (WITTGENSTEIN, 1969, p. 125, 441).
Como resultado da sua ênfase sobre o papel desempenhado pela racionalidade na atitude de reivindicar certeza e levantar dúvidas, Wittgenstein argumenta que em certas circunstâncias nós não podemos considerar erros certos sinais de dúvida dados por alguém acerca de pontos assentes para nós, como duvidar de seus cinco dedos ou duas mãos, sem apresentar razões racionais para isso. Antes, nós devemos considerá-lo demente – as dúvidas dele acerca disso pareceriam para qualquer outra pessoa loucura.
Em certas circunstâncias um homem não pode errar (“pode” é aqui usado na acepção lógica e a proposição não significa que um homem não possa dizer nada de falso nessas circunstâncias). Se Moore proferisse proposições contrárias às que ele declara certas, não deixaríamos apenas de partilhar a sua opinião: considerá-lo-íamos demente (WITTGENSTEIN, 1969, p. 57, 155).
Eu, L.W., creio, estou seguro de que o meu amigo não tem serradura no corpo ou na cabeça, ainda que os meus sentidos não me forneçam provas diretas. Estou seguro, por causa daquilo que me tem sido dito, daquilo que tenho lido e da minha experiência. Ter dúvidas a esse respeito parecer-me-ia loucura – evidentemente, este ponto de vista também está em conformidade com o das outras pessoas; mas eu estou de acordo com elas (WITTGENSTEIN, 1969, p. 83, 281).
Então, Wittgenstein tenta oferecer uma compreensão melhor de conceitos psicopatológicos como as crenças delirantes e suas relações com os julgamentos de racionalidade, pois a partir do argumento sustentado por ele constata-se que as crenças delirantes seriam constituídas por uma falha da racionalidade (breakdown of rationality). Portanto, Wittgenstein, no que em seu argumento possa concernir às crenças delirantes, coloca sua ênfase não sobre fatos, nem sobre evidências factuais não-fundamentadas, mas sobre as razões dadas pelas pessoas para justificar suas ações, certezas e dúvidas em tais e tais circunstâncias.

LACAN SOBRE CERTEZA E CRENÇAS DELIRANTES Uma leitura psicanalítica sobre a psicose É pela introdução do significante do Nome-do-Pai no Édipo, significante que responde ao significante que falta no Outro, que o sujeito encontra condições de ser representado pelo significante, de se situar na partilha dos sexos, de poder fazer laço social, de não estar fora do discurso. Esse significante mantém a ordem significante, produz um certo efeito, a significação fálica, e mesmo mantendo o não-sentido confere um certo sentido ao não-sentido do desejo do Outro materno: “Che vuoi” – Que queres? O significante do Nome-do-Pai, na medida em que é um enxerto de sentido, põe ordem no mundo quando possibilita ao sujeito se localizar nos planos simbólico e imaginário.
A origem da psicose está na foraclusão desse significante, permanecendo o sujeito no lugar de objeto de gozo do Outro. A psicose se desencadeia quando em momentos significativos na vida do sujeito, em que ele é convocado a se situar no plano simbólico, há um apelo a esse significante e ele não comparece, pois não há significante para responder a esse apelo (LACAN, 1958, p. 584).
O estudo da psicose encontrou grandes contribuições com a pesquisa de Freud, que embora não tenha se detido em um estudo a favor das psicoses que lhe permitisse discriminá-las das neuroses e a sua clínica por excelência ser uma clínica das neuroses inaugurou conceitos fundamentais para o estudo da psicose, como a defesa com que organizou os mais aprimorados conceitos freudianos quanto à diferença dessas duas estruturas. No léxico freudiano, figura a verwerfung sob o termo rejeição, quando do caso clínico do Homem dos Lobos (FREUD, 1918). A relação estabelecida por Freud nesse texto, a partir do fenômeno alucinatório experienciado por esse paciente, de ter cortado fora o dedo mínimo da mão, traduz-se por isto: o que é recusado na ordem simbólica, enquanto na neurose retorna no simbólico (o retorno do recalcado), na psicose ressurge no real (FREUD, 1918). Configura-se a verwerfung, representando a alucinação, o reaparecimento no real do que é recusado pelo sujeito psicótico no plano simbólico.
Lacan, fiel a Freud, retomou eticamente as contribuições fundantes que este deixara e transferiu o termo rejeição para um outro, a foraclusão, termo jurídico que designa algo prescrito por não ter comparecido ao seu tempo. É importante marcar aqui que esse tempo é um tempo lógico. Entretanto, há um tempo para o significante Nome-do-Pai decisivo para a estruturação de o sujeito se apresentar, substituir o significante do desejo materno, produzir a significação fálica, constituindo a metáfora paterna:

(LACAN, 1958, p. 563)
Nessa escrita da metáfora paterna, Lacan marca que o Nome-do-Pai vem para metaforizar o desejo materno. A foraclusão torna impossível a significação fálica, e o sujeito não se inscreve na função fálica.
A verwerfung será tida por nós, portanto, como foraclusão do significante. No ponto em que, veremos de que maneira, é chamado o Nome-do-Pai, pode pois responder no Outro um puro e simples furo, o qual, pela carência do efeito metafórico, provocará um furo correspondente no lugar da significação fálica (LACAN, 1958, p. 564).
A tese da foraclusão é o sustentáculo da teoria lacaniana sobre as psicoses, postulada na década de 1950, quando o ensino de Lacan era marcado pela primazia do significante, do simbólico, devido a um compromisso ético de resgatar no legado de Freud a primazia do simbólico. No seu seminário de 1956, “As Psicoses”, e no seu artigo de 1958, “De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose”, Lacan insiste na importância dos fenômenos elementares, dos fenômenos de linguagem, para o diagnóstico clínico. Ele explicou a estrutura a partir da sua origem no significante, dada a estrutura definida nesse momento de seu ensino como estrutura da linguagem, e não do discurso, como posteriormente ele viria a postular. Nessa perspectiva de seu ensino, Lacan postulou a psicose como um déficit de significante, o significante do Nome-do-Pai. E postulou que na psicose ocorreria a foraclusão desse significante, retomando o conceito freudiano de verwerfung.
Posteriormente, Lacan apresentou outras contribuições para a compreensão do fenômeno da psicose, contribuições que não refutaram o que já tinha sido abordado, mas seguiram adiante. Ele deu uma guinada na sua teoria sobre as psicoses, deixando um pouco na reserva a foraclusão do Nome-do-Pai e definindo a questão estrutural em torno da localização do gozo. A partir daí, Lacan começou a trabalhar o que na experiência escapa ao significante, designando a estrutura não mais estrutura de linguagem, e sim estrutura do discurso. Inclui no discurso um elemento real, não-significante, que é o objeto que resiste a toda e qualquer significação, que não permite a colagem entre significante e significado, escapando como resto irredutível e causando o desejo. A psicose foi definida a partir da localização do gozo, tendo uma localização anômala do gozo. O gozo estranho, anômalo, por não ter referência fálica, é localizado no Outro. Duas elaborações posteriores de Lacan, portanto, ficaram marcadas: objeto a e gozo. Essa nova abordagem de Lacan é uma abordagem pelo viés do Real, em face da dos anos de 1950, que fora pelo viés do significante. E é uma abordagem essencial para quem se propõe a tratar a psicose; daí a importância de marcar este fato como passagem, e não como mudança em seu ensino. Essa importância se apresenta na medida em que antes Lacan nos apresentava um Nome-do-Pai, que atava o significante e o significado, portanto o Simbólico e o Imaginário. Posteriormente, com a introdução do nó borromeano, ele introduziu o Real. O Nome-do-Pai, a partir de então, constitui-se no quarto círculo que vai atar os três outros círculos que concernem aos três registros, a saber: o Real, o Simbólico e o Imaginário (LACAN, RSI).
No entanto, mesmo com essa virada no ensino de Lacan sobre as psicoses, a tese da foraclusão continuou a ser essencial, o acidente que, em suas próprias palavras, dá à psicose sua condição essencial que a separa da neurose (LACAN, 1958, p. 582).

CRENÇAS DELIRANTES - O QUE ESTÁ EM CAUSA: REALIDADE OU CERTEZA? No seu artigo Neurose e Psicose, Freud (1924[1923]) observou que, enquanto na neurose o eu dependente da realidade, suprime um fragmento do isso, na psicose esse mesmo eu, a serviço do isso, se afasta de um fragmento da realidade. Que enquanto na psicose a perda de realidade estaria necessariamente presente, na neurose, aparentemente, essa perda seria evitada. De acordo com Freud, na psicose o eu constrói, autocraticamente, uma nova realidade externa e interna, de acordo com os impulsos desejosos do isso, e que o motivo dessa ruptura com o mundo externo é alguma frustração que parece intolerável para o sujeito psicótico (FREUD, 1924[1923], p. 168). Ele prossegue dizendo que o delírio se apresenta como um remendo no lugar em que originalmente uma fenda surgiu na relação do eu com a realidade externa (FREUD, 1924[1923], p. 169). Nesse sentido, para Freud, a crença delirante toma o seu lugar no sentido de substituir uma discordante realidade por uma outra mais afinada com os desejos do sujeito.
No entanto Freud (1924), diante da observação de que na neurose há também, de algum modo, uma perturbação da relação do paciente com a realidade, indica que na verdade uma das características que diferenciam uma neurose de uma psicose é o fato de que a neurose não repudia a realidade, apenas a ignora, ao passo que a psicose a repudia e tenta substituí-la (FREUD, 1924, p. 207). E o mais importante para a questão que nos interessa neste trabalho, Freud parece sugerir que a existência de um mundo de fantasia na neurose como contrapartida ao mundo delirante na psicose evidencia que tanto na neurose quanto na psicose interessa a questão não apenas relativa a uma perda da realidade, mas também a um substituto para a realidade (FREUD, 1924, p. 209). Portanto, seguindo Freud, ao estudar a psicose podemos concluir que o problema da crença delirante se situa não na realidade que é perdida, mas naquela que toma o seu lugar.
Nos trabalhos de Lacan, podemos encontrar como característica essencial da crença delirante uma relação particular do sujeito com a realidade permeada pela certeza. No seu seminário sobre as psicoses (1955-1956), Lacan abordou o caso Schreber, a partir das suas memórias (SCHREBER, 1955), bem como da análise desse seu legado dada por Freud (FREUD, 1911).
O juiz Daniel Paul Schreber escreveu em suas memórias (SCHREBER, 1955) que ele sofreu duas vezes de desordem nervosa. A primeira vez foi em 1884, aos 42 anos, quando foi nomeado vice-presidente do Tribunal Regional de Chemmitz. Ele sofreu uma derrota nas eleições parlamentares pelo Partido Nacional Liberal e foi ridicularizado pela imprensa. Este é o momento de sua primeira crise, resultando em uma permanência de seis meses na clínica de Leipzig, sob orientação do Dr. Flechsig, que decreveu sua doença como um ataque de severa hipocondria. Em 1885 teve alta e em 1886 tornou-se juiz presidente do Tribunal Regional.
A segunda doença começou assim que ele, aos 51 anos, foi convocado pelo Ministro da Justiça a ocupar a função de juiz Presidente da Corte de Apelação de Dresden. Ele voltou a Leipzig para consultar-se com Flechsig, reclamando de insônia e angústia. Ele sonhou que sua doença anterior tinha retornado. Então, em uma manhã, ele teve o pensamento que se exprime com estas palavras: como seria uma coisa bela ser uma mulher sendo copulada. Esse pensamento o surpreende e ele sublinha o seu caráter de imaginação, ao mesmo tempo em que precisa tê-lo acolhido com indignação (LACAN, 1955-1956, p. 76). Atribuiu esta idéia a influências exteriores. Seu principal sintoma era a insônia, além do fato de escutar estalos nas paredes de dia e de noite. Para Schreber, eram milagres divinos. Ao consultar Flechsig ficou na casa de sua mãe, e, além da insônia, apresentou sintomas inquietantes e fez sua primeira tentativa de suicídio. No dia seguinte foi internado em Leipzig. As idéias de suicídio se colocaram como constantes, e ele teve um colapso nervoso, que atribuiu ao fato de ter tido seis poluções em uma única noite. Logo começou a surgir sinais de uma relação de Schreber com forças sobrenaturais e, em particular, uma conexão nervosa com Flechsig. A relação de Schreber com Deus iniciou-se em março de 1894, levando ao colapso da vida na terra, na medida em que constituía um perigo para Deus, que pedia socorro e estabelecia estratégias contra Schreber, buscando garantir a autopreservação. Também estava conectado às vozes, almas defuntas, que produziam enorme confusão em sua cabeça.
A emasculação era inerente à Ordem do Mundo, visando renovar o gênero humano em caso de aniquilação. Para tanto, seria reservado um homem moralmente virtuoso. As vozes interiores incitavam-no a morrer de fome para escapar do destino repulsivo de ser transformado em mulher, abusado sexualmente e ser deixado largado à putrefação. A Ordem do Mundo estava do seu lado e, por isso, todos os atentados contra ele fracassaram.
Schreber sentia cada movimento humano como uma pancada na cabeça. Eram “perturbações” que visavam interromper as sensações de volúpia que atraíam os raios divinos. Os raios perderam suas beatitudes, absorvidas pelo corpo de Schreber, tornando-se nervos de volúpia feminina, que aumentava com a emasculação. Em novembro de 1895, os sinais de feminização eram evidentes e ele se convenceu de que a Ordem do Mundo exigia sua emasculação. Por motivos racionais, Schreber aceitou a idéia de ser transformado em mulher, para gerar novos homens. Então começou a dedicar-se ao culto da feminilidade até o fim da sua vida.
Chegamos aqui ao que queremos extrair de suas memórias, que é relevante para o propósito deste artigo, a saber, o desvelamento de um mecanismo propriamente psicótico, que é do registro do imaginário, e que iria da primeira entrevisão de uma identificação e de uma captura na imagem feminina, até o desabrochar de um sistema do mundo em que o sujeito está completamente absorvido em sua imaginação de identificação feminina (LACAN, 1955-1956, p. 71). Por conseguinte, queremos assim chegar ao que nos interessa analisar aqui: a crença delirante de Schreber de ter sido feminizado, de ter sido trans-formado em uma mulher, a mulher de Deus, para restaurar a ordem de equilíbrio do mundo. Schreber estava convencido de que ele estava possuído de muitos nervos de voluptuosidade feminina e que ele estava gradualmente se transformando em uma mulher.
A partir de Lacan (1955-1956), a crença de Schreber de que ele havia se transformado na mulher de Deus mostra o que ocorre nas crenças delirantes, que é o oposto do que ocorre nas crenças não-delirantes em relação à certeza e à dúvida. Ao contrário do que muitos psicólogos e psiquiatras acreditam - que os psicóticos acreditam na ‘falsa’ realidade deles -, eles, na verdade, mostram que não acreditam nessa referida ‘falsa’ realidade. Antes, os psicóticos têm certeza acerca da experiência deles. De acordo com Lacan, isso está mesmo ao alcance das pessoas que não são psiquiatras. Nesse ponto, Lacan faz referência a Maurice Merleau-Ponty (1962, p. 335) acerca do tema da coisa e do mundo natural, onde Ponty, discutindo sobre a alucinação, observa que, em termos de realidade, o insano não acredita no que ele vê ou ouve, ou, quando questionado, ele corrige sua declaração nesse ponto.
O acaso me tendo feito abrir ultimamente a Fenomenologia da percepção de Maurice Merleau-Ponty na página 386 sobre o tema da coisa e do mundo natural, eu os remeto àquela passagem, vocês aí encontrarão observações excelentes sobre esse assunto, a saber: nada é mais fácil de ser obtido do sujeito que a confissão de que o que ele está ouvindo, nenhuma outra pessoa o ouviu. Ele diz: Sim, está bem, foi só eu que o ouvi (LACAN, 1955-1956, p. 91).
A realidade não é o que está em causa. O sujeito admite, com todos os rodeios explicativos verbalmente desenvolvidos que estão ao seu alcance, que esses fenômenos são de uma outra ordem, que o real, ele sabe bem que a realidade deles não está assegurada, admite mesmo até um certo ponto a sua irrealidade. Mas, contrariamente ao sujeito normal para quem a realidade lhe chega de ban-deja, ele tem uma certeza, de que é a de que aquilo de que se trata – da alucinação à interpretação – lhe concerne (LACAN, 1992, p. 91).
Assim, para Lacan, a realidade não é o que está em causa na psicose. Embora nesse momento de seu ensino ele ainda não tivesse definido a categoria do Real como viria a fazer anos mais tarde, e, por conseguinte, o Real seja usado em muitos momentos como o mesmo que realidade, Lacan opera na sua interpretação da psicose com os seus fenômenos elementares como crença delirante um corte rigoroso com a realidade. O rigor conceitual do que virá a se constituir anos mais tarde como o registro do Real, como o que é impossível ser simbolizado, já está presente no seu espírito quando ele mesmo, sem separar explicitamente realidade de Real, separa com um rigor impecável realidade de certeza. Lacan separa realidade de certeza ao nos dizer que não é de realidade que se trata na crença delirante, mas de certeza. Uma certeza radical e inabalável que concerne ao psicótico mesmo quando ele se exprime no sentido de dizer que o que sente não é da ordem da realidade.
Não é de realidade que se trata com ele, mas de certeza. Mesmo quando ele se exprime no sentido de dizer que o que sente não é da ordem da realidade, isso não atinge a sua certeza, que lhe concerne. Essa certeza é radical. O natural mesmo daquilo de que ele está certo pode muito bem continuar sendo de uma ambiguidade perfeita, em toda a gama que vai da malevolência à benevolência. Mas isso significa alguma coisa de inabalável para ele. Eis o que constitui o que se chama, com razão ou sem, o fenômeno elementar, ou ainda, o fenômeno mais desenvolvido, a crença delirante (LACAN, 1992, p. 91).
Nesse ponto, é precioso apontar o que Freud (1939) nos diz acerca da convicção concernente ao delírio. Para ele, a convicção compulsiva que se liga ao delírio surge de um cerne de verdade esquecida que jaz oculta nas idéias delirantes e que retorna com deformações e más compreensões. E essa convicção compulsiva se espalha para os erros que a envolvem (FREUD, 1939, p.99). Com isso, Freud já nos sugere um corte com a visão tradicional, cuja ênfase é a realidade na investigação das crenças delirantes. Mesmo sem extrair as consistentes e rigorosas conseqüências disso, como Lacan o fará em sua abordagem da psicose, Freud já nos sugere o corte na medida em que emparelha a certeza que se liga ao delírio com a verdade, que também concerne à crença delirante.
Lacan ilustra sua reivindicação acerca do papel desempenhado pela certeza na constituição das crenças delirantes, contrastando o fenômeno do ciúme quando se apresenta em um sujeito normal e quando se apresenta em um delirante. Enquanto no ciúme do tipo normal o sujeito se recusa da forma mais natural do mundo à certeza, a despeito das realidades que se ofereçam, o delirante, por outro lado, completamente certo da infidelidade se exime de toda referência real.
Essa certeza delirante, é preciso exercitá-los a tornar a encontrá-la em qualquer parte onde ela esteja. Vocês percebendo então por exemplo a que ponto o fenômeno do ciúme é diferente quando se apresenta num sujeito normal e quando se apresenta num delirante. Não é necessário evocar para vocês longamente o que tem de humorístico, e mesmo de cômico, o ciúme do tipo normal, do qual se pode dizer que ele se recusa da forma mais natural do mundo à certeza, sejam quais foram as realidades que se ofereçam. É a famosa história do ciumento que persegue sua mulher até a porta do quarto onde ela está trancada com um outro. Ela contrasta bastante com o fato de que o delirante se exime de toda referência real (LACAN 1992, p. 92).
Portanto, de acordo com Lacan, o que caracteriza crenças não-delirantes é o fato de o sujeito normal não considerar certo um determinado número de realidades cujas existências ele reconhece. E, por outro lado, o que caracteriza crenças delirantes é a presença de uma certeza radical e inatingível que concerne ao psicótico. Uma certeza cada vez maior, à medida que o delirante sobe na escala dos delírios.
O que caracteriza um sujeito normal é precisamente não levar jamais a à sério um certo número de realidades cujas existências ele reconhece. Vocês estão cercados de todas as espécies de realidades das quais não duvidam, algumas das quais são partircularmente ameaçadoras, mas vocês não as levam plenamente a sério, pois pensam com o subtítulo de Paul Claudel, que o pior nem sempre é seguro, e vocês se mantém num estado médio, fundamental no sentido em que se trata no fundo, que é de feliz incerteza, e lhes torne possível uma evidência suficientemente distendida. Seguramente a certeza é a coisa mais rara para o sujeito normal (LACAN, 1992, p. 90).

DÚVIDA E CERTEZA: SOBRE O QUE ENGANA E O QUE NÃO ENGANA Freud (1909) nos diz que a necessidade de incerteza ou de dúvida na vida do neurótico obsessivo é uma necessidade mental compartilhada nessa doença. Segundo ele, o esforço empreendido pelo sujeito obsessivo para poder evitar a certeza e ficar na dúvida tem como finalidade evitar um conhecimento de quaisquer fatos que o teriam auxiliado a chegar a uma decisão sobre o seu conflito. Nesse sentido se dá na vida do neurótico obsessivo uma aversão por relógios, por exemplo, na própria medida em que eles dão a certeza da hora do dia (FREUD, 1909, p. 201-202).
A predileção dos neuróticos obsessivos pela incerteza e pela dúvida leva-os a orientar seus pensamentos de preferência para aqueles temas perante os quais toda a humanidade está incerta e nossos conhecimentos e julgamentos necessariamente expostos a dúvida. Os principais temas dessa natureza são paternidade, duração da vida, vida após a morte e memória – na qual todos nós costumamos acreditar, sem possuirmos a menor garantia de sua fidedignidade (FREUD, 1909, p. 202).
Freud (1939) argumenta que um sujeito diante de algo novo para ele, que contradiz alguns de seus desejos e vai de encontro a algumas convicções que lhe são preciosas, hesitará e terá dúvidas sobre essa coisa nova, mesmo que verdadeira. Buscará razões que o capacitem lançar dúvidas sobre esse elemento, lutando consigo mesmo, até que, finalmente, admitirá para si aquilo a que ele resistiu tanto em acreditar. Segundo o autor, a atividade raciocinante do eu demanda tempo para superar as objeções sustentadas por intensas catexias afetivas (FREUD, 1939, p. 81-82).
Com isso, podemos concluir que para Freud a dúvida é signo da resistência, da preservação de um anterior estado de coisas. E, conseqüentemente, que a dúvida faz parte do percurso percorrido pelo sujeito normal para que ele possa vir a concluir algo como certo.
Para Freud, ao contrário do que Wittgenstein sugere, a dúvida é onde a certeza do sujeito vem se apoiar. Onde o sujeito duvida, seguramente um pensamento inconsciente que se revela como ausente está lá. Assim, nós sabemos, graças a Freud, que o sujeito do inconsciente se manifesta, que isso pensa antes de entrar na certeza (LACAN, 1964, p.40).
De acordo com Lacan (1964), Freud trata de buscar a certeza que concerne ao inconsciente, a despeito da sua inconsistência, das fragilidades dos seus furta-cores, superando tudo o que seja da ordem do Não estou certo, tenho dúvidas. E, com isso, Lacan conclui que o encaminhamento de Freud é cartesiano. Que há um ponto em que se aproxima o encaminhamento de Freud ao de Descartes, pois à medida que Descartes nos diz – Estou seguro, porque duvido de que penso, ele faz a dúvida apoiar a certeza fundada do sujeito (LACAN, 1964, p. 38-39).
Entretanto, a assimetria entre Freud e Descartes se dá no campo do inconsciente, o sujeito está em casa (LACAN, 1964, p. 39).
Enquanto em Descartes o correlativo do sujeito da certeza é da ordem do Outro que não seja enganador, Outro consistente, lugar da garantia das bases da verdade, Deus perfeito, que não mente, não engana, que não é trapaceiro, para a abordagem freudiana do inconsciente o correlativo do sujeito não é mais da ordem do Outro que engana, mas da do Outro enganado (LACAN, 1964, p.40).
O que o sujeito mais teme é nos enganar, nos colocar numa pista falsa ou, mais simplesmente, que nós nos enganemos, pois, antes de mais nada, é bem claro, vendo nossa cara, que nós somos pessoas que podemos nos enganar como todo mundo (LACAN, 1964, p. 40).
Freud (1920), no seu famoso caso da jovem homossexual, no que se vê diante de sonhos mentirosos tidos por essa paciente que intencionava enganá-lo, afirmando que estava se voltando para o que lhe era pedido, nos sugere que o inconsciente pode se exercer no sentido do engano e que isto não desvaloriza a verdade que concerne ao inconsciente. Com efeito, como não haveria a verdade da mentira - essa verdade que torna perfeitamente possível, contrariamente ao pretenso paradoxo, que eu afirme – Minto (Lacan, 1964, p. 40).
Lacan (1962-1963) nos diz que o mundo do sujeito falante tem como característica essencial a de que nele é possível enganar. Característica conferida pelo significante que gera esse mundo, uma vez que faz do mundo uma rede de traços em que a passagem de um ciclo a outro se torna então possível (LACAN, 1962-1963, p. 87). Com isso o autor nos diz que a dimensão do engano e, com ela, a dimensão da dúvida são inevitáveis para os sujeitos submetidos à ordem simbólica. Mas, então, no que diz respeito aos sujeitos neuróticos, o que é que não engana? Como, na qualidade de sujeitos falantes, submetidos à dimensão do engano, conferida pela ordem simbólica, podemos aceder a um mínimo do que se refere ao Real, dado que a verdade, e com ela a certeza, concerne a essa ordem? A angústia, por ser um é um sinal do Real, é aquilo que não engana, o que está fora de dúvida. Lacan adverte que a angústia não é a dúvida. Antes, segundo ele, a angústia é a causa da dúvida, e a dúvida serve apenas para combater a angústia, e justamente por meio de engodos.
Não é a primeira nem será a última vez que terei de assinalar aqui que, se a função da causalidade se mantém após dois séculos de apreensão crítica, é justamente por estar num lugar diferente daquele em que a refuto. Se há uma dimensão em que devemos buscar a verdadeira função, o verdadeiro peso, o sentido da manutenção da função de causa, é na direção da abertura da angústia (LACAN, 1962-1963, p. 88).
Portanto, Lacan conclui que agir é arrancar da angústia sua certeza (LACAN, 1962-1963, p. 88), definição que se refere ao ato em sua relação com o desejo, mas que já parece apontar para o ato psicanalítico, ainda não-delimitado (RABINOVICH, 2000, p.?57).
É importante ressaltar que o que nos interessa aqui da abordagem da angústia é a sua dimensão do não-engano e, portanto, da certeza assustadora que se refere a ela, que o sujeito que não está na psicose visa combater por meio da dúvida.
Segundo Lacan, a proposição chamada afirmativa universal tem apenas o sentido de definição do Real a partir do impossível. A lógica tem a função essencialmente precária de condenar o Real a tropeçar eternamente no impossível. Lacan sugere que nos remetamos ao Pequeno Hans (FREUD, 1909), uma vez que ele em um primeiro momento universaliza o pênis: Todos os seres animados têm falo. A partir dessa equação se depreende que é impossível que exista um ser que não tenha falo (com isso, o Real do Outro sexo tropeça no impossível). Assim, surge a angústia quando do momento em que a falta do Outro se coloca por meio da diferença sexual da mãe. E, a partir disso, o passo seguinte é dizer que mesmo os que não o têm, o têm. Que mesmo os que não o têm, o terão, contra tudo e contra todos (LACAN, 1962-1963, p. 90). Eis a dimensão do engano.
Como bem Lacan nos adverte, ao contrário do que a Psicologia clássica nos ensina que os homens são atormentados pelo irreal no real, a conquista freudiana nos ensina que o inquietante é que, no irreal, é o Real que os atormenta (LACAN, 1962-1963, p. 91).

DISCUSSÃO As crenças delirantes verdadeiras puseram a Psiquiatria tradicional face a face com o impasse colocado pela noção de perda da realidade na psicose. Entretanto, as revisões referentes a essa noção continuaram a enfatizar a noção de realidade na abordagem das crenças delirantes, uma vez que mantiveram o elemento de falsidade como condição suficiente, ainda que não necessária para uma crença ser considerada delirante. Então, no que a visão psiquiátrica não se deteve na problemática da noção de realidade, como Freud (1924) denunciou, impasses ainda tomam lugar dentro dessa abordagem, tal como o impasse colocado por crenças falsas não-delirantes.
O emparelhamento da verdade com a realidade, que sempre foi um entrave para a abordagem psiquiátrica tradicional aceder a uma rigorosa interpretação da crença delirante, encontra fundamentos em uma longa tradição filosófica.
O problema colocado pela falsidade data de Parmênides, que reivindicava a falta de legitimidade da falsidade, pois para esse grande sofista nada se pode dizer sobre o não-ser. Segundo ele, que pretendeu demolir o conceito de discurso falso, uma proposição diz o que é ou não diz nada, é verdadeira ou não é uma proposição.
No Sofista (PLATÃO, 2005), o Estrangeiro opera, então, por contraposição, uma vez que postula a aptidão do discurso enunciativo à verdade e à falsidade. Ele mantém a definição da proposição falsa e conclui que a significatividade de uma proposição não depende de uma relação de simbolização entre ela e a realidade. Antes, o Estrangeiro legitima que a proposição é uma representação que não precisa representar nada para se instituir como representação.
A concepção do sentido de uma proposição como independente de sua verdade ou falsidade efetivas esboçada no Sofista é reelaborada e refinada por Aristóteles em seu tratado Da Interpretação. Aristóteles salienta a bipolaridade concernente às proposições, que consiste no fato de as coisas nomeadas poderem existir combinadas ou separadas. O enunciado afirmativo realiza a primeira possibilidade enunciativa em detrimento da segunda. O negativo realiza a segunda em detrimento da primeira. Quando a possibilidade enunciativa realizada corresponde à possibilidade realizada no plano das coisas, o enunciado é verdadeiro; caso contrário, é falso. Em outras palavras, a proposição pode ou não se mostrar conforme a realidade. Se existir conformidade, a proposição é verdadeira, e se não existir ela é falsa. Segundo Aristóteles, tudo o que se pode afirmar pode-se negar, e vice-versa.
A aptidão natural das proposições à verdade e à falsidade implica uma tese de independência do sentido de uma proposição relativa à sua verdade ou falsidade efetivas. Seguindo nessa tradição, Frege (1978) discrimina o sentido de referência, reivindicando que, enquanto o sentido se refere ao pensamento, a referência diz respeito ao objeto presente na realidade que corresponda ao nome próprio. Diz Frege que a sentença pode ter sentido e referência, como também somente sentido: caso de um poema épico. No entanto, o autor coloca a sua ênfase na referência em detrimento do sentido, reivindicando que sem referência o pensamento perde valor, uma vez que é a referência que tem valor de verdade (FREGE, 1978, p. 69).
A partir de enorme influência dos trabalhos de Frege, Wittgenstein de Tractatus manteve esse emparelhamento da verdade com a realidade, uma vez que nesse trabalho ele faz uma apologia de uma visão agostiniana da linguagem e, por conseguinte, coloca sua ênfase sobre os fatos.
Em um segundo momento de sua trajetória investigativa, Wittgenstein (1969, 1997), referindo-se aos jogos lingüísticos que evidenciavam a impossibilidade do seu projeto anterior de busca das condições de uma qualquer lin-guagem que possa representar o mundo, uma linguagem em que não houvesse a dimensão do engano ilustrada pela ambigüidade e pelo equívoco, transfere a sua ênfase dos fatos para a racionalidade. O emparelhamento da verdade com a realidade cede lugar nessa sua nova abordagem da linguagem, mas ele ainda tenta por meio da racionalidade fazer uma apologia da dimensão do que não engana e, com isso, uma apologia da certeza. Assim, o novo Wittgenstein parece sugerir um outro emparelhamento: da certeza com a racionalidade.
O argumento sustentado por Wittgenstein acerca do papel constitutivo desempenhado pela racionalidade na estrutura conceitual das razões que as pessoas dão para justificar suas ações parece sugerir um elemento implícito que cria dificuldades, que invariavelmente a irracionalidade conota crenças como delirantes.
Entretanto, este ensaio argumenta que não. Enquanto, de um lado, crenças delirantes podem ser também sustentadas sobre uma base racional; de outro lado, nem todas as crenças sustentadas sobre fundamentos irracionais merecem ser chamadas de delírios. Esse segundo ponto é o que estamos nos referindo neste artigo.
Primeiramente, como Freud vigorosamente nos mostra por todo o seu trabalho, irracionalidade é uma característica humana intrínseca.
Segundo, ainda que consideremos irracionalidade referente à psicose como severa e então que a irracionalidade psicótica remete à irracionalidade como doença (FULFORD, 1989, p. 194), ainda assim nós temos de fazer face aos desafios colocados pelas idéias obsessivas. Freud mostra por meio de casos clínicos que, na neurose obsessiva, os indivíduos podem ser severamente irracionais. Se nós extrairmos um exemplo de Freud (FREUD, 1909), podemos ver um homem que se torna severamente perturbado por crenças obsessivas, como a crença relatada por ele a Freud de quando ele tinha 6 anos de que os seus pais conheciam os seus pensamentos (FREUD, 1909, p. 146). Segundo esse homem, essa crença teria sido o começo da sua doença: um quadro grave de neurose obsessiva.
Essa crença obsessiva é dada sobre base irracional se usarmos a perspectiva de Wittgenstein, dado que faz parte do quadro de referências que herdamos (quadro de referências no sentido usado por Wittgenstein em sua abordagem) o conhecimento de que não é possível alguém advinhar os nossos pensamentos. E esse homem não tinha razões fundamentadas em sua experiência para justificar essa dúvida acerca de algo que é sustentado como ponto assente para nós e por conseguinte a sua crença de que os seus pensamentos eram conhecidos pelos seus pais. Antes, ele sustentou a referida crença a despeito de tudo em sua experiência, falando contra e nada a favor disto.
Esse quadro não é atípico. Pelo contrário, freqüentemente a clínica e a vida cotidiana mostram esse quadro em neuroses obsessivas graves. O caso descrito por Freud, como outros tantos, nos mostra sujeitos que sustentam crenças irracionais falsas a despeito de estarem colocando em questão coisas que se referem a pontos assentes, e ainda em circunstâncias nas quais tudo em suas experiências fale contra e nada a favor delas.
No entanto, crenças obsessivas não são impermeáveis a dúvidas e recusa a certeza, corroborando o argumento dado por Lacan referente à certeza como a coisa mais rara no sujeito normal, e, assim, a certeza como um elemento essencial das crenças delirantes. Enquanto na neurose obsessiva, como em qualquer outra neurose, a presença efetiva do recalque operado pela ordem simbólica, por excelência a ordem do engano, impede o sujeito de ter certeza e faz com que as dúvidas se coloquem, na psicose a falha do recalque possibilita que o psicótico se coloque como o sujeito da certeza. O psicótico mostra o inconsciente a céu aberto, sem a ordem do engano com a qual Freud (1920) se deparou na neurose, introduzida pela ordem simbólica, que vela a verdade do inconsciente na neurose. Que faz com que o sujeito na neurose só possa aceder a algo de sua verdade por meio das formações do inconsciente: sonhos, lapsos, atos falhos, chistes e sintomas. Na neurose, o Outro não é real. Ele é barrado pela ordem simbólica, e por isso é inconsistente e é um Outro que mente e que engana. Na psicose, ao contrário, devido à falha do recalque, à foraclusão do significante do Nome-do-Pai que ocorreu no lugar do recalque, a verdade não é velada e o Outro sem barra aparece de maneira aberrante. O Outro é consistente e é um Outro que não mente e que não engana. O psicótico mostra claramente a verdade do inconsciente, pois não há o velamento colocado pela marca do recalque. Lacan (1955-1956) diz que o psicótico nos ensina que o pensamento sempre vem do campo do Outro, que o psicótico mostra isso claramente. Ninguém escolhe o pensamento. Antes, o pensamento se impõe. Segundo ele, todos nós somos parasitados pela palavra, que ela vem do Outro e se impõe. A palavra é um parasita, e o psicótico fala isso claramente.
De um lado, dissemos que a certeza é emparelhada com a verdade e, portanto, com o Real, que é a ordem do que não engana. E a dúvida, por sua vez, é introduzida pela ordem simbólica, na própria medida em que essa ordem confere ao sujeito a dimensão do engano, da mentira, do equívoco e da ambigüidade. Por outro lado, dissemos também, em uma mesma linha de direção, que é a ordem simbólica que faz operar o recalque e que o comprometimento dessa ordem simbólica na psicose devido à foraclusão do significante do Nome-do-Pai faz com que na psicose o recalque falhe. Portanto, temos que pensar a certeza e a dúvida referentes à falha do recalque que é devido à foraclusão do significante do Nome-do-Pai e à presença efetiva do recalque, respectivamente.
A partir dessa observação, podemos concluir que ao dizer que o recalque é o elemento diferencial das estruturas neurótica e psicótica, estamos dizendo na mesma linha de direção que a certeza é um elemento diferencial das crenças delirantes e não-delirantes.
Portanto, o argumento apresentado por Lacan de que a certeza absoluta é um elemento essencial para distinguir crenças delirantes de crenças não-delirantes não somente rompe com a noção de perda da realidade na psicose, sustentada pelas abordagens tradicionais, como também coloca em questão a sugestão dada por Wittgenstein acerca da certeza e então das crenças delirantes. A sugestão de Wittgenstein de que a falha da racionalidade é sinal de insanidade não ajuda a explicar crenças sustentadas sobre fundamentos não-racionais, mas que, no entanto, não são delirantes, como as crenças obsessivas.


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Artigo recebido em: 23/11/07
Aprovado para publicação em: 30/5/08



1 Where I hold a false belief despite being presented with overwhelming evidence against it, and my doing so cannot be explained in terms of the beliefs common in my group or society, the only explanation that seems to be left is that my reasoning abilities are impaired to an abnormal extent.
2 A delusion is a belief that is firmly held despite evidence to the contrary and is not a conventional belief that the person might be expected to hold given his educational and cultural background. This definition is intended to separate delusions, which are indicators of mental disorder, from other strongly held beliefs found among healthy people. A delusion is usually a false belief, but not invariably so.
3 Although delusions are as a rule false beliefs, in exceptional circumstances they can be true or subsequently become true. Thus a man may develop a jealous delusion about his wife, in the absence of any reasonable evidence of infidelity. Even if his wife is being unfaithful at the time, the belief is still delusional if there is no rational grounds for holding it. Exceptions of this kind remind us that it is not the falsity of the belief that determines whether it is delusional but the nature of the mental processes that led up to it.
* Psicanalista e Mestre em Filosofia e Ética da Saúde Mental pela University of Warwick (UK). Consultório: Rua Oscar Vidal 71 – sala 901 – Centro – Juiz de Fora-MG, 36010-060 – Fone: (32) 3236-9016. crlopes2001@yahoo.com.br

 
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