terça-feira, 21 de agosto de 2012

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A psicogênese da pessoa completa de Henri Wallon: Desenvolvimento da
comunicação humana nos seus primórdios.
Adrianne Ogêda Guedes1
Resumo: Este artigo apresenta um panorama geral dos estudos do psicólogo Henri Wallon,
focalizando em especial o desenvolvimento humano nos primeiros anos de vida.
Considerando as perspectivas práticas para os que trabalham com a criança de 0 a 6 anos, a
teoria walloniana fornece um significativo suporte teórico, compreendendo a dimensão social
e afetiva do desenvolvimento.
Palavras chaves: Desenvolvimento humano, teoria de Henri Wallon, Primeiros anos de vida.
Abstract: This article presents a general panorama of the studies of the psychologist Henri
Wallon, focusing in special the human development in the first years of life. Considering the
practical perspectives for that who work with the child of zero to six years of age, the
wallonian´s theoretical support allows an understanding of the social and affective dimension
of the development.
Key words: Human development, Henri Wallon´s theory, The first years of life
Este texto tem como principal objetivo oferecer um panorama geral dos estudos
psicogenéticos de Henri Wallon, enfatizando de modo especial elementos de sua teoria que
nos permitem refletir sobre alguns aspectos do desenvolvimento da comunicação humana nos
primeiros anos de vida. Em coerência com a teoria de Henri Wallon, inicio situando o leitor a
respeito de elementos de sua trajetória – incluindo aí contexto histórico e social, sua formação
e experiências profissionais - que permitem compreender o destaque que alguns conceitos
ganham em sua obra, tal como o da influência do meio social no desenvolvimento humano.
Sua teoria, abrangente e dinâmica, serve a muitas leituras por parte de quem procurar
nela subsídios para a reflexão pedagógica. Abordando temas como a emoção, a motricidade, a
formação da personalidade, linguagem, pensamento, dentre outros, fornece material precioso
para refletir as relações entre desenvolvimento infantil e práticas educacionais.
Para aqueles que atuam na educação, conhecer como o movimento do
desenvolvimento infantil se dá é fundamental para que seja possível contribuir como
mediador e facilitador desse processo. Nesse sentido, o pensamento de Henri Wallon
constitui-se num valioso referencial teórico que pode subsidiar as experiências com crianças.
1- Wallon: trajetória de um humanista.
1 Psicóloga, Especialista em Educação Infantil (PUC-RJ), Doutoranda em Educação (UFF), Professora (PUC-RJ) e
consultora (MEC, Casa Monte Alegre Educação Infantil). E-mail: adrianne.ogeda@gmail.com
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Henri Wallon (1879-1962), filósofo, médico, psicólogo e político francês, dedicou-se a
compreender o psiquismo humano, voltando sua atenção a criança, acreditando que
conhecendo seu desenvolvimento era possível ter acesso à gênese dos processos psíquicos.
Buscou relacionar seus estudos sobre a evolução da criança com a educação. Tal preocupação
com as perspectivas práticas da psicologia evidencia-se em sua fala durante a “Lição de
abertura no Colégio de França”, em 1937:
“(...) Sem dúvida que as experiências de que a psicologia tem necessidade ultrapassam
o laboratório. Esta cadeira de Psicologia da Educação é prova disso. Entre a Psicologia e a
Educação, as relações não são de uma ciência normativa e de uma ciência ou de uma arte
aplicadas. A psicologia esá bastante perto de suas origens para que seja possível reconhecer a
íntima dependência em que se encontra uma ciência nos seus começos face a problemas
práticos.” (Wallon,1975, pg.9)
Seu interesse em integrar a atividade cientifica à ação social permeou sua trajetória,
numa atitude de coerência e engajamento.
Wallon viveu em um período de grande instabildade social. Foi contemporâneo às
duas guerras mundiais (1914-18 – 1939-45), ao avanço do fascismo no período entre guerras,
às revoluções socialistas e guerras para libertação das colônias na África que afetaram a
Europa (particularmente a França, seu país de origem). Envolveu-se em diferentes
movimentos de protesto contra os sistemas excludentes e autoritários, engajando-se em
partidos de esquerda e tomando a frente em ações coletivas em prol da liberdade e da
cidadania. È provável que a vivência de momentos históricos tão turbulentos tenha
evidenciado a influência fundamental que o meio social exerce sobre o desenvolvimento da
pessoa humana, aspecto que tem destaque em sua teoria.
Após a graduação em Medicina, atuou em instituições psiquiátricas onde dedicou-se
ao atendimento de crianças com deficiências neurológicas e distúrbios de comportamento.
Serviu como médico no exército francês em 1914, na frente de combate. O contato com as
lesões cerebrais sofridas por ex-combatentes e a observação dos efeitos das lesões nas
condutas e habilidades desses soldados fez com que revisse postulados neurológicos que
havia desenvolvido no atendimento a crianças com deficiência. De 1920 a 1937 foi
encarregado de proferir conferências sobre a psicologia da criança na Sorbone (Paris) e outras
instituições de ensino superior. Em 1925 fundou um laboratório destinado à pesquisas e
atendimento clínico de crianças ditas “normais” que funcionou durante 14 anos ao lado de
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uma escola na periferia de Paris. Tal proximidade favoreceu o acesso à criança
contextualizada (inserida em seu meio) e estreitou suas questões com a educação.
Em 1925 ele publicou sua tese de doutorado, “A criança turbulenta”, vivendo um
período de grande produção durante o qual foram publicados seus livros considerados mais
importantes, sendo o último deles “Origens do pensamento na criança” de 1945. De 1937 a
1949 lecionou no Colégio de França ocupando a cadeira de psicologia da educação da criança
(com interrupção em 1941-44 em função da ocupação alemã). Em 1948 criou a revista
“Enfance”, instrumento de divulgação de pesquisas do campo da psicologia e fonte de
informação para educadores. Os temas abordados eram variados, atestando seu interesse pela
multiplicidade de campos onde se dá a atividade e o interesse da criança.
Wallon participou ainda de vários movimentos relacionados a educação, participando
ativamente do debate educacional da época. Presidiu o comite responsável pela reformulação
do sistema de ensino francês em 1944. A reforma proposta (que não chegou a ser
implementada) preconizava a adequação às necessidades de uma sociedade democrática e às
possibilidades e características psicológicas do indivíduo, favorecendo o máximo
desenvolvimento das aptidões individuais e a formação do cidadão. Preocupou-se também em
refletir sobre a organização do tempo e do espaço nos sistemas educacionais (Galvão, 1994).
Wallon esteve no Brasil em 1935, sendo ciceroneado por Gilberto Freyre e, nas palavras do
sociólogo passaram “o dia todo correndo escolas e o morro da Mangueira” (Galvão, 1995).
Conhecer a vinculação de Wallon as questões mais amplas de seu meio social, seu
engajamento no contexto político da época, nos permite compreender a visão ampla que ele
lançava sobre a realidade, tal visão é a marca de sua teoria do desenvolvimento humano e de
sua atuação como pesquisador, psicólogo e médico.
2- Aspectos gerais de sua teoria: a psicogênese da pessoa completa.
Wallon dedicou-se a pesquisar a psicologia genética, ou seja, a gênese dos processos
psíquicos. Para ele a análise genética, partindo do que vem antes na cronologia das
transformações por que passa o sujeito, é o procedimento capaz de compreender de modo
global a totalidade da vida psíquica (sem fragmentá-la em elementos estanques). A
observação é o principal método de pesquisa preconizado pelo autor.
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Para Wallon, a existência do homem, ser indissociavelmente biológico e social, se dá
entre as exigências do organismo e da sociedade. Nesse sentido, os estudos do psiquismo se
situam portanto entre os campos das ciências naturais e sociais.
A formação da inteligência é genética e organicamente social, ou seja, "o ser humano é
organicamente social e sua estrutura orgânica supõe a intervenção da cultura para se atualizar"
(Dantas, 1992). Essa concepção inclui o ambiente social e os aspectos biológicos em sua
relação de reciprocidade e interdependência. Considerando que o sujeito constrói-se nas suas
interações com o meio, Wallon propõe o estudo contextualizado das condutas infantis. Isso
quer dizer que para compreender a criança e seu comportamento, é necessário levar em conta
aspectos de seu contexto social, familiar, cultural. Será a relação entre as possibilidades da
criança em cada fase/ estágio2 e as condições oferecidas pelo seu meio que cunharão o
desenvolvimento.
“(...) Pelo contrário, para quem não separa arbitrariamente
comportamento e as condições de existência próprias a cada época do
desenvolvimento, cada fase constitui, entre as possibilidades da
criança e o meio, um sistema de relações que os faz especificarem-se
reciprocamente. O meio não pode ser o mesmo em todas as idades. É
composto por tudo aquilo que possibilita os procedimentos de que
dispõe a criança para obter a satisfação das suas necessidades. Mas
por isso mesmo é o conjunto dos estímulos sobre os quais exerce e se
regula a sua atividade. Cada etapa é ao mesmo tempo um momento da
evolução mental e um tipo de comportamento.” (Wallon, 1995)
O desenvolvimento humano é visto em conjunto. Wallon propõe um estudo integrado,
abarcando os vários campos da atividade infantil (campos funcionais3) e os vários momentos
de sua evolução psíquica (estágios do desenvolvimento), numa perspectiva abrangente e
global. Enfoca o desenvolvimento em seus domínios afetivo, cognitivo e motor, sem
privilegiar um domínio em detrimento dos demais, preocupando-se em mostrar nas diferentes
etapas os vínculos entre cada campo.
É por levar em conta essa dimensão integradora, que não fragmenta os diferentes
elementos envolvidos na evolução humana, que consideramos a teoria do desenvolvimento de
Wallon como a “psicogênese da pessoa completa”.
2 Apesar de considerar que o desenvolvimento não é linear e contínuo, Wallon compreende que este se dá em
fases/ estágios orientadas por aspectos orgânicos. Vale ressaltar que tais fases sofrem rupturas, retrocessos e
são relativas ao contexto de cada indivíduo.
3 Wallon trabalha com o conceito de campos funcionais nos quais a atividade infantil se distribuiria, são eles a
afetividade, a motricidade e a inteligência.
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Henri Wallon compreende o desenvolvimento psíquico da criança – base de seus
estudos do desenvolvimento humano – como descontínuo e marcado por contradições e
conflitos, resultado da maturação orgânica e das condições ambientais. Essa visão se
contrapõe a idéia de um desenvolvimento linear e em etapas definidas e seguidas, que
compreenderiam períodos marcados, que se sucederiam. Para Wallon, aspectos dos diferentes
momentos do desenvolvimento não são propriamente “superados” por outros, mas podem
reaparecer em outra fase da vida, ganhando novos sentidos de acordo com as diferentes
condições do sujeito.
Seu estudo – como já mencionado - leva em conta o contexto em que vive a criança,
considerando as influências do ambiente social, das experiências culturais.
Esse meio em que a criança vive não é estático e homogêneo, ele também transformase
junto com a criança. A cada idade estabelece-se um tipo próprio de interações entre o
sujeito e seu meio. Conforme a disponibilidade da idade a criança interage mais fortemente
com um ou outro aspecto de seu contexto, extraindo dele os recursos para o seu
desenvolvimento. Este, se baseará nas necessidades e competências específicas da criança
naquele momento de vida. Esta determinação recíproca entre as condutas das crianças e o seu
meio, conferem um caráter de relatividade ao processo de desenvolvimento.
Ainda assim, considerando a influência do ambiente e da cultura no desenvolvimento,
este tem uma dinâmica e ritmo próprios, resultantes do que Wallon chama de princípios
funcionais que agem como leis constantes. Os fatores orgânicos são os responsáveis pela
seqüência fixa entre os estágios do desenvolvimento, embora não garantam uma
homogeneidade no seu tempo de duração (as circunstâncias sociais interferem nesse aspecto).
As etapas do desenvolvimento têm um ritmo descontínuo, marcado por rupturas,
retrocessos e reviravoltas, movimentos que provocam profundas mudanças em cada etapa
vivida pela criança. Portanto, a passagem dos estágios de desenvolvimento não se dá de modo
linear, por ampliação. Trata-se de fato em um movimento de continua reformulação, marcada
por crises que afetam a conduta da criança.
Conflitos se instalam nesse processo e eles são propulsores do desenvolvimento aos
quais chama de fatores dinamogênicos (que conferem dinâmica). Tais conflitos podem ser
resultado de desencontros entre o comportamento da criança e o ambiente exterior (exógeno –
relativo a externo) ou originários de fatores orgânicos, relativos a maturação infantil
(endógenos – causa interna).
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“(...) O desenvolvimento infantil é um processo pontuado por
conflitos. Conflitos de origem exógena, quando resultantes dos
desencontros entre as ações da criança e o ambiente exterior,
estruturado pelos adultos e pela cultura. De natureza endógena,
quando gerados pelos efeitos da maturação nervosa. Até que se
integrem aos centros responsáveis por seu controle, as funções
recentes ficam sujeitas a aparecimentos intermitentes e entregues a
exercícios de si mesmas, em atividades desajustadas das
circunstâncias exteriores. Isso desorganiza, conturba, as formas de
conduta que já tinham atingido certa estabilidade na relação com o
meio” (Galvão, 1995)
O desenvolvimento da pessoa se dá numa construção progressiva em que se sucedem
fases em que ora predominam aspectos afetivos, ora cognitivos. A essa tendência a
predomínio de um aspecto sobre o outro Wallon dá o nome de “predominância funcional”.
Tal predomínio é orientado pelo principio de alternância funcional. Cada fase tem suas
peculiaridades, delineadas pela predominância de um tipo de atividade. Tais predominâncias
estão ligadas aos recursos que a criança dispõe para interagir com o ambiente.
São cinco os estágios propostos por Wallon, cada qual com sua especificidade4. O
primeiro, “impulsivo-emocional”, que abrange o primeiro ano de vida, cuja ênfase é a emoção
(predomínio afetivo); o “sensório-motor e projetivo”, que vai até o terceiro ano, quando o
interesse da criança se volta para a exploração sensório-motora do mundo físico (predomínio
cognitivo). O do “personalismo”, que cobre a faixa dos três aos seis anos, cuja tarefa central é
o desenvolvimento da personalidade, a construção da consciência de si (predomínio afetivo).
Aos seis anos inicia-se o estágio “categorial”, cuja ênfase recai para os avanços dos
progressos intelectuais, dirigindo o interesse da criança para o conhecimento e conquista do
mundo exterior (predomínio cognitivo). Por fim, o estágio da adolescência quando a crise
pubertária impõe a necessidade de novos contornos da personalidade em função das
mudanças corporais, trazendo a tona questões pessoais, morais, existenciais, retomando a
predominância da afetividade.
Cada um desses estágios traz novas conquistas realizadas pela etapa anterior,
construindo-se reciprocamente num processo de integração e diferenciação. O fato de haver o
predomínio do aspecto afetivo em determinada fase, como por exemplo na impulsivaemocional,
não quer dizer que aspectos afetivos não estarão presentes na próxima etapa (ainda
que não sejam os predominantes).
4 Neste texto não aprofundaremos a definição de cada estágio mais detalhadamente. Para conhecer mais sobre
o assunto sugiro a leitura dos textos indicados na bibliografia consultada.
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Enfim, ao longo do desenvolvimento ocorrem sucessivas diferenciações entre os
campos funcionais entre os quais se distribui a atividade infantil e interior de cada um. Este
conceito da diferenciação é chave na psico-genética de Henri Wallon e orientará o processo
de formação da personalidade de forma mais ampla.
3- A comunicação com o outro: elo vital.
Trataremos agora de um aspecto específico da teoria Walloniana: a comunicação
humana em seus primórdios. Wallon (1975) indica que desde o início da vida, na formação
uterina do ser humano, há uma dualidade da criança e das suas condições de existência. Essa
dualidade está ligada ao fato de a criança ser, ao mesmo tempo e progressivamente capaz de
reagir por conta própria em diferentes situações e à estímulos igualmente diversos e, ao
mesmo tempo, depender vitalmente de sua mãe.
Para ele, o desenvolvimento do ser humano está ligado às suas possibilidades e
necessidades de existência. No início da vida, ainda no ventre materno, há uma relação
simbiótica entre a criança e mãe, uma associação vital. A criança recebe tudo da mãe e, ao
mesmo tempo, vai tornando-se um pequeno ser, organizando todo o seu equipamento
biológico. Recebe da mãe a alimentação, o sangue que lhe traz oxigênio necessário para o
desenvolvimento de seus tecidos, os hormônios necessários a sua evolução somática e tudo o
mais.
Ainda na vida intra-uterina, mesmo ainda tão pequeno e dependente do outro para a
sua própria autoconstrução, o feto já regula o crescimento excessivo de seus órgãos graças a
suas glândulas endócrinas, tem um sistema nervoso capaz de reagir segundo o nível das
estruturas já realizadas (como por exemplo, reflexos de postura provocados por impressões
que fizeram seu caminho por meio do sistema nervoso da criança). Quem já vivenciou uma
gestação provavelmente pode perceber reações de seu bebê à alguma situação inesperada,
como um susto ou algo do tipo.
Com o nascimento, uma primeira cisão mãe-bebê é experimentada. A criança tem
agora que desenvolver autonomia respiratória. Todas as suas outras necessidades dependem
estreitamente da mãe ou de quem se ocupa dos cuidados com a criança. Mudar de posição,
saciar sua fome, sua sede, manter-se limpa, ser acolhida, acalmada, dentre outras necessidades
só podem ser realizadas pela iniciativa de um outro. Os movimentos e gritos do recém8
nascido, inicialmente desordenados, parecem ainda não ter uma utilidade que resulte em bem
estar.
O estado inicial da consciência pode ser comparado a uma nebulosa (Galvão, 1995),
uma massa difusa na qual o bebê se confunde com a sua própria realidade exterior. O recémnascido
não se percebe como indivíduo diferenciado. Mistura-se a sensibilidade do ambiente.
A diferenciação entre o eu e o outro só se dará progressivamente, a partir das interações
sociais. O bebê encontra-se num estado de dispersão e indiferenciação, percebendo-se fundida
ao outro e aderida às situações e circunstâncias do meio.
Durante esse primeiro período da vida (até aproximadamente os três meses) a criança
orienta todos os seus atos úteis em direção às pessoas (no caso mais geral, a mãe), gestos de
expressão que visam a satisfação das necessidades que necessita ter supridas. Faz parte então
da evolução humana a perspectiva da ajuda mútua para a subsistência.
É fundamental ressaltar o papel da emoção na teoria de Wallon e mais especificamente
no entendimento do desenvolvimento da comunicabilidade do bebê. Para ele, a emoção
encontra-se na origem da consciência, operando a passagem do mundo orgânico para o social,
do plano fisiológico para o psíquico. É importante diferenciar emoção de afetividade. A
emoção é uma manifestação da vida afetiva (assim como os desejos e sentimentos), porém
afetividade é um conceito mais abrangente. As emoções são sempre acompanhadas de
alterações orgânicas (aceleração dos batimentos cardíacos, da respiração, dificuldades na
digestão,etc). Provocam alterações na mímica facial, na postura, na forma como os gestos são
executados. Wallon defende que as emoções são reações organizadas e que se exercem
reguladas pelo sistema nervoso central, situado na região sub-cortical.
No bebê os estados afetivos são vividos como sensações corporais, expressos pelas
emoções. Só com a aquisição da linguagem diversificam-se as possibilidades de expressar as
emoções, bem como os motivos que as originam.
No primeiro ano a emoção é o comportamento predominante, posteriormente, as
reações emotivas tão freqüentes no comportamento infantil, são subordinadas ao controle das
funções psíquicas superiores. As emoções promovem uma ação no meio humano. Tomemos
novamente o exemplo do bebê recém-nascido que depende da ajuda de parceiros mais
experientes para sobreviver. Tendo em vista que sozinho ele não tem perícia para realizar
quase nada – desde virar-se de uma posição incomoda até alimentar-se – ele necessita afetar o
outro para ter suas necessidades atendidas. Nesse sentido, sua primeira atividade eficaz é
desencadear no outro reações de ajuda para a satisfação de suas necessidades. Gritos, choros,
gesticulações são as primeiras expressões do bebê que, a princípio não são intencionais, e
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contagiam os adultos constituindo uma comunicação que vai se intensificando
progressivamente.
Tal comunicação é baseada em componentes corporais e expressivos. As pessoas
próximas do bebê acolhem e interpretam suas reações, agindo de acordo com o sentido que
atribuem a elas. A reação do adulto às expressões do bebê vão modelando um mútuo
entendimento, consolidando alguns “códigos” de comunicação próprios daquele
relacionamento. O adulto sorri conversando com o bebê, percebe diferenças no choro do
mesmo que podem significar necessidades igualmente diferentes,e daí por diante. Pouco a
pouco os atos do bebê diversificam-se vão tornando-se cada vez mais intencionais. O
movimento deixa de ser somente espasmo ou descarga impulsiva e passa a ser expressão,
afetividade exteriorizada.
Após os três meses a criança já sabe dirigir-se às pessoas à sua volta, não só através de
gritos em relação aos cuidados materiais de que necessita, mas com sorrisos e sinais de
contentamento, movimentos que expressam os laços afetivos entre ela e aqueles que lhe
correspondem. Trata-se de uma simbiose afetiva, “a criança vive quase tanto das suas relações
humanas como da sua alimentação material.” (Wallon, 1995, pg. 206).
“(...) Há uma ligação indissolúvel, a partir de uma certa idade, entre o
desenvolvimento psíquico do indivíduo e o seu desenvolvimento biológico” (idem,pg.207).
Não existe preponderância do desenvolvimento psíquico sobre o desenvolvimento biológico,
mas ação recíproca. Há portanto uma incessante ação recíproca do ser vivo e de seu meio.
“Essa ação varia com as possibilidades orgânicas do ser vivo e é a maturação de seu
organismo que permite à criança manter com o ambiente relações recíprocas que estão na
base de sua existência.” (pg.208) Esse ambiente constitui para a criança um ambiente social.
A representação das coisas pela criança é inicialmente global, ela relaciona as pessoas ao
papel que desempenham em seu ambiente e a como entram em sua existência. É assim que
algumas crianças bem pequenas por vezes chamam outros adultos muito próximos, que
também se responsabilizam por seu cuidado de “mamãe” ou “papai”.
Por volta dos três anos a criança passa por um período muito importante do
desenvolvimento de sua personalidade, torna-se mais sensível ao que Wallon chama de
“constelação familiar”. Ela começa a compreender de certo modo a posição que ocupa em sua
família, enquadrando-se num conjunto que delimita sua personalidade. Esse movimento de
tomada de consciência de sua estrutura familiar ocorre com um simultâneo ganho de
autonomia, pois ela começa a formular a pergunta do seu eu em relação ao eu dos outros,
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tornando-se sensível as relações diversas que podem existir no interior da família de que ela é
um elemento fixo.
Considero apropriado transpormos essa observação de Wallon com relação ao papel
do outro na tomada de consciência da criança de seu próprio eu, para a experiência das
crianças nos espaços de Educação Infantil. Para a realidade que muitas crianças vivem hoje,
os ambientes das creches são espaços que parecem também cumprir esse papel e
provavelmente traz outras perspectivas para a desenvolvimento da sociabilidade que Wallon,
dado os limites da realidade histórica em que viveu (século XIX- XX) quando certamente as
instituições destinadas ao atendimento às crianças diferiam muito das que temos hoje (bem
como as práticas e estudos sobre a função desses espaços).
Refletir sobre a proposição de Wallon que compreende a reciprocidade entre o meio e
o biológico, nos instiga a pensar sobre a importância do papel dos espaços destinados às
crianças e das possibilidades que as relações entre crianças-crianças, crianças-adultos e
experiências coletivas possuem no sentido de contribuir para a desenvolvimento da criança.
Está é uma provocação para continuarmos a refletir sobre as questões aqui expostas!
Referências bibliográficas:
DANTAS, Heloysa, LA TAILLE, Yves, OLIVEIRA, Marta Kohl. Piaget, Vygotsky,
Wallon: teorias psicogenéticas em discussão. São Paulo: Summus, 1992.
GALVÃO, Izabel. Henri Wallon, uma concepção dialética do desenvolvimento
infantil. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995.
GALVÃO, Izabel. Uma reflexão sobre o pensamento pedagógico de Henri Wallon.
Série Idéias n. 20, São Paulo: FDE, 1994. p. 33-39. http://www.crmariocovas.sp.gov.br/
SANTOS, Fernando Tadeu. Henry Wallon, Educação por inteiro. Nova Escola online,
Edição nº. 160, Março de 2003.
MAHONEY, Abigail A. e ALMEIDA, Laurinda R. A constituição da pessoa na
proposta de Henri Wallon. São Paulo: Loyola, 2004.
MAHONEY, Abigail A. e ALMEIDA, Laurinda R (orgs.) Henri Wallon – psicologia e
educação. São Paulo: Loyola, 2006.
WALLON, Henri. Psicologia da Educação e da Infância. Lisboa, Portugal: Editorial
Estampa, 1975.
WALLON, Henri. A evolução psicológica da criança. Lisboa, Portugal: Edições 70,
1995.
A NOÇÃO FREUDIANA DE CONSTRUÇÃO
(The Freudian Notion of Construction)
Márcio Zanardini Vegas
Mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Psicanalista em Curitiba e autor do livro “A Noção Freudiana de Construção”.
E-mail: marciozvegas@gmail.com
Fernando Aguiar
Doutor em Filosofia pela Université Catholique de Louvain (UCL, Bélgica).
Professor do Departamento de Psicologia e do PPG em Psicologia da Universidade Federal
de Santa Catarina (UFSC).
E-mail: fabs@cfh.ufsc.br
Resumo: Freud formalizou a noção de construção tardiamente, em 1937; portanto, já no final de sua vida e
obra. Sempre relacionada à interpretação, à maneira (heurística) de tanto outros pares antitéticos,
a construção se tornou na atualidade um procedimento técnico de pouco prestígio, em particular
na clínica lacaniana, e sua menção praticamente desapareceu dos textos psicanalíticos. Este
artigo propõe-se a examinar o estatuto da noção de construção, conforme a lógica própria e
imanente à clínica e à metapsicologia freudianas. O trabalho de construir visa enlaçar o que há de
compulsivo e irrepresentável, e não pode ser interpretado, é uma tentativa de atingir de maneira
alusiva o núcleo do recalque, de tal forma que o construído passe a operar como verdade.
Palavras-chave: construção; direção do tratamento; fantasia.
Abstract: Freud's notion of construction was lately formalized, in 1937; therefore, in the end of his life and
work. Always related to interpretation, through the heuristic manner of so many other antiethical
pairs, the construction became on present time a technical procedure of low prestige, in particular
regarding the lacanian clinic, and its mention practically disappeared from the psychoanalytical
texts. This article has the objective of examining the construction notion statute, according to the
peculiar logic comprehended by the Freudian clinic and metapsychologies. The work of
construction takes aim of entwining that of compulsive and non-representable, and it can't be
interpreted, being an attempt of attaining in an allusive way the nucles of repression, in such way
that the constructed may operate as the truth.
Key-words: construction; cure management; fantasy.
A técnica psicanalítica da construção se faz presente na clínica freudiana desde os seus
primórdios, e pode ser encontrada nos diversos relatos de casos clínicos lado a lado com a
prática da interpretação. No entanto, Freud pouco se deteve em descrever tal técnica por
considerá-la, segundo suas palavras, “auto-evidente". Dedica à noção, especificamente,
apenas um texto de sua obra, e já ao final de sua vida – o que também não deixa de ser
curioso. Ao menos é o que o título nos faz crer: “Construções em Análise” (1937a).1
Contudo, não se pode considerar tal técnica como de menor importância no tratamento
freudiano; pelo contrário, está presente em todo processo de análise e ocupa lugar decisivo
para um final de análise.
Contudo, na contemporaneidade, especificamente entre os autores freudo-lacanianos
parece consenso que a construção não é trabalho do analista. As obras que de algum modo
abordam a temática tratam-na com alguma estranheza e até mesmo escárnio, colocando o uso
de tal técnica como sendo um erro de Freud. A construção, da parte do analista, é uma
técnica condenada entre os seguidores de Lacan: é antes trabalho do analisando na
construção da fantasia, cabendo ao analista fazer-se de objeto a – objeto causa do desejo.
A Noção Freudiana de Construção
Revista AdVerbum 3 (2) Ago a Dez de 2008: pp. 125-137.
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Diante de seu ínfimo prestígio atual, e devido ao pouco tempo a ela dedicado pelo
fundador da psicanálise, a noção precisa ser revisitada, com o fim de explicitar seu valor
efetivo no trabalho clínico de Freud e da própria psicanálise. Nosso ponto de partida ou de
referência já foi anunciado, ou seja, o único texto de Freud sobre o tema, “Construções em
Análise”, de 1937. O percurso ali empreendido por Freud define também o deste artigo, além
de remeter a outros textos do fundador que circundam a nossa temática.
Construções em análise
A intenção de escrever o texto de 1937, segundo o próprio Freud, era apresentar uma
resposta às críticas feitas à psicanálise por supostamente colocar o psicanalista no lugar de
mestre, senhor da verdade. Tal crítica se baseia no seguinte raciocínio: se uma interpretação é
aceita, ela está correta, mas se é rejeitada não significa um erro, e sim uma resistência do
paciente ao tratamento. Ou seja, o paciente concordando ou não, o analista estaria sempre
com a razão.
O princípio de sua argumentação se faz com uma descrição sobre o processo de análise.
Segundo Freud (1937a), a finalidade de uma análise é o abandono de formas de satisfação
primitivas e sintomáticas. Para tanto, faz-se necessário acessar de forma completa os
registros recalcados basilares do sintoma. Este acesso se dá por diversas vias: sonhos, chistes,
atos falhos, repetições, formações do inconsciente favorecidas pela transferência com o
analista. É deste modo que se obtém todo material relativo a um possível desfecho de uma
psicanálise.
Uma análise, para Freud (1937a), consiste em duas tarefas, desenvolvidas quase de
maneira independentes. Ao analisando cabe dizer tudo o que lhe vem à alma em busca das
recordações perdidas, e a tarefa do analista é “[...] completar [zu erraten, de fato, adivinhar,
supor] aquilo que foi esquecido a partir dos traços que deixou atrás de si ou, mais
corretamente, construí-lo” (p.276). A comunicação da construção é o ponto de encontro entre
estes dois trabalhos. A ausência de uma formalização anterior é explicada por considerá-la
auto-evidente, e o faz neste texto apenas visando outro propósito. Ou seja, curiosamente, o
objetivo do texto não é apresentar a noção de construção como o título deixa entender, mas
defender-se das acusações apresentadas e, tendo a construção como lastro, evitar o uso
inadequado da interpretação.
O construir é posto como trabalho preliminar, pois se faz necessário completar um
fragmento para em seguida comunicá-lo ao analisando, que por sua vez age sobre este
material, dando subsídios para uma nova construção do analista. O fragmento construído
versa sobre a “história primeva esquecida”, e possui, portanto, uma proximidade com a
verdade almejada.
Aliás, esse é o ponto em que Freud (1937a) diferencia a construção da interpretação: a
esta última “aplica-se a algo que se faz a algum elemento isolado do material, tal como uma
associação ou uma parapraxia [ato falho]” (p.279). Ou seja, a construção é mais ampla no seu
conteúdo, na produção de sentido, e de maior alcance na aproximação do núcleo recalcado
do que a interpretação. Com tal, pode-se mesmo dizer que a construção é uma
superinterpretação na direção dos objetivos da análise. Por suas características, a sua
comunicação exige certo tempo transcorrido de análise, pois incide sobre conteúdos que o
paciente não foi capaz de lembrar, portanto, diferente dos rememoráveis em análise.
Contudo, a construção, ao contrário da interpretação, poucas vezes produz uma
recordação do material apresentado, no entanto, gera efeitos terapêuticos idênticos ao do
recordar e uma forte crença na realidade da cena apresentada. O que possibilita tal efeito?
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Antes de apresentar as explicações sobre tal fato é necessário fazer alguns apontamentos
sobre o que se constrói em análise.
Por um lado, a construção toca num campo em que o recordar é impossível pela
associação livre do analisando e a interpretação do analista. Por outro, talvez não exista uma
lembrança a ser recordada, seja porque seu conteúdo é uma produção do inconsciente e a
rigor não pode ter sido esquecido; seja por tocar algo fora do campo representacional, como
um “puro pulsional”.
Mas será outra a direção tomada por Freud para explicar o não-recordar pela ação da
resistência, observando que, em contrapartida, se produz imagens “ultra-claras” de detalhes
acessórios da cena construída. Dito de outra maneira, existe o deslocamento da intensidade
psíquica para dados pouco relevantes, capazes de escapar à censura. Trata-se de uma
explicação coerente com o sistema de pensamento freudiano, pois credita às ações defensivas
a permanência de uma representação no inconsciente, dentro da dicotomia conscienteinconsciente.
Mas existe também, na descrição do psiquismo, algo que ultrapassa essa
dimensão representacional (de palavras e de coisas), que na segunda tópica recebe o nome de
Isso. Dispomos assim de uma brecha para pensar em outras explicações para a afirmativa
segundo a qual a construção não produz uma recordação, pois essa segunda descrição do
aparelho psíquico rompe as dimensões consciente, inconsciente, aplicáveis apenas às idéias.
Outro fundamento para as hipóteses levantadas, para além das propostas pelo mestre, é
verificar que em seu texto imediatamente anterior, “Análise terminável e interminável”,
Freud (1937b), debate exaustivamente os limites do tratamento analítico e o fim da análise. O
propósito outro citado por Freud (1937a), com o texto em questão, não seria também
vislumbrar acréscimos, avanços ao tratamento, para além dos limites do rememorável? Existe
algo além do princípio de prazer que opera e produz efeitos na vida das pessoas.
Retornemos aos enigmáticos efeitos da construção: a cena construída pelo analista não
é recordada pelo paciente, mas advém a crença na verdade da sua existência. Freud (1937a)
espanta-se com tal situação, por entender que apenas trazendo para o consciente o
inconsciente é possível chegar a uma “cura” da neurose. No entanto, ele obtém efeitos
semelhantes prescindindo da recordação. Apresenta assim a seguinte questão: “Como é
possível que aquilo que parece ser um substituto incompleto produza, todavia, um resultado
completo” (p.284). Há um interesse em explicar os efeitos produzidos pela construção na
vida do analisando, apesar dele não conseguir lembrar a cena construída.
A comunicação de uma construção produz recordações “ultra-claras”, imagens
secundárias à cena produzidas em sonhos, ou mesmo em estado de vigília, semelhantes a
fantasias: “Essas recordações poderiam ser descritas como alucinações, se uma crença em
sua presença concreta se tivesse somado à sua clareza” (ib, p.285). No entanto, a crença em
sua existência como registro pré-existente é condição para se dizer que a construção foi bem
sucedida. O termo crença deve ser entendido num sentido que excede o campo da vontade,
do consentimento do sujeito, a tal ponto que sua demonstração se faz mais pelos efeitos que
produz, do que pelo julgamento do analisando sobre a sua realidade. O analisando não
precisa declarar sua crença na cena construída, mas demonstrar que ela opera como verdade
em sua vida.
Freud (1937a) aventa a hipótese de as alucinações em geral se constituírem a partir do
material experimentado na infância, depois esquecido, e que retorna: algo visto ou ouvido
pela criança numa época em que ainda mal podia falar. E afirma que os delírios psicóticos
possuem estreita relação com as moções pulsionais inconscientes e o retorno do recalcado.
Admitindo a hipótese de que o material constituinte dos delírios possui semelhanças com o
conteúdo construído em análise, cabe um exame da natureza dos delírios e de que como tal
aproximação é possível.
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O delírio, para Freud (1937a), possui um funcionamento no qual se destacam dois
fatores: o afastamento da realidade e a influência exercida sobre o conteúdo do delírio pela
realização de um desejo. À maneira dos sonhos, ele apresenta o delírio como um
aproveitamento oportunista do impulso recalcado frente ao afastamento da realidade para
ascender à consciência, enquanto as resistências deformam e deslocam o material que vem à
tona. O crucial nesta concepção não é apenas a existência de “método na loucura, [...], mas
também [a existência de] um fragmento de verdade histórica, sendo plausível supor que a
crença compulsiva que se liga aos delírios derive sua força exatamente de fontes infantis”
(p.285).
Freud (1937a) destaca a importância do estudo da psicose, apesar de ter-se dedicado
pouco a ela em sua clínica, e de como é possível, dessa maneira, entender o funcionamento
do aparelho psíquico: é como se fosse um sonho acontecendo sob os olhos do analista. É um
modelo para a compreensão da neurose, como na analogia que se segue:
Os delírios dos pacientes parecem-me ser os equivalentes das construções que erguemos no decurso
do tratamento analítico – tentativas de explicação e de cura [...]. Será tarefa de cada investigação
individual revelar as conexões íntimas existentes entre o material da rejeição atual e o da repressão
[recalque] original. Tal como nossa construção só é eficaz porque recupera um fragmento da
experiência perdida, assim também o delírio deve seu poder convincente ao elemento de verdade
histórica que ele insere no lugar da realidade rejeitada (1937a, p.286). [grifos nossos]
As comparações de Freud entre o delírio na psicose e a construção na análise remetem à
fantasia na neurose como sendo outro equivalente. Tomemos como similares o material da
construção, o da fantasia e o do delírio, “um substituto incompleto que produz efeito
completo” sobre o recalcado. Admitindo esta hipótese, é necessário aprofundar no
entendimento da natureza deste recalcado e, também, como a construção produz efeito de
verdade no processo de análise. Vale seguir as indicações sobre o estudo das psicoses e nos
aproximarmos do estudo da fantasia para entender os seus efeitos e a que ela se destina.
O método na loucura
Não só por sua (relativa) raridade, o texto de Freud mais importante dedicado ao tema
da psicose (ou neurose narcísica, como ele chegou a propor) é indubitavelmente “O caso
Schreber”, um de seus cinco grandes historiais clínicos,3 publicado em 1911. Não se trata de
um paciente de Freud, mas refere-se, como anunciado no subtítulo, a um estudo sobre o
relato autobiográfico de um caso de paranóia, escrito pelo Dr. Schreber sobre a sua própria
doença. Freud (1911) reconhece na paranóia a possibilidade de investigar, mesmo que de
maneira deformada, aquilo que o neurótico procura manter escondido. Isso, por entender que
a diferença entre ambas, em parte, refere-se à intensidade do conflito psíquico. O psicótico
vive aquilo que o sintoma neurótico apenas figura.
Resumidamente, a história do Dr. Schreber consiste num delírio estruturado que em sua
forma final faz dele o escolhido por Deus para repovoar a Terra. Para isso, torna-se
necessário sua transformação em mulher, a mulher de Deus, a fim de por Ele ser fecundado e
gerar com seus filhos uma nova humanidade.
Freud (1911), na medida em que apresenta o histórico de Schreber – desde o episódio
inicial de hipocondria até chegar ao delírio em sua forma final – formula explicações sobre a
progressão da doença e, num trajeto regressivo, de como o delírio se constrói para responder
a um conflito psíquico. Para Freud, aliás, trata-se de essencialmente um o conflito a que o
delírio pretende resolver em todos os casos masculinos de paranóia: a fantasia de desejo
homossexual de amar um homem, mais precisamente o pai ou alguém que figure como tal.
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Para chegar a esse ponto de generalização é preciso percorrer parte do histórico do
Senatspräsident Schreber, a começar por sua relação com seu primeiro médico, o Prof.
Flechsig, de grande importância para o seu delírio na fase bem estruturada. No início do
delírio de perseguição, o médico ocupava lugar central, e mesmo em momento posterior – o
de conciliação com o desejo homossexual – ele permanece como seu instigador durante todo
o curso da doença. Flechsig é visto como um assassino da alma, de quem provém a ameaça
de emasculação contra Schreber. A alma de Flechsig é categorizada com subdivisões iguais
as descritas para se referir a Deus em momento posterior de seu livro: “Deus Flechsig”.
É interessante notar que a figura do médico, temida e odiada, foi antes amada e
honrada. Foi ele quem o tratou durante a primeira internação, e após a sua alta passou a
receber intensa devoção da esposa de Schreber, a ponto de compor um porta-retrato em sua
casa. Mas a mudança afetiva frente à figura do médico é uma reação ao despertar da fantasia
de assumir perante ele uma atitude feminina. O desejo de ser possuído pelo médico
transforma-se em medo de sofrer abuso sexual – esta é a solução temporária manifesta em
seu delírio. É mais suportável para o eu sentir-se perseguido sexualmente por um homem do
que assumir a existência de um desejo de servir de mulher para ele.
O sentimento pelo Dr. Flechsig foi o que possibilitou a ascensão da fantasia
homossexual muito antiga, localizada por Freud (1911) entre o narcisismo e as primeiras
escolhas objetais. Nesse tempo (lógico), a tendência é que as primeiras escolhas sejam pelo
semelhante ao eu, portanto homossexual (“sexo igual”). Claro que outros fatores aparecem
em cena no desencadear da doença de Schreber, como, por exemplo, o pesar que sentia por
não ter tido filhos (não ser pai). De fato, não se trata de um caso de homossexualidade, mas
sim de desejos homossexuais próprios à organização infantil que eclodiram na vida adulta. O
delírio de ser transformado em mulher de Deus é a saída para conciliar esse desejo, que nos
neuróticos pode ter outros destinos, como o recalque e a sublimação. Aliás, no presente caso
tal desejo permaneceu escondido por muito tempo, até algo despertar essa libido
homossexual. Freud levanta hipóteses, como a morte de seu pai e irmão e uma promoção
profissional.
A mudança da figura do médico para Deus parece ser um agravamento da doença, mas
é o que possibilitou alguma resolução no conflito. Tratando-se de um pedido de Deus, a
mudança de sexo e a idéia de ser tomado sexualmente como mulher entram em consonância
ao que Schreber chama a “ordem das coisas”. E ele tinha razão, pois o eu pode ser incluído
nesse desejo pela intensa satisfação narcísica colocada à disposição: a honra de ser mulher de
Deus. Restabelece-se a ordem das coisas no aparelho psíquico, pois se conciliou algo que
antes era insuportável.
É possível remontar esse desejo homossexual a um tempo anterior ao surgimento do
médico na vida de Schreber. Freud (1911) relaciona a figura de Deus e do médico, e estes
com o pai do pequeno Schreber: o Doutor, pois era um famoso médico. Doutor Daniel
Gottlob Schreber, cujo segundo nome, que pode ser traduzido por “Louvor a Deus”, contém
nele mesmo a explicação para as discussões de Schreber com Deus, principalmente pela
semelhança aos conflitos de uma criança com o pai amado. O medo da ameaça de castração
do pai versus seu amor fornece o material para a fantasia de desejo de ser transformado em
mulher.
Depois de confrontar com seus colegas analistas outros casos de psicose, Freud (1911)
fica estupefato ao encontrar como típico dos casos de delírio paranóide a existência, no cerne
do conflito psíquico, de uma fantasia de desejo homossexual. Enuncia tal fantasia de desejo
da seguinte maneira: “eu amo o homem” (o pai). Fazendo jogos de palavra com este
enunciado e criando novas combinações, apresenta as variações possíveis nos casos de
paranóia:
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1. Delírio de perseguição: o “eu amo o homem” apresenta-se por duas inversões “o
homem me odeia”. O amor vira ódio e o eu, de sujeito torna-se objeto;
2. Erotomania: “ela me ama”. Inverte-se o sexo com quem se estabelece relação, bem
como o eu se torna o objeto de amor. O “alvo” passa a ser feminino, enquanto
sujeito da oração;
3. Delírios de ciúme: “ela ama o homem”. Todo o processo está fora do eu, pois ele
não é nem sujeito, nem objeto dos investimentos pulsionais. Contradiz o sujeito, ou
seja, exclui o eu;
4. Megalomania: nega toda a sentença: “não amo ninguém, só a mim mesmo”. O eu
torna-se o objeto de si mesmo excluíndo a relação com qualquer outro. Há o autoenaltecimento.
É preciso considerar o delírio como uma reação frente ao desejo e à ameaça que este
representa à coerência do eu. Inventa-se uma nova realidade capaz de comportar o desejo
ascendente. “A formação delirante, que presumimos ser produto patológico, é, na realidade,
uma tentativa de restabelecimento, um processo de reconstrução” (1911, p.78). Construção
de um mundo novo capaz de conciliar a falha no recalque do desejo pelo pai. Após o
recalque, a tendência está em procurar estabelecer ligações substitutas, sendo a instância do
eu, na paranóia, o objeto privilegiado de investimento da libido – é um retorno ao narcisismo.
Isso torna possível uma construção da realidade delirante.
As produções do inconsciente carregam um saber, seja no delírio, no sintoma ou na
fantasia. A construção está cercada por esse universo conceitual de formações inconscientes,
no entanto, ela surge exatamente onde não é possível interpretar. Se Freud usa o delírio como
modelo da construção, isso nos faz pensar que ela se presta aos mesmos alvos. E a fantasia
inconsciente, em que medida nos serve para pensar a construção?
As fantasias perversas
Em 1919, Freud publica “Uma Criança é Espancada”. A partir de seis casos clínicos
(quatro mulheres e dois homens, neuróticos e não neuróticos), ele aborda uma fantasia cujo
conteúdo nomeia o referido texto. A fantasia da “criança espancada” envolve alto grau de
prazer de ordem sado-masoquista e surge na mais tenra infância como um traço primário de
perversão que mais tarde pode ser recalcado. Trata-se de uma parcela do sexual que
permanece fixado a essa forma de satisfação. A maneira como os analisandos a narram em
análise é produto de um processo histórico de elaboração e sofrem diversas modificações
durante o seu desenvolvimento.
Freud (1919) inicia sua narrativa pelos casos femininos, afirmando que, numa primeira
fase de elaboração da fantasia “bate-se numa criança”, quem é espancado não é a pessoa
criadora da fantasia e sim uma outra criança conhecida, como um irmão ou irmã. Na outra
ponta da cena está a pessoa espancadora, um adulto que será reconhecido apenas em outra
etapa como sendo o pai da menina fantasiadora. Essa primeira fase da fantasia pode ser
apresentada na seguinte sentença: “alguém está batendo nunca criança”.
Numa segunda fase ocorre uma importante transformação. O pai é claramente o
espancador, e quem passa a apanhar é a própria criança: “Estou sendo espancada pelo meu
pai” é a nova sentença, o que torna a fantasia marcadamente masoquista. Um intenso prazer é
adicionado à cena fantasiada.
Essa segunda fase é a mais importante e a mais significativa de todas. Pode-se dizer, porém, que,
num certo sentido, jamais teve existência real. Nunca é lembrada, jamais conseguiu tornar-se
consciente. É uma construção da análise, mas nem por isso é menos uma necessidade (Freud 1919,
p.201). [grifos nossos]
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Está claramente dito tratar-se de uma fantasia o construído em análise, e impossível de
ser lembrado pela associação livre. Para Freud, essa construção possui o conteúdo mais
importante e significativo da fantasia.
A terceira etapa assemelha-se à primeira, no sentido de que as pacientes são capazes de
comunicá-la. Além disso, quem bate não é mais o pai: ou a figura permanece indeterminada
como na primeira fase ou se torna um substituto do pai, como por exemplo, um professor.
Quem sofre a agressão não é apenas uma criança, mas diversas e todas do sexo masculino,
cujas identidades são diferentes da pessoa criadora da fantasia – inclusive, não se consegue
reconhecer as crianças nem como próximas ou sequer conhecidas. Entretanto, algo é muito
diferente da primeira fase: a existência de uma intensa excitação sexual, derivada da segunda
fase, que procura satisfação pela masturbação. Outra característica dessa fase é que o
espancamento pode ser substituído por cenas de humilhação ou castigos. A sentença é esta:
“Alguém bate e/ou humilha meninos (desconhecidos)”. A fase é marcadamente sádica e
torna-se detentora de forma permanente dessas tendências libidinais na vida adulta.
Deduz-se (adivinha-se?) a segunda etapa pela diferença entre a primeira e a última,
acessíveis pela associação livre – o que explica a intensa satisfação acrescida na passagem de
uma etapa a outra – e também possibilita identificar os seus reais agentes pelos
representantes do pai e da própria criança identificados nas outras etapas.
Freud (1919) afirma ser possível encontrar no processo de análise a criança na época
envolvida com questões relativas ao pai, ao complexo paterno – expressão com a qual Freud
designa, no complexo de Édipo, a relação ambivalente em relação ao pai – caso se chegue até
o período infantil em que tal fantasia é constituída. Existe uma ambivalência de sentimentos
para com aquele que é tomado como objeto, e a necessidade de dividir sua atenção e ternura
com outros, impondo-lhe uma perda de um lugar imaginário de onipotência (narcisismo).
Logo, a fantasia é o produto do conflito posto entre a realidade e os desejos infantis, e pode
ser retratada da seguinte maneira: “O meu pai não ama essa criança, ama apenas a mim”. A
fantasia não resolve o conflito, mas retrata a ambivalência de sentimentos: ser amada pelo pai
e o medo de perder esse amor possibilitam a satisfação por duas vias opostas.
Tudo isso se realiza sob alienação do eu. Encena-se na segunda fase a perda desse
amor, como forma de satisfazer a um sentimento de culpa por ser (imaginariamente) o objeto
incestuoso. Além disso, a organização genital regride para a etapa anal-sádica, ou seja, a
sentença “o meu pai me ama” precisa ser distorcida e na regressão da organização sexual
aparece com a equivalente “o meu pai está me batendo”. Desta maneira consegue satisfazer,
ao mesmo tempo, o sentimento de culpa e o amor em relação ao pai. “Não é apenas o castigo
pela relação genital proibida, mas também o substituto regressivo daquela relação” (Freud
1919, p.205). A fantasia é literalmente uma masturbação mental.
Freud (1919) entende que a fantasia construída (segunda etapa) nessas análises
permanece inconsciente, provavelmente em função da intensidade do recalcamento. Ou seja,
trata-se de algo registrado no inconsciente, mas em função da relevância de seu conteúdo a
pressão para que essa representação permaneça no inconsciente é tal que não se consegue
acessá-la por associação, é preciso que o analista use os fragmentos deixados pelo paciente e
reconstrua esta cena. A hipótese é que esse conteúdo está no inconsciente, e o analista apenas
o denuncia. A construção em Freud equivale a pôr em palavras o que se deduz existir de
modo inconsciente pelos indicativos deixados na fala do paciente a respeito de sua tenra
infância.
Para demonstrar a existência de um registro prévio no inconsciente da fantasia
construída, ele utiliza o caso de um homem que era capaz de lembrar da cena de ser
espancado por sua mãe. Freud acredita existir uma fase anterior no homem que permanece
inconsciente: a inversão do papel entre ele e sua mãe. Se essa é a peça fundamental na
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fantasia masculina, então a etapa de ser espancado pela mãe permanece acessível por já ser
um substituto da fantasia fundamental. Logo, resta também no homem algo a ser construído
em análise; e, ao contrário do que pode fazer crer, a prova freudiana de que o construído já
estava inscrito é ineficiente aos seus propósitos, pois o lembrado não equivale ao construído.
A etapa fundamental recalcada no menino é também o desejo de ser espancado pelo
pai, como uma manifestação regressiva do seu amor por ele, e antes da etapa final do
complexo de Édipo em que o pai passa a ser novamente objeto de identificação. Pois, como
afirma o próprio Freud (1919), essa fantasia é uma cicatriz, um resíduo, uma marca da
passagem pelo complexo de Édipo, e posteriormente recalcada. O pai, aqui também, assim
como no delírio paranóico anteriormente apresentado no caso Schreber, está no centro de sua
organização. Pode-se afirmar que a relação ao pai apresenta contornos próprios na
constituição do sujeito e está na base das formações desse tipo de fantasia, dos delírios
paranóicos e, por que não dizer, da construção em Freud. “Não me surpreenderia se algum
dia fosse possível provar que a mesma fantasia é a base do delirante espírito litigioso da
paranóia” (1919, p.210).
Ainda é importante destacar que, independente das diferenças no roteiro feminino e
masculino dessa fantasia de espancamento, e para além do mecanismo de recalcamento
aplicado ao Édipo, existe também a regressão, enquanto mecanismo de defesa criador das
condições para a realização da fantasia. Ou seja, não apenas o recalcamento explica a
impossibilidade de acessar o “desejo pelo pai”, mas a sua regressão a um período anterior de
organização garante a sua realização e, ao mesmo tempo, sua “invisibilidade”. Dessa forma
percebe-se que o mecanismo de regressão possui importante papel na regulação do
psiquismo, destacando-se junto com o recalcamento na tentativa de garantir que certos
conteúdos se mantenham à distância da consciência. Além de interpretar, é preciso percorrer
o sentido inverso da organização do sintoma para desvendá-lo, reconstituir sua história,
reconstruí-la.
Até o momento, abordou-se o delírio e a fantasia enquanto um modelo para a
construção, e entendidas como tentativas de dar resolução a um conflito primitivo e que
marcam um modo de organização do sujeito. Esses trabalhos indicam o complexo paterno e o
narcisismo como conceitos fundamentais na explicação desses primórdios. Propomos assim
aprofundar com eles este estudo, verificando a construção na prática de um caso clínico, um
dos mais importantes e debatidos: o Caso do Homem dos lobos (1918), um trabalho posterior
à analise dos delírios de Schreber (1911) e anterior ao das fantasias de ser espancado (1919).
As construções sobre o Homem dos lobos
O relato do caso do Homem dos lobos foi publicado em 1918 com poucos acréscimos
à sua escritura, quase toda já realizada em 1914. Este atraso na publicação sem dúvida deveuse
à primeira Grande Guerra; em contrapartida, dele se beneficiou a questão do sigilo, não
tivesse Sergei Constantinovitch Pankejeff se tornado mais tarde um personagem público,
tendo mesmo publicado sua autobiografia. Esse é também um momento de debate entre
Freud e os psicanalistas da época em relação a alguns conceitos, e de certa maneira uma
continuidade do apresentado em “História do Movimento Psicanalítico” (1914).
Discordâncias teóricas entre Freud, Jung e Adler começaram em 1910 e culminaram na
dissidência destes do movimento psicanalítico, menos pelo desejo em montar novas escolas,
do que pela declarada pressão da figura de Freud ao rejeitar veementemente suas
proposições. Na época, até se comentou a existência de três escolas de psicanálise, mas Freud
em 1914 decide o debate, usando sua posição de fundador, estabelecendo critérios para que
um tratamento pudesse ser considerado uma psicanálise. Uma das conseqüências desse
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confronto é a fundação da Psicologia Analítica, por Jung, e da Psicologia Individual, por
Adler.
A discordância de Jung em relação a Freud está focada na concepção de sexualidade
infantil e a definição de libido enquanto energia sexual. Jung acreditava ser “neutra” a
energia que anima a vida, sendo a sexualidade uma de suas vicissitudes. Ou seja, a
sexualidade como centro da vida anímica desagradava a Jung, que, tentado a adentrar o
sedento e puritano mercado americano, preferiu abrir mão desse aspecto central da
psicanálise. Duro golpe para Freud, que via no médico de Zürich seu sucessor, e o único
capaz, inclusive por sua origem não-judaica, de estender os domínios psicanalíticos por toda
Europa.
Em relação a Adler, tratava-se do incômodo de estar “à sombra”, como nos conta Freud
(1914). Ele construiu sua própria teoria, apoiada na idéia da existência de um “protesto
masculino” como fator dominante na neurose, colocando o inconsciente em segundo plano
em favor do eu. Para Freud (1914), Adler propõe uma verdadeira visão de mundo, assim
como a filosofia, na medida em que busca explicar não apenas o funcionamento do
psiquismo humano, mas também quer refletir sobre as coisas do mundo e definir um modo
dos pacientes se conduzirem na vida.
Essa situação descreve parte do momento político que cerca a escritura do caso clínico
do “Homem dos lobos”, e Freud precisa comprovar suas teorias e apresentar argumentos para
refutar a dos outros, a fim de garantir a sua concepção sobre o psiquismo humano e os
aspectos fundamentais de sua teoria. A necessidade de responder a esse aspecto político
expõe o caso a riscos – se comprovar as teorias for mais importante do que ouvir o paciente.
Aliás, interpretações nesse sentido são apresentadas no livro da Associação Mundial de
Psicanálise (1996), que afirmam ser esse caso uma tentativa de comprovar o Édipo em
detrimento ao próprio caso clínico. Lê-se mesmo, em Roudinesco (1998), que Freud chega a
inventar vários detalhes do caso, inclusive o que chama de “estarrecedora cena primária”
(p.565), e muito mais tarde negada por Sergei em entrevista publicada no formato de livro
por uma jornalista vienense.
O “Homem dos lobos” é uma descrição detalhada sobre o tratamento de um jovem que
se encontrava incapacitado e em cuja infância (aos seis anos) apresentou um quadro de fobia
seguido de uma neurose obsessiva de conteúdo religioso. Aos dez anos apresentou os
primeiro sinais de uma grave neurose. Por volta dos vinte anos, sua irmã e pai se suicidaram
num intervalo de dois anos. Na vida adulta, apresentava distúrbios intestinais permanentes.
Um dos momentos mais importantes do caso e também pertinentes a este trabalho é a análise
de um sonho de angústia que o paciente teve com apenas quatro anos de idade: a janela de
seu quarto se abre, lá fora a imagem de seis ou sete lobos brancos sentados em cima de uma
grande árvore, e ele, tomado de pavor de ser por eles devorado. É a partir desse sonho que
Freud faz a construção da cena primária. É da análise desse sonho que se presume a causa
de sua fobia: o medo/amor que sentia por seu pai. A atitude ambivalente em relação a todo
representante paterno foi o aspecto dominante de sua vida, assim como durante a análise com
Freud.
Este sonho é o primeiro momento a trazer à tona o temor ao pai. A análise parcial
realizada por Freud (1918) aponta os seguintes fragmentos utilizados numa construção
posterior: “uma ocorrência real – datando de um período muito prematuro – olhar –
imobilidade – problemas sexuais – castração – o pai – algo terrível” (p.46). Essa seqüência
indica ser este um sonho de angústia, causada pela realização de um desejo de satisfação
sexual com o pai enquanto a revivescência de uma lembrança anterior. Refere-se a uma
ocorrência real, em que a satisfação sexual com o pai é experienciada através da observação
de um possível coito a tergo (relação sexual em posição como a dos animais, de quatro) entre
o pai e a mãe. Essa cena possibilitou-o saber da diferença sexual anatômica, e de sua
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castração como condição para se obter tal satisfação sexual. O desejo em relação ao pai
obriga-o a se posicionar como mulher, ou seja, castrado. No sonho dos lobos existe, de forma
deformada, uma realização de desejo pelo pai, e junto desta o medo da castração, é a
ambivalência do complexo paterno.
O caso segue com uma discussão, em dois tempos, sobre a realidade da cena primária,
cena construída em análise. Trata-se de refletir sobre as duas vertentes dentro do movimento
psicanalítico: uma, a de Freud (1918), crente na realidade da cena primária construída, e
outra, que a considera uma produção imaginária regressiva dos pacientes. Embora
destacando que nada se altera no tratamento, caso seja correta uma ou outra vertente, os
fatos, porém, parecem reforçar a segunda vertente, pois “essas cenas da infância não são
reproduzidas durante o tratamento como lembranças, são produtos de construção” (p.61). A
disputa parece assim se resolver em favor da última hipótese. Porém, apoiando-se na
construção da cena primária no caso do Homem dos lobos, Freud afirma ter o conteúdo
dessas cenas um significado tão extraordinário para o histórico do caso, que elas apenas
podem ser “pressentidas – construídas – gradativa e laboriosamente a partir de um conjunto
de indicações” (ib, p.62). Mais ainda, apesar de não serem fruto de recordações, geram
sonhos, o que não deixa de ser uma forma de lembrar.
No primeiro tempo da discussão, relatada em 1914, Freud posiciona-se favoravelmente
à idéia da cena primária como uma cena ocorrida de fato – em parte, pelo sentimento de
convicção apresentado por seus pacientes. Rebate ao dizer que tal sentimento poderia ser
creditado a sugestão do analista ao comunicar sua construção. Ao considerar o uso da
sugestão na psicanálise, Freud afirma que isso a relegaria a seguinte situação: a diferença
entre a psicoterapia e a psicanálise se resumiria ao fato de a primeira tentar convencer o
paciente de que se está curado, enquanto a segunda o convenceria da verdade de uma cena
capaz de curá-lo. Ou seja, nenhuma diferença na prática, pois ambas precisariam creditar sua
eficácia ao efeito da sugestão.
Freud vai além ao dizer que outra crítica possível é de que, além de ser uma fantasia, a
cena primária é uma fantasia do analista, pois é ele quem a constrói a partir dos seus
próprios conteúdos. A réplica de Freud (1918) a essas críticas é no mínimo interessante:
Um analista que escuta essa reprimenda confortar-se-á a si mesmo recordando o quão gradativamente
veio à tona a construção dessa fantasia [grifo nosso] [...] e, quando tudo estava dito e feito, o modo
como ocorreu independente do incentivo do terapeuta (p.63).
É como se dissesse: só quem conhece o percurso na elaboração de uma construção é
capaz de julgar sobre a imparcialidade deste trabalho, pois é produto da escuta do discurso do
paciente. E mais, é por conta do seu potencial em solucionar o tratamento que acredita na sua
validade enquanto técnica, pois todo o presente caso passa a encontrar explicação e solução
na fantasia/cena primária construída na análise. Aqui não se pode ter dúvida sobre a
necessidade de redimensionar a discussão sobre a construção: o que se constrói em análise é
uma fantasia primária cujo efeito demonstra sua importância, especificamente para o final do
tratamento. Depois de “determinada fase do tratamento, tudo parecia convergir para essa
fantasia, e como mais tarde, na síntese, os mais variados e notáveis resultados irradiam-se
dela” (ib, p.63).
Está-se o mais próximo possível do recalque primário numa análise; ou pelo menos esta
é a tentativa freudiana, entendendo-o como aquele sofrido por um representanterepresentação
(Vorstellungrepräsentanz). Nele, o acesso da representação à consciência é
negado, ou seja, a sua capacidade de se ligar a uma representação de palavra
(Wortvorstellung) é obstruída de forma definitiva – por não poder ser dita, permanece,
irremediavelmente, inconsciente. Construir seria oferecer palavras próximas o suficiente à
representação impossível de ser dita, e a fantasia seria, por sua composição de representações
de coisa (Sachvorstellungen), uma forma de dizer sem palavras, ou melhor, encenar algo
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sobre esse indizível. Assim como o eu faz pressão para efetuar o recalque propriamente dito
(secundário), em contrapartida, no interior do Isso, o núcleo do recalcado procura atrair as
idéias que façam alguma alusão ao seu conteúdo.
O tratamento é capaz, pela interpretação, de levantar parte do material recalcado que
gravita ao redor de seu núcleo. No entanto, ao se abrir uma via de acesso até ele não é
suficiente para saber seu conteúdo, é preciso “construir” para capturar algo desse recalcado.
Considerações Finais
Temos assim, feito esse percurso, o seguinte panorama sobre a noção de construção: é o
trabalho longo e extensivo executado pelo analista em recolher ao longo de uma análise
fragmentos que lhe permitam reconstituir a cena em que a doença se funda e explica-se. A
construção enunciada é uma explicação sobre a causa de o sujeito ser como ele é. E ainda,
por conta da insistência do complexo paterno enquanto cerne dos delírios, fantasias e
formações sintomáticas vistos até então, pode-se afirmar que a relação ao pai está na causa
dessa organização.
Sobre a veracidade da cena primária, Freud acrescenta, em 1918, e em função das
descobertas apresentadas em “Os caminhos da formação dos sintomas” (1917), uma posição
bem diferente da defendida até então e pouco antes anunciada, de que a cena primária
realmente aconteceu: “certamente não há mais necessidade de duvidar que estejam lidando
apenas com uma fantasia.” (Freud 1918, p.67). No caso do homem dos lobos, a cena
construída aos quatro anos de idade – sobre a observação de uma relação sexual entre seus
pais quando tinha apenas pouco mais de um ano – é uma produção regressiva frente aos
momentos decisivos dos complexos de Édipo e de castração em que se encontrava. “A cena
que seria inventada tinha que preencher determinadas condições que, em conseqüência das
circunstâncias de vida do sonhador, só poderiam ser encontradas precisamente nesse período
primitivo [tenra infância]” (ib, p.69).
Apesar das descobertas feitas, Freud prefere encerrar esse tópico da discussão dizendo
serem as provas ainda inconclusas. No entanto, permanece fiel em relação às outras possíveis
acusações com as quais de antemão não se furtou em debater, principalmente ao repudiar a
idéia de que a construção é fruto de sugestão, imaginação do analista ou projeção de seus
conteúdos nos analisando.
Vejamos agora a situação precisa em que Freud busca demonstrar a injustiça de tal
afirmação: a análise faz um percurso em que várias recordações são deixadas de lado, mas
com o tempo e outras circunstâncias acrescidas fazem o analista ficar atento a certos
conteúdos até então tomados como sem importância. Trata-se, no presente caso, de uma crise
de angústia no paciente surgida enquanto caçava borboletas. Essa lembrança retornou
diversas vezes na análise, mas sem encontrar uma explicação. Porém, num certo dia o
paciente fala sobre uma borboleta que era chamada de “vovó” em sua língua materna. A
associação continua no sentido de demonstrar uma equivalência entre borboleta e mulher. A
borboleta caçada tinha listras amarelas e sobre essa característica Freud (1918) faz o seguinte
“esforço construtivo” (p.97): as listras poderiam ser semelhantes à roupa de alguma mulher.
O decorrer da análise mostraria o quão equivocado estava ele em sua construção com a
solução do enigma trazida pelo paciente.
Este exemplo parece mais congruente como interpretação do que como construção.
Talvez porque do ponto de vista prático, na sua clínica, fosse para Freud de pequena monta a
diferença entre construção e interpretação, ou está distinção clínica não lhe parecia com
suficiente clareza até então.
A Noção Freudiana de Construção
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A construção da cena primária é para Freud condição para a análise encontrar o seu
fim, contudo, seu processo começa já no início de uma análise, chegando ao seu termo
quando a fantasia fundamental é comunicada e produz um efeito de verdade sobre o paciente.
Por esse efeito, presume-se ser verdadeira aquela construção, fruto de um trabalho
meticuloso de recolher fragmentos, que por insistirem na cadeia discursiva do paciente
indicam sua importância futura. O trabalho é do analista, mas o conteúdo é do analisando.
É importante sublinhar neste caso clínico a maneira como, sem ignorar as críticas feitas
em sua época – aliás, semelhantes às contemporâneas –, ele se põe a defender sua posição.
Abre mão da realidade da cena primária e a assume como uma fantasia construída em
análise; mas procura demonstrar – destacando a importância da honestidade intelectual – o
seu valor técnico no final de análise. É a forma encontrada por Freud para solucionar o
tratamento.
Sobre uma possível oposição entre construção e interpretação como deixada a entender
no texto de 1937, deve-se admitir que os conceitos, em certos pontos, se interpenetram.
Primeiro é preciso defini-los nos seguintes termos: a construção é o trabalho feito pelo
analista de recolher, ao longo de uma análise, fragmentos extraídos do discurso do sujeito, da
relação transferencial e de seus atos que, reunidos, possibilitam explicar de que maneira o
sujeito se constituiu. Pelo seu aspecto imaginário, pode-se dizer que se reconstrói a fantasia
do analisando sobre si mesmo. Já a interpretação se mantém como qualquer intervenção do
analista. Ou seja, quando se comunica uma construção, também se faz uma interpretação.
Construir é um processo solitário de “escavação” e a interpretação, qualquer palavra ou ato
do psicanalista. Porém, em sua comunicação, a construção coincide com a interpretação.
Freud supõe que o sentimento de certeza provindo da comunicação da construção é
similar ao sentimento do psicótico em relação ao seu delírio porque ambos provêm da
presença de um elemento de verdade histórica. A construção toca o recalcado por alusão,
faz referência a ele, de tal maneira que pode ser visto como um equivalente disso cujo acesso
está bloqueado. A construção gera um representante2 desse recalcado original na consciência.
É importante ressaltar que em Freud (1937a) a construção é um substituto de uma lembrança
esquecida, e oriunda de um passado primevo. Isso destaca a importância dada por ele até o
fim de sua obra à existência de dados oriundos da realidade material na constituição do
sintoma. Mas não apenas isso: a construção cria uma possibilidade de “cura”. Freud crê que a
explicação apresentada possibilita um fim ao tratamento, como se fosse necessário ao
paciente um sentido sobre as suas origens e a de seu sintoma. É no recalque primário que
essa organização tem início, ele impulsiona o aparelho psíquico a buscar no exterior os
objetos de satisfação, criando as bases inclusive para o pensamento como o conhecemos.
A construção pretende enlaçar pela palavra o excedente pulsional não representável e
interromper o movimento compulsivo. Freud faz avançar o tratamento quando se esforça em
tocar o recalque primário e cria na consciência um equivalente daquilo que não pode ser dito.
Por fazer ressoar a verdade em causa, obtém a convicção do analisando sobre a sua realidade.
Contudo, não se pode deixar de considerar o lugar da transferência como potencializador (em
sua vertente sugestiva) da crença do sujeito sobre as palavras do analista. Parece que Freud,
aqui, está disposto a abrir mão da sua imparcialidade, talvez, por ser o único recurso que
dispunha com alguma eficiência para terminar a análise.
Notas
1 Nas referências às obras freudianas, por nos parecer relevante neste artigo a cronologia dos textos consultados,
aparecerá a data da primeira publicação, conforme sua notação internacional e, apenas nas referências
bibliográficas, ao final, a data da publicação e edição utilizada.
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2 Os demais historiais clínicos são conhecidos como: o caso Dora, o pequeno Hans , o Homem dos ratos e o
Homem dos lobos.
3 Enquanto lugar-tenente: aquilo que ocupa o lugar de outro.
Referências Bibliograficas
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Psicanálise. Rio de janeiro: Jorge Zahar Ed.
FREUD, Sigmund (1996). “Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso
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Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, v.XII.
_____. (1996). “História do movimento psicanalítico” (1914). In: Edição Standard Brasileira
das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, v.XIV.
_____. (1996). “Os caminhos da formação do sintoma” (1917). In: Edição Standard
Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago,
v.XVI.
_____. (1996). “História de uma neurose infantil” (1918). In: Edição Standard Brasileira das
Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, v.XVII.
_____. (1996). “Uma criança é espancada” (1919). In: Edição Standard Brasileira das Obras
Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, v. XVII.
_____. (1996). “Construções em análise” (1937a). In: Edição Standard Brasileira das Obras
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_____. (1996). “Análise terminável e interminável” (1937b). In: Edição Standard Brasileira
das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, v. XXIII.
ROUDINESCO, Elisabeth. & PLON, Michel (1998). Dicionário de psicanálise. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Ed.
Sistema de valores del sadomasoquismo: la fascinación por el poder, la venganza y la supervivencia*.
Perla Ducach y Carlos Tabbia
(La idea de este trabajo surgió de las observaciones recogidas de nuestros pacientes, especialmente aquellos que presentaban una problemática sadomasoquista. En ellos se apreciaba una particular concepción del mundo y un controvertido sistema de valores.
The values system of sado-masochism: the fascination for power, revenge and survival. The idea for this work came from observing our patients, especially those who presented sado-masochistic problems. We noted in these patients a particular concept of the world and a controversial system of values.)
“Uno no puede apartar de sí la impresión de que los seres humanos suelen aplicar falsos raseros; poder, éxito y riqueza es lo que pretenden para sí y lo que admiran en otros, menospreciando los verdaderos valores de la vida.”
Freud (1930 [1929] )
En este trabajo presentaremos en progresivas descripciones el estado emocional del sujeto atrapado en una visión del mundo sadomasoquista. Una sucinta introducción teórica servirá para establecer el marco dentro del cual presentaremos el sistema de valores del sadomasoquismo.
Freud afirma en Tres Ensayos de Teoría Sexual (1905) que la sexualidad humana es un fenómeno complejo; considera que hay muchas formas de tránsito entre la sexualidad normal y la perversa, ya que ambas tienen una fuente común que es la sexualidad infantil. El rasgo más importante y sorprendente de la sexualidad infantil es el hecho de que está dirigida hacia los padres, lo cual significa que el Complejo de Edipo ocupa un lugar central en este descubrimiento.
En Pulsiones y destinos de pulsión (1915), el masoquismo se explica a través del modelo energético pulsional. Las cualidades de las pulsiones se presentan en pares: actividad-pasividad, sadismo-masoquismo, etc. y así, mediante la transformación en lo contrario, la pulsión sádica puede mudarse en masoquista. Posteriormente en el trabajo Sobre las trasposiciones de la pulsión, en particular del erotismo anal (1917), vemos
* Publicado en: Más allá del Principio del Placer. Sobre el masoquismo, el desinvestimiento y la destructividad. GRADIVA, Barcelona, 2003, pp. 54-61 con el título “Sistemas de valores del sadomasoquismo. La fascinación por el poder, la ley de Talión y la supervivencia”.
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un abandono del principio energético en beneficio del manejo del sentido y significación en la fantasía de la relación del ano y recto con la materia fecal.
El enfoque del sadomasoquismo cambia radicalmente en Pegan a un niño (1919). Freud investiga en este trabajo las transformaciones de esta fantasía y se interroga acerca del significado de la misma. Surge entonces la relación entre la fantasía y el masoquismo, el “niño que está siendo golpeado” no es otro que el paciente mismo o, dicho de otro modo: donde encontremos masoquismo también se habrá de encontrar la fantasía de que “un niño está siendo azotado”. La transformación de esta fantasía atraviesa varios estadios comenzando por: “están pegando a un niño”, hasta culminar en: “soy amado por mi padre porque me está golpeando”.
Meltzer reúne estas fantasías con las proposiciones expuestas por Freud en el caso del Hombre de los Lobos a propósito del acto de copulación con un niño que se encuentra dentro del cuerpo de la madre; así, el masoquismo transitaría entre las siguientes premisas: en lugar de “mi padre copulando con aquel niño” o “mi padre golpeando a aquel niño”; concluiría en: ”yo soy aquel niño y estoy siendo copulado por mi padre dentro de mi madre de forma tan dolorosa porque me ama”. (Meltzer, 1990)
En Más allá del principio del placer (1920) Freud incorpora un lugar para la destructividad primaria como fuerza pulsional que incluye la crueldad, la violencia, el sadomasoquismo y la perversidad. El problema económico del masoquismo (1924) parte de la teoría de las dos pulsiones. La pulsión de vida o Eros orienta a la pulsión de muerte hacia el exterior con la ayuda del sistema muscular. El sadismo será un derivado de la pulsión de muerte modificado por obra de la libido. Otra parte de la pulsión de muerte no se vuelca hacia el exterior y persiste fijada libidinosamente para constituir el masoquismo primitivo erógeno que puede reforzarse por una nueva vuelta del sadismo hacia dentro, conformando el masoquismo secundario.
Melanie Klein, en su trabajo fundamentalmente con niños, centraba su atención en las relaciones de amor y odio, en primer término vinculadas a la madre y posteriormente al padre. También estudiaba los modos en que la incertidumbre acerca de la bondad o maldad de estos objetos generaban ansiedad.
El proceso descrito como escisión e idealización, que Klein sitúa en los primeros meses de vida, sienta las bases para la diferenciación entre bueno y malo y, por tanto, las categorías éticas de lo bueno y de lo malo en el self y en los objetos.
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Klein propone la relación del yo con el superyó como el fundamento del valor y a partir de la descripción de las relaciones de objeto en el mundo interno establece dos sistemas diferentes de valores: los de la posición esquizoparanoide y los de la posición depresiva.
La posición esquizoparanoide se rige por un sistema de valores que gobierna las relaciones entre el self y los objetos internos en sus formas más primitivas; el self se preocupa sobre todo por su salvación, su propio bienestar, seguridad, etc. La posición depresiva representa un gran cambio con respecto a los valores, en la medida en que el self se interesa en primer término por el bienestar del objeto.
Los pacientes en los que la escisión e idealización primaria es inadecuada, el masoquismo se les manifiesta fácilmente, ya que no pueden distinguir entre bueno y malo. Tienen dificultad para diferenciar un dolor causado por un objeto malo, de aquel que puede derivar de un objeto bueno; la distinción es precaria o muy confusa.
Meltzer piensa que Klein en sus descripciones de la culpa persecutoria, junto con aquello que es sentido como un daño irreparable al objeto, parece centrarse cada vez más en el asesinato de los niños dentro de la madre. Él considera que la fantasía nuclear en la formación de las perversiones está dada por el asesinato de los bebés en el interior de la madre.
Meltzer propone crear una nueva metapsicología de las perversiones cuyo punto de partida es el de una organización narcisista infantil que asume el control de la personalidad y somete a la parte adulta y a los objetos buenos internos a una actitud pasiva de abandono y entrega, convirtiendo lo bueno en malo aunque conservando la apariencia de bueno. Distingue entre perversidad y perversión. La perversidad es un estado mental que forma parte del proceso total del funcionamiento de la mente; puede socializarse envolviendo a otras personas. En cambio, la perversión es siempre de contenido agresivo y destructivo recubierto de erotización.
En la teoría del Claustrum (1992) Meltzer plantea una manera nueva y original de entender la psicopatología psicoanalítica basada en la experiencia de las relaciones de objeto y su importancia en la constitución del carácter y en la génesis y evolución de los valores. La relación con el objeto y la percepción del mismo puede llevar dos derroteros muy distintos y de gran significación. El interior del objeto puede ser imaginado desde fuera del mismo (base del desarrollo normal del self) o puede ser invadido a través de la identificación proyectiva intrusiva. La consecuencia de habitar dicho espacio convierte al interior de este objeto interno en un Claustrum, que es el área propiamente dicha de los fenómenos mentales patológicos. El objeto-madre interno y su cuerpo tiende a
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construirse en la mente como organizado en tres grandes regiones que son tres ámbitos de emocionalidad bien diferenciados unos de otros: un ciclo de felicidad dentro de los pechos, un jardín de sexualidad y reproducción en los genitales y un infierno muy atractivo de perversidad y sadomasoquismo en su recto.
Veremos ahora cómo los valores se perciben y se trastocan dependiendo de la percepción imaginativa desde el exterior del objeto o como consecuencia de habitar dentro del recto, el territorio del sadomasoquismo. Los moradores de ese espacio rectal se introducen a través de la clandestinidad o por intermedio de la violencia que acompaña a la masturbación anal. Ese es un ámbito en el que se degrada la conducta, los conceptos y la capacidad de pensar como preludio para la acción. Una vez penetrado ese lugar, la verdad se transforma en algo irrefutable; la justicia en talión; la dedicación se trastoca en lealtad; la confianza en obediencia, la emoción es simulada por la excitación y la culpa y anhelo de castigo toman el lugar del arrepentimiento (cfr.: Meltzer, 1994, pág. 93).
La visión del mundo
Para describir los estados mentales es necesario disponer de todos los componentes metapsicológicos que hemos ido señalando hasta ahora. Para dicha descripción dos elementos son fundamentales: por un lado, la escena primaria y la función de la familia y, por el otro, el rol de la organización narcisista infantil. Ambos elementos mantienen una lucha ininterrumpida por establecer o el predominio del desarrollo o el de la involución, lucha que también puede ser nombrada como el conflicto entre las pulsiones de vida y de muerte. Por otro lado, la pugna contra la escena primaria puede estar regulada por dos amplios espectros emocionales: los que surgen de los celos (y que nos abrirían al terreno amplio de la normalidad-neurosis) y los que surgen de la intolerancia a todo vínculo y que desencadenan los frenéticos combates contra todo lo que tenga la función de vincular, acercándonos al terreno de los estados psicóticos y perversos. El sadomasoquismo nos muestra ese terreno donde la lucha contra la función vinculante, propia de la escena primaria, se torna más evidente. El estado mental sadomasoquista comparte con el neurótico el reconocimiento de la realidad de la escena primaria, y con el psicótico comparte el de alterarla, para –basándose en el negativismo- construir en el infierno un mundo mejor que en el cielo, al modo de Schreber que construyó un mundo
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mejor y más grande que el de la realidad. Es nuestra intención describir la visión del mundo o el estado mental del sujeto que, de modo ocasional o permanente, se compromete en esa tarea.
Una de las primeras y más destacables características del estado mental sadomasoquista es su infatigable e irrefrenable actividad: dedican su vida a “la causa”. En ese sentido son esencialmente manipuladores y el dominar y ganar son los valores que dirigen su accionar. En los grupos (sobre todo cuando la perversión sale del ámbito masturbatorio y necesita socializarse, para lo cual necesita conquistar adeptos) buscan convencer de que su mensaje es mejor que el de los padres. La base orgullosa infantil omnipotente de este planteo provoca inquietud cuando la arrogancia suplanta al orgullo; la arrogancia proclama que las confusiones zonales permiten placeres superiores, como ciertos travestis que pueden reivindicar que son más capaces que las mujeres para satisfacer al varón. Desde la identificación con objetos idealizados se sienten grandiosamente poderosos y además pretenden el poder para dominar la mente de los capturados; necesitan el poder para hacer emerger al sádico y así vengarse y humillar. La meta del sadomasoquismo se opone a la colaboración con los miembros de la familia pues no tolera que cada miembro se desarrolle en libertad. En realidad, para quienes funcionan así, no existe una comunidad de hombres libres sino que ven al mundo como un sistema jerárquico y cerrado en el cual existen categorías; consideran que esa organización es incuestionable y que lo único que se puede negociar es si el candidato tiene los méritos para acceder a una categoría. Como es muy importante que no se infiltre nadie en ese sistema se torna imperiosa la necesidad de crear leyes, reglamentos, recomendaciones, actas, historia del grupo, etc. para así poder vigilar a los súbditos de esa organización. Pero como es imposible estar en todos los sitios, aunque se lo desee, se intenta colocar embajadores, cónsules, delegados, amigos en todos los sitios; esto conlleva mucha actividad pues siempre está el peligro de que los embajadores se despisten y comiencen a pensar por sí mismos, entonces se torna necesario hablar continuamente con los enviados, para lo cual el teléfono puede convertirse en un aliado instrumental de primer orden. Pero como la lealtad y la obediencia nunca están garantizadas, habrá que trabajar para convencer, seducir, exhortar y, llegado el caso, amenazar, calumniar, desacreditar. Las técnicas para conseguir aliados son múltiples: desde conmover mostrándose como humilde trabajador desinteresado hasta ofrecer prebendas, cargos o beneficios económicos, o conmover presentándose como víctima incomprendida y postergada. La fascinación por el poder les consume la vida; pero el drama es que, si no continúan
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trabajando para que el sistema o la institución se mantengan, temen ser decapitados al quedar alejados de la protección del tirano, del padrino o del torturador. La estructura mafiosa del funcionamiento sadomasoquista se dedica a establecer el poder de “otra” familia, el de aquella familia que garantiza el culto entronizado del padre mafioso, ese torturador que tanto ama la obediencia. Ese lugar de culto puede ser ocupado por cualquier objeto parcial idealizado (una persona, una institución, una causa, etc.) En este estado mental dicho objeto parcial funciona como un pene hedonista y asesino que reclama todos los placeres para sí. Pero, en realidad, el mayor anhelo del sadomasoquista es gobernar la mente de todos, principalmente la de sus padres a los que odia y desea mantener separados en una relación fría y estéril.
Querríamos señalar la connotación anal del trono, tan amado y admirado por estas personas; en tal trono ejercen el poder sobre las heces significando al objeto-ajeno, al que retienen, expulsan, dosifican, etc. El placer masturbatorio derivado del ejercicio del dominio atrapa a estos sujetos en un sistema cerrado del que temen salir y que les dificulta el renunciar a los cargos. El temor reside en la creencia de que al abandonar la estructura mafiosa o tribal serían capturados por otro sistema semejante. Están convencidos de que no hay otro modo de vida que el del sistema jerárquico; en concordancia con esta creencia son obsecuentes, y suponen que el jefe velará por ellos; además, siguiendo esa lógica, intentarán crear adeptos obedientes y así se retroalimentará un circuito cerrado.
Otro recurso adecuado a estos fines es la pasividad. La pasividad como arma del masoquista, al igual que la seducción, son recursos para conseguir el poder, el dominio, la victoria, el triunfo sobre la fecundidad de los padres. Con la pasividad se intenta manejar al objeto y convertirlo en protagonista del drama y responsable final de la tragedia: “¡él lo mató!”. La víctima es el bebé, pues el hijo revela la relación de los padres. El paciente puede –estratégicamente- presentarse apagado o como si no tuviera sentimientos cuando, en realidad, se trata de una compleja organización que tiene como meta dirigir al objeto; un paciente decía: “Me gustan las mujeres pero hay que trabajar para conquistarlas y siempre son ellas las que deciden; en cambio, con hombres tú te quedas quieto y ellos hacen todo el trabajo y en cualquier momento puedes retirarte, porque son ellos los que están deseosos; quedándote quieto consigues que ellos se muevan”; esta comunicación verbal hallaba su correlación en la conducta silenciosa que adoptaba en la sesión con la que intentaba provocar preguntas e interpretaciones en el analista. Pero si el analista intervenía no tardaba el paciente en expresar: “Ud. no me
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deja pensar, ¿acaso tiene mucha prisa?”. No pretendemos analizar el deseo del paciente de ser el objeto de deseo de otro, sino sólo mostrar el interjuego entre ambos protagonistas. Si el analista o la pareja correspondiente anhelara funcionar como héroe salvador sería percibido como un mentiroso violador que pretende someter a la víctima. Esto va creando malos entendidos circulares que desconciertan a los héroes y excitan a los sadomasoquistas, hasta reiniciarse el ciclo una vez más. Cabe preguntarse el motivo de la repetición. El ciclo debe continuar para satisfacer la fantasía de que siempre se conseguirá alguien que esté interesado en golpear y, así, sostener la esperanza de que el bebé pueda ser asesinado. El asesino es siempre un intermediario. Pero en el drama puede brotar un inesperado peligro al existir una premisa falsa: la de creer que se controla la mente del otro, y puede suceder que la pareja que se haya encontrado sea un psicópata que termine asesinando al masoquista, en lugar del bebé. El drama se transformó, así, en tragedia. Aunque siempre cabe la posibilidad de racionalizarlo como “amor hasta la muerte”.
Este funcionamiento que venimos describiendo puede ser encontrado en gradaciones muy diversas en distintos casos y ámbitos, por ejemplo, en pacientes inmaduros y no necesariamente perversos, en ciertas familias, instituciones, partidos políticos, en los grupos mafiosos, en las relaciones sexuales sadomasoquistas, etc. En estas últimas se escenifica con excitación los diversos componentes de este sistema: relación amo-esclavo, dominio, obediencia, degradación del pensamiento, exaltación del erotismo anal, etc.
Queríamos, ahora, destacar otro aspecto narcisista omnipotente en la relación sadomasoquista; nos referimos a la expectativa narcisista de llegar a ocupar todo el espacio de la mente del otro. El deseo sería hacer desaparecer a los integrantes de la familia interna y conseguir luego que cada uno de los miembros de la pareja sadomasoquista sea el único huésped del espacio interno del otro. ¡Sólo tú y yo! Una vez logrado el desalojo de terceros, sobrevienen las demandas y las pruebas de amor exclusivo y absoluto, que puede ser formulado como lo hacían unos amantes ocasionales: “si me amas, ve, roba y tráeme coca y heroína”, o como los amantes de El último tango en París que proponían comer una rata como prueba de amor. La fascinación tanática de fondo es la destrucción de la creatividad del vínculo, que remite a la fuente: la fecundidad parental; lejos de generar vida la propuesta adquiere formas tales como: “si me amas, entonces mátate”.
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Matar, siempre es la fantasía de asesinar para establecer una relación dual que excluya al tercero, ese bebé que proclama la fecundidad. El deseo omnipresente es el de controlar, transformar, alterar, destruir la escena primaria. Ya lo clamaba Segismundo –en La Vida es Sueño- que “el mayor delito del hombre es haber nacido”. El delito es nacer, porque eso revela la fecundidad de la pareja parental. El drama ha de ser trágico. Pero el asesino será perseguido a su vez. El Rey Basilio amenazado, encierra a su hijo Segismundo y éste amenaza a Rosaura -“Muerte aquí te daré”-. Si hubo daño se ha de pagar. Si el perverso ha captado un adepto al mundo jerárquico, automáticamente habrá de temer que el súbdito se convierta en tirano y lo someta; la persecución se retroalimenta con cada nuevo habitante incorporado. Interesa saber ¿quién es el jefe?, ¿quién está sentado en el trono? No se puede abandonar la cima de la pirámide porque se tiene la certeza de la venganza. Debajo de la ley taliónica (Ex., 21) subyace la creencia de que la venganza anula el agravio y así se hace justicia; esta creencia proyectada en ciertas sociedades contribuiría a la justificación de la pena de muerte. El perdonar después de la revancha es un principio que no sólo rige en las sociedades tribales o mafiosas. La creencia de que el castigo hará modificar la conducta es un principio vigente en las sociedades; esta mentalidad autoritaria y restrictiva considera que el castigo hace bien. El substrato aristocrático de esta concepción es: quien manda o domina, tiene razón. Esto trasciende hacia la creencia (idealizada) en las leyes, al punto de afirmar: “si es legal es moral”. En el sistema jerárquico no se admite el rechazo a las leyes inmorales. Cuando las leyes adquieren tal relevancia lo que se pretende es fomentar la obediencia, y convertir al sujeto en objeto de uso. Es un modelo en donde el sádico pide obediencia mientras el masoquista ama al que lo obliga.
He aquí el círculo ampliado de la visión del mundo sadomasoquista: jerarquía, tiranía, obediencia, venganza, persecución. En ese círculo no existe espacio para el perdón ni el olvido; la única gratificación es la excitación, la sensualidad de la excitación ligada a la persecución, que impide reconocer la realidad, pensar y crear significados. La incapacidad de crear significados radica en que estas personas “experimentan dolor, pero no sufrimiento”, porque sufrir implica “respeto por el hecho del dolor, sea propio o ajeno”, es decir reconocer la experiencia y su significado. Estos sujetos se defienden erotizando el dolor que “se inflige o se acepta pero no se sufre” (Bion, 1974, págs. 23-24). Atrapado en un circuito cerrado de persecución regido por la ley taliónica en el que rige el “joder o que te jodan” –como decía un paciente-, el sentir la persecución permite reconocerse vivo y amado, según la lógica siguiente: “si no me mató, entonces me 8
ama”. La excitación sensual tendría el matiz de defensa maníaca frente a la persecución, ¡hasta que la muerte nos separe!
Cuando la excitación de la persecución impide la salida al mundo externo nos estamos enfrentando al estado mental de una persona que tiene el centro de gravedad de su identidad residiendo en el compartimento rectal de un objeto interno. En ese caso se habría avanzado un paso más en la carrera jerárquica y se estaría más comprometido en la colaboración con el tirano, el pene fecal, organizador del mundo claustrofóbico sadomasoquista. Aquí el colaborador tendrá las prebendas de brutalizar a los novicios, sabiendo que –al igual que los reclutas- habrá de estar siempre dispuesto a satisfacer al torturador o tirano. El lugarteniente, el colaborador está atrapado, pues, en un mundo aislado, excluido de toda relación íntima, pendiente de complacer al tirano, al padrino y, al mismo tiempo, temeroso de los novicios, de los reclutas. La temperatura de la persecución y del terror ha aumentado un grado más en esa mazmorra. Su única meta es la de sobrevivir, disimular y desear que cuando llegue el turno de la brutalización, ésta no sea mortal. Cuando el terror se torna insostenible fantaseará con su suicidio como única liberación y, al mismo tiempo, formulará un despechado reproche al frío y desalmado torturador: “Yo que te quise tanto...”
Hemos realizado una presentación de la visión del mundo sadomasoquista donde los valores son alterados con dedicación y el cinismo conquista el territorio devastado. Sólo el análisis de la confusión puede evitar que la sensualidad triunfe sobre el significado.
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