sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Análise funcional do comportamento na avaliação e terapia com crianças

ISSN 1982-3541
Campinas-SP
2010, Vol. XII, nº 1/2, 1-19
Rev. Bras. de Ter. Comp. Cogn., Campinas-SP, 2010, Vol. XII, nº 1/2, 1-19
Análise funcional do comportamento na
avaliação e terapia com crianças
Functional analysis of behavior in the assessment and
therapy of children
Rochele Paz Fonseca1
Janaína Thaís Barbosa Pacheco2
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
Resumo
Este artigo objetiva apresentar a importância da análise funcional do comportamento na avaliação
e terapia comportamentais com crianças. Tomou parte um caso com oito anos e seis meses de
idade, sexo feminino e dois anos de escolaridade. Sua mãe procurou atendimento com as
descrições comportamentais da filha: desatenta, agitada, agressiva, desobediente e com
dificuldades escolares. A avaliação funcional foi realizada em seis situações: terapeuta-cliente,
terapeuta-mãe, terapeuta-pai, terapeuta-pais, terapeuta-tia e terapeuta-professora. Os principais
procedimentos foram a observação do repertório comportamental da cliente, o relato verbal e a
aplicação de instrumentos específicos. A análise funcional do comportamento foi promovida com
base na formulação de hipóteses dos efeitos de mudanças ambientais nos comportamentos-queixa
da cliente. Procedimentos de reforço verbal e generalizado foram utilizados para aumentar a autoestima
e desenvolver um comportamento de melhor desempenho aritmético e acadêmico. Ambos
os objetivos foram alcançados. Esse estudo de caso demonstrou que a análise funcional pode
embasar processos de avaliação e psicoterapia infantil, tornando-os mais efetivos.
Palavras-chave: Análise funcional; Avaliação funcional; Terapia comportamental; Infância.
Abstract
This article aims to demonstrate the importance of functional behavior analysis in behavioral
evaluations and therapy involving children. A client took part who was eight years and six months
old, female and with two years of schooling. Her mother sought assistance with the behavioral
descriptions of her daughter: listless, agitated, aggressive, disobedient and with learning
difficulties. The evaluation was conducted in six functional situations: therapist-client, therapistmother,
therapist-father, therapist-both parents, therapist-aunt and therapist-teacher. The main
1 Programa de Pós-Graduação em Psicologia – Área de Concentração em Cognição Humana. Grupo de Neuropsicologia Clínica e Experimental
(GNCE), Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Av. Ipiranga, 6.681 - Prédio 11 - 9º andar, sala 932
90619-900. Porto Alegre, RS, Brasil. Fone / Fax: 55-513320-3500 ramal 7742. E-mail: rochele.fonseca@pucrs.br
2 Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Pontifícia Universidade Católica (PUCRS). Bolsista PNPD.
Análise funcional do comportamento na avaliação e terapia com crianças
Rev. Bras. de Ter. Comp. Cogn., Campinas-SP, 2010, Vol. XII, nº 1/2, 1-19
2
procedures involved the observation of the behavioral repertoire of the client, verbal account and
the application of specific tools. The functional analysis of behavior was promoted based on the
formulation of hypotheses of the effects of environmental changes on the client’s complaintbehavior.
Procedures of verbal and generalized reinforcement were used to increase self-esteem
and develop a behavior that included better arithmetical and academic performance. Both goals
were achieved. This case study demonstrated that functional analysis can be based on processes of
evaluation and child psychotherapy, making them more effective.
Keywords: Functional analysis; Functional evaluation; Behavioral therapy; Childhood.
Introdução
O presente artigo tem por objetivo ilustrar a importância da análise funcional na avaliação e na terapia
comportamentais com crianças através de um estudo de caso. De acordo com Conte e Regra (2004), a psicoterapia comportamental infantil é considerada uma atividade clínica diferenciada que visa à modificação e a ampliação do repertório comportamental infantil. Esta abordagem estabeleceu-se como modelo mpsicoterápico infantil apenas a partir das décadas de 1950 e 1960.
Os pressupostos desta abordagem de psicoterapia infantil fazem parte do corpo teórico-metodológico da terapia comportamental, propriamente dita. A terapia comportamental consiste na intervenção terapêutica baseada no Behaviorismo Radical e na Análise Experimental do Comportamento; é também conhecida como Terapia Analítico-Comportamental – TAC – ou como Psicoterapia Analítica Funcional – PAF. Delitti (2001) ressalta o papel fundamental da análise funcional para o levantamento adequado dos dados
necessários para o processo terapêutico, ou seja, essencial na perspectiva de aproximação efetiva entre o clínico e o pesquisador. A dificuldade de promover uma análise funcional correta é, também, salientada pela autora. Neste contexto, estudos que ilustrem como esta análise pode ser promovida em ambiente clínico
podem contribuir para reflexões teóricometodológicas, acerca da sua aplicabilidade em consultório.
Uma intervenção psicoterápica infantil efetiva deve partir de um diagnóstico cuidadoso. Na abordagem
comportamental, a análise funcional consiste na principal ferramenta para um processo de avaliação e de terapia de modificação do repertório de comportamentos de uma criança (Delliti,

Análise funcional do comportamento
O Behaviorismo preconiza, segundo Delitti (2001), que a compreensão do homem só é alcançada a
partir de conhecimentos empíricos e da obtenção de dados em laboratório. Matos (1999b), ao abordar o Behaviorismo Radical, proposto por Skinner, ressalta que o eu é o construtor do conhecimento e que a metodologia do n=1 é aceita. Para esta autora, o Behaviorismo é radical por negar radicalmente a existência de algo que não seja identificável no espaço e no tempo e por aceitar radicalmente todos os fenômenos comportamentais.
Para Skinner (1953), o comportamento é o resultado da interação organismo-ambiente, só podendo ser entendido a partir da identificação das circunstâncias em queocorre. O comportamento é, então, uma
unidade interativa que deve ser investigada sistematicamente. Essa investigação se dá mediante a descrição e
a interpretação de relações funcionais entre comportamento e ambiente (Matos, 1999b).
Esse entendimento das relações funcionais entre comportamento e ambiente consiste na base da análise
funcional do comportamento. Esta análise pressupõe que um indivíduo emite um dado comportamento por este ter sido selecionado por suas conseqüências. Assim, todo e qualquer comportamento possui uma função dentro do repertório comportamental de um indivíduo (Skinner, 1953). A busca das variáveis externas, independentes, das quais o comportamento (variável dependente) é função, consiste na
principal finalidade de uma análise funcional. No contexto terapêutico, o foco da análise funcional é o comportamento do cliente e pode ser utilizada em diferentes momentos da terapia, tais como a avaliação, a intervenção e o processo de alta (Delliti, 2001).
A análise funcional realizada na avaliação do cliente objetiva desenvolver hipóteses sobre o efeito de variáveis ambientais na modelagem e na manutenção de comportamentos- -problema e, dessa forma, identificar a função do comportamento-problema (Field, Nash, Handwerk & Friman, 2000;
Santarém, 2000). Quanto à análise funcional na psicoterapia, é a etapa de verificação das hipóteses, através da manipulação sistemática dos eventos ambientais (Santarém, 2000). Alguns autores denominam essa etapa de análise funcional experimental, consistindo na Análise funcional do comportamento na avaliação e terapia com crianças Rev. Bras. de Ter. Comp. Cogn., Campinas-SP, 2010, Vol. XII, nº 1/2, 1-19
4
etapa que tem por objetivo central testar experimentalmente as hipóteses da etapa anterior, usando variáveis independentes derivadas da avaliação funcional (Field et al, 2000).
No que diz respeito aos procedimentos a serem tomados em uma análise funcional durante a avaliação do cliente, Meyer (2001) retoma três aspectos indicados como essenciais por Skinner, para uma formulação adequada da interação organismo-ambiente: 1) ocasião da ocorrência da resposta; 2) resposta propriamente dita e 3) conseqüências reforçadoras. Delitti (2001) enfatiza que, para a descoberta das
contingências em que o comportamentoproblema se instalou e de como ele é mantido, estão envolvidos três momentos da vida do cliente: 1) sua história passada; 2) seu comportamento atual e 3) sua relação com o psicoterapeuta.
Os métodos utilizados neste processo são a observação e o relato verbal. Estes podem ser utilizados no
contexto clínico, ou seja, em consultório, ou no contexto natural, residência, escola, local de trabalho do cliente, por exemplo.
A história passada só pode ser acessada por intermédio do relato verbal, que pode ser uma conversação dialogada, o relato de sonhos, fantasias, filmes, que tenham a função de estímulos discriminativos para
a evocação de eventos da história de vida do indivíduo. O comportamento atual e a relação cliente-terapeuta podem ser analisados, tanto a partir da observação de comportamentos variados do indivíduo, como a partir da interpretação do seu relato verbal (Delliti, 2001).
Com base nesta breve revisão da literatura, observa-se que a análise funcional realizada na avaliação não tem o objetivo de estabelecer um diagnóstico psiquiátrico tradicional, como Torós (2001) ressalta, mas buscar entender qual é a função dos comportamentosproblema no ambiente do cliente, através
de hipóteses sobre relações entre variáveis independentes e dependentes. Del Prette, Silvares e Meyer (2005) enfatizam que a avaliação, em terapia comportamental, visa a uma análise funcional que oriente a seleção de estratégias de intervenção, fornecendo, ainda, indicadores para posteriores avaliações da sua efetividade. Esses últimos autores em sua meta-análise de estudos de caso verificaram uma predominância do uso dos seguintes procedimentos de avaliação: entrevistas iniciais com os pais e a criança e a
observação direta da criança, no contexto da terapia.
Mediante uma visão conceitual mais ampla da análise funcional do Rochele Paz Fonseca - Janaína Thaís Barbosa Pacheco Rev. Bras. de Ter. Comp. Cogn., Campinas-SP, 2010, Vol. XII, nº 1/2, 1-19
5
comportamento, Matos (1999a) sugere cinco procedimentos básicos, cada um desses com estratégias específicas envolvidas, para a realização de uma avaliação e de uma intervenção funcionais, conforme pode ser observado na Tabela 1 abaixo.
Tabela 1. Cinco procedimentos básicos para uma análise funcional do comportamento.
Procedimentos Estratégias envolvidas
Definição precisa do comportamento de interesse
1) observação do comportamento de interesse
2) relato de outras pessoas sobre o comportamento
Identificação e descrição do efeito comportamental
1) especificação do efeito comportamental (freqüência de ocorrência, por exemplo)
Identificação de relações ordenadas entre variáveis ambientais e o comportamento de interesse, assim
como entre o comportamento-alvo e demais comportamentos
1) descrição da situação que antecede e da situação que sucede o comportamento de interesse
2) identificação das conseqüências dentre as situações que sucedem o comportamento de interesse
3) identificação das condições dentre as situações que antecedem o comportamento de interesse
Formulação de predições sobre os efeitos de manipulações das variáveis ambientais e de outros comportamentos sobre o comportamento de interesse
1) descrição da natureza das relações funcionais dentro de um referencial conceitual
2) identificação do envolvimento de eventos físicos e/ou comportamentos (da própria
pessoa ou de outras pessoas) nascondições antecedentes
Teste das predições 1) intervenção clínica ou institucional
2) investigação laboratorial
Para esta autora, então, uma análise funcional completa deve englobar observação, suposição e verificação,
visando à produção de uma definição funcional do comportamento. Matos (1999a) enfatiza, ainda, a impossibilidade de se observar diretamente uma relação funcional. Esta pode ser, apenas,  investigada com base na observação dos comportamentos de um indivíduo. Assimsendo, as vantagens de uma análise
funcional completa são a identificação de
variáveis que influenciam na ocorrência
do comportamento de interesse, o
planejamento de intervenções, através da
modificação destas variáveis e,
conseqüentemente, do comportamentoproblema,
e a previsão das condições que
podem proporcionar a generalização e a
manutenção das modificações
comportamentais efetuadas.
Quanto à aplicação da análise
funcional no atendimento clínico de
crianças, Conte e Regra (2004) e Silvares
(2004) mencionam a importância desta
ferramenta para que os antecedentes e os
conseqüentes ambientais, que controlam
o comportamento-queixa infantil atuais,
sejam identificados. A busca por como,
quando e onde tal comportamento ocorre,
é essencial para o planejamento da
psicoterapia comportamental infantil.
Psicoterapia comportamental com
crianças
A Psicoterapia Comportamental
pode ser entendida como aquela
intervenção para a modificação e
ampliação de comportamentos, baseada
na aprendizagem, na preocupação com o
método e na especificação das relações
funcionais (Kerbauy, 2001; Kohlenberg &
Tsai, 2001). Sua utilidade é associada ao
Análise funcional do comportamento na avaliação e terapia com crianças
Rev. Bras. de Ter. Comp. Cogn., Campinas-SP, 2010, Vol. XII, nº 1/2, 1-19
6
tratamento de indivíduos de diferentes
faixas etárias. Entretanto, na literatura
que aborda a aplicação da terapia
comportamental no processo de avaliação
e intervenção com crianças, algumas
especificidades são apontadas.
Silvares (2004), ao mencionar a
análise funcional no contexto da
psicoterapia infantil, enfatiza que a forma
de conduzir esta análise muda de acordo
com a idade do cliente, mas os objetivos
de buscar as relações funcionais não
sofrem modificações. Regra (2000) e
Conte e Regra (2004) esclarecem que,
tanto na avaliação quanto na intervenção
psicoterápica, o envolvimento de outras
pessoas, em casa e na escola, além da
própria criança, é fundamental para o
sucesso de uma análise funcional do
comportamento infantil.
O manejo de contingências, a
partir da interação de, no mínimo, três
pessoas, pode ser chamado de modelo
triádico (Silvares, 1995). Assim, além do
envolvimento do terapeuta e do cliente,
conforme o modelo diático, geralmente
aplicado na terapia comportamental com
adultos, na terapia comportamental com
crianças, um mediador também é
envolvido. Este pode ser representado
pelos pais, pela professora, entre outros.
A efetividade da intervenção será maior,
quanto maior for a modificação das
variáveis independentes mantenedoras
do comportamento de interesse da
criança em análise. O comportamento da
criança continua sendo o alvo primário,
mas para as modificações
comportamentais serem generalizadas e
duradouras, o treino de pais e/ou
professores torna-se essencial.
Desta forma, a análise funcional do
comportamento infantil requer o
entendimento das relações funcionais
entre o comportamento-queixa e as
conseqüências comportamentais dos pais,
dos professores e do terapeuta
comportamental. O método mais
utilizado para esta análise é o relato
verbal das pessoas envolvidas (Deaver,
Miltenberger & Stricker, 2001). Frente à
revisão apresentada, conclui-se que a
análise funcional do comportamento é
uma ferramenta importante na terapia
comportamental. No entanto, a sua
implementação na prática clínica, ainda
se constitui em um desafio. A fim de
contribuir com a literatura sobre o tema,
este estudo de caso visa a apresentar
procedimentos de avaliação e de
intervenção sustentados pela análise
funcional do comportamento, em um
contexto de psicoterapia infantil.
Método
Rochele Paz Fonseca - Janaína Thaís Barbosa Pacheco
Rev. Bras. de Ter. Comp. Cogn., Campinas-SP, 2010, Vol. XII, nº 1/2, 1-19
7
O método utilizado para a
realização deste estudo de caso foi a
análise funcional do comportamento que
guiou as duas etapas de intervenção
promovidas: 1) avaliação e 2) terapia.
Ressalta-se que, como primeiro
procedimento deste estudo de caso,
conduziu-se a aplicação de um Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido, que foi
assinado pelo pai e pela mãe da cliente.
Primeiramente, uma descrição geral da
participante e da queixa será promovida.
Participante e relato da queixa
A participante, por critérios éticos,
será chamada de A. Esta tem oito anos e seis
meses de idade e é do sexo feminino.
Encontra-se cursando a terceira série do
Ensino Fundamental. Mora com seus pais e
com sua irmã gêmea, B (nome fictício,
ressaltando-se a semelhança entre os nomes
reais), permanecendo no turno da manhã, sob
os cuidados de uma tia materna.
A mãe de A procurou atendimento em
uma clínica psicoterápica da região
metropolitana de Porto Alegre, RS, com as
seguintes queixas comportamentais
relacionadas à sua filha: desatenta, agitada,
agressiva (com familiares e amigos),
desobediente e apresentando dificuldades
escolares.
Método
A fim de tornar claros os
procedimentos desenvolvidos com a
cliente, o método será dividido em:
método do procedimento de avaliação e
método da intervenção terapêutica. É
importante salientar que ambos foram
desenvolvidos utilizando a análise
funcional.
Método do Procedimento de
Avaliação
Instrumentos e Procedimentos
A avaliação foi efetuada mediante
contato em seis situações: terapeutacliente,
terapeuta-mãe, terapeuta-pai,
terapeuta-pais, terapeuta-tia e terapeutaprofessora.
Diferentes instrumentos e
quantidade de sessões foram utilizados
em cada situação, conforme pode ser
visualizado na Tabela 2.
Tabela 2. Número de sessões e instrumentos para cada
situação da avaliação funcional.
Situações
sessões
(n)
Instrumentos
Terapeuta-cliente 4 Atividade lúdica livre
Ditado de palavras e frases
Exame do caderno
Teste das Matrizes
Progressivas de Raven
Seqüências lógicas
Tarefa de habilidades
aritméticas
Terapeuta-mãe 2 Entrevista ficha de
anamnese
Questionário parental de
sintomas
Terapeuta-pai 1 Entrevista - Ficha de
anamnese
Terapeuta-pais 1 Entrevista
Terapeuta-tia materna 1 Entrevista
Terapeuta-professora 1 Entrevista
Total 10 17
Nota: As entrevistas estão apresentadas na ordem em que
foram realizadas, sendo a segunda entrevista com mãe
efetuada após aquela com os pais.
Análise funcional do comportamento na avaliação e terapia com crianças
Rev. Bras. de Ter. Comp. Cogn., Campinas-SP, 2010, Vol. XII, nº 1/2, 1-19
8
Quanto aos procedimentos
utilizados na avaliação, a observação do
repertório comportamental da cliente foi
efetuada desde a sala de espera até cada
sessão individual de avaliação e aplicação
dos instrumentos. Além disso, as
relações funcionais também foram
inferidas a partir do relato verbal das
pessoas que convivem com a cliente:
mãe, pai, tia e professora. Foram
definidos os comportamentos de
interesse, com a posterior
identificação dos efeitos
comportamentais.
Método da Intervenção Terapêutica
Instrumentos e Procedimentos
A análise funcional do
comportamento foi realizada em
ambiente clínico, a partir de três
interações: 1) terapeuta-cliente (29
sessões); 2) terapeuta-familiares (3
sessões) e 3) terapeuta-professora (2
sessões). A partir dos resultados da
avaliação, foram formuladas predições
sobre as conseqüências, no
comportamento de interesse da
cliente, de modif icações nas
variáveis ambientais. Assim, foram
efetuadas intervenções específicas
em cada interação, cujos objetivos,
procedimentos e estratégias
encontram-se explicitados na
Tabela 3.
Tabela 3. Intervenções clínicas, através das interações
terapeuta-cliente-familiar-professora.
Terapeuta-cliente
Interações
Terapeuta-familiares
e
Terapeuta-professora
Aumentar auto-estima
Objetivos
Desenvolver comportamento de melhor desempenho
aritmético e acadêmico
Reforço verbal
Reforço generalizado
Procedimentos
Orientações para diminuição na freqüência de
comparações entre irmãs
Elogiar sua aparência e produção escrita
Técnica de economia de fichas
Relato verbal do efeito do comportamento
comparativo dos pais sobre a cliente
Estratégias
Relato verbal do efeito da demonstração verbal e nãoverbal
de afeto após melhoras de desempenho da
cliente
Resultados
Assim como na seção Método, os
resultados serão apresentados em dois
momentos: 1) Resultados da avaliação e
2) Resultados da intervenção terapêutica.
Resultados da avaliação
História pregressa e atual
A e sua irmã-gêmea, B, dormem no
mesmo quarto há sete meses. Antes,
dormiam no quarto dos pais. Quanto à
escolarização, A finalizou a segunda série
do Ensino Fundamental em dezembro de
Rochele Paz Fonseca - Janaína Thaís Barbosa Pacheco
Rev. Bras. de Ter. Comp. Cogn., Campinas-SP, 2010, Vol. XII, nº 1/2, 1-19
9
2004. Não freqüentou pré-escola, sendo
sua primeira série realizada com
dificuldades atribuídas a questões
institucionais, tais como greve, falta de
professor e violência no bairro, em que a
escola se localiza. Nos dois anos escolares,
teve sua irmã como colega, na maior
parte do tempo. A professora e seus
familiares referiram que ela
freqüentemente demorava a terminar as
atividades propostas em aula, tendo que
levar tarefas para casa ou pedir auxílio à
irmã, para que esta terminasse as suas
tarefas. Sua professora salientou, ainda,
que A apresentava dificuldades no
reconhecimento de números, na
realização de tarefas que demandavam
habilidades aritméticas, assim como
habilidades mais complexas de linguagem
escrita (narrativa escrita, por exemplo).
Através da análise das fichas de
anamnese, preenchidas individualmente
pelos pais de A, observou-se que não
houve intercorrências, durante a
gestação. Seu parto foi realizado com o
procedimento de cesariana. Nasceu após
sua irmã, com hipóxia. Seu
desenvolvimento psicomotor e lingüístico
é sugestivo de normalidade neurológica.
Foi amamentada naturalmente, até os
seis meses de idade e artificialmente, até
cinco anos e um mês. Apresentava sono
agitado.
A ficava sob os cuidados diários de
sua tia materna, juntamente com sua
irmã e um primo. Estudava no turno
vespertino. Costumava brincar na escola
apenas com crianças de seu sexo,
preferindo a companhia de uma amiga
(amiga em comum com sua irmã) e de
sua irmã. Gostava de assistir televisão,
sem permanecer muito tempo nesta
atividade. Optava freqüentemente por
brincadeiras de rua, tais como pular
corda, subir em árvores, correr, entre
outras. Relacionava-se melhor com o pai
(sic. pai e mãe). Ocorriam, com
freqüência, episódios de discussão verbal
entre as irmãs, iniciados sempre por A
(sic. pais e tia).
No Questionário Parental de
Sintomas, respondido pela mãe, esta
referiu problemas de alimentação, sono,
ocorrência de medos e preocupações
excessivos, assim como de hábitos de
onicofagia e mordedura de objetos.
Quanto aos aspectos afetivos
propriamente ditos, a mãe mencionou
sintomas de dependência na realização de
atividades e tarefas diárias, problemas
com sentimentos, problemas em fazer e
manter amigos, problemas com a irmã,
agitação, intolerância à frustração e
desatenção, temperamento explosivo
associado a mau-humor, problemas na
escola, ocorrência de mentiras,
provocação de danos à propriedade. Por
Análise funcional do comportamento na avaliação e terapia com crianças
Rev. Bras. de Ter. Comp. Cogn., Campinas-SP, 2010, Vol. XII, nº 1/2, 1-19
10
fim, classificou o problema de sua filha
como menor, apesar de graduar a
freqüência de observação desses
comportamentos como “muito”, numa
escala Likert de quatro graus (nunca, um
pouco, bastante, muito) (para uma
revisão, consultar Pasquali, 2003).
Sentia-se culpada por ter demonstrado
preferência por B, referindo que na época
da avaliação, amava de modo igualitário
suas filhas.
No processo de avaliação, o
repertório de comportamentos e condutas
da cliente foi observado em diferentes
situações. Na sala de espera, pode-se
constatar que as irmãs vestiam-se com
roupas, calçados e acessórios de modelos
idênticos, apenas com cores
diversificadas. A procurava ficar longe da
irmã, demonstrando satisfação ao afirmar
que, apenas ela, entrava na sala de
atendimento. Mostrava-se agitada,
alternando sistematicamente os lugares
em que permanecia sentada ou em pé,
enquanto aguardava ser chamada.
Ressalta-se que a mãe da cliente
demonstrava carinho direcionado à B,
com maior expressão. Costumava fazer
comentários sobre as dificuldades
apresentadas por A, na própria sala de
espera. Além disso, nas tarefas
domiciliares e escolares, mesmo que
apenas uma das irmãs pudesse executálas,
ambas eram estimuladas pela família
a executarem-nas conjuntamente.
Enfatiza-se, ainda, que a mãe comparava
com freqüência as filhas gêmeas,
destacando as qualidades de B, em
contraponto às dificuldades de A. Esta
última, percebia o comportamento
materno.
Na execução das tarefas em geral,
A apresentou comportamentos de
impulsividade e pouca tolerância a um
preparo e a uma espera para uma
execução mais cuidadosa das atividades
propostas. Mostrou comportamentos
ligados à desejabilidade social,
procurando agradar a terapeuta
constantemente, apesar de demonstrar
irritabilidade aumentada, frente à maior
complexidade das tarefas.
No que concerne às habilidades
lingüísticas e comunicativas, A
apresentou discursos oral e escrito
restritos, para sua idade. Teve
dificuldades em organizar logicamente as
seqüências de quatro e seis peças,
apresentando sentenças de extensão curta
e narrativa das respectivas histórias com
conteúdo e forma lingüísticos pouco
explorados. No exame do caderno,
observaram-se equívocos ortográficos e
gramaticais, de um modo geral, bastante
freqüentes, com a maioria das tarefas
inacabadas. No ditado de palavras e
sentenças, demonstrou encontrar-se na
Rochele Paz Fonseca - Janaína Thaís Barbosa Pacheco
Rev. Bras. de Ter. Comp. Cogn., Campinas-SP, 2010, Vol. XII, nº 1/2, 1-19
11
fase alfabética do desenvolvimento da
linguagem escrita (Ferreito & Teberosky,
1985), com aumento de dificuldade frente
à maior complexidade dos estímulos
lingüísticos. Tais características de escrita
alfabética são esperadas para sua série
escolar. Entretanto, sua exploração
restrita da linguagem escrita não é típica
de sua faixa etária.
Quanto à inteligência, no teste
Matrizes Progressivas de RAVEN
(Angelini, Alves, Custódio et al, 1999), a
cliente obteve desempenho classificado
como grau III, ou seja, intelectualmente
médio. Observaram-se, qualitativamente,
respostas com características de
impulsividade, desatenção, com pouco
tempo de manutenção de observação dos
estímulos visuais. Além disso, apresentou
desempenho regular na tarefa de
habilidades aritméticas, realizando
adequadamente as operações de soma
com unidades, com respostas
inadequadas para as demais operações.
Tais dados confirmaram as observações
efetuadas pela professora da cliente.
Resultados dos procedimentos da
avaliação
Primeiramente, os comportamentos de
interesse foram definidos o mais
precisamente possível, mediante
solicitação de exemplos que ilustrassem
os comportamentos-queixa apresentados
pelos entrevistados. Na Tabela 4,
encontram-se as definições dos
comportamentos-queixa de interesse.
Tabela 4. Definições dos comportamentos de interesse ou
comportamentos-queixa.
Comportamento-queixa Definição
“agitada” Comportamento de movimentação
excessiva, com pouco tempo de
manutenção em uma atividade
“desobediente” Comportamento de discordância
com figuras de autoridade frente à
solicitação de execução de tarefas
domésticas e escolares
“desatenta” Comportamento de atribuição de
atenção a quaisquer tarefas exceto
àquelas solicitadas por professora e
familiares
“agressiva com
familiares e amigos”
Comportamento de discussão e de
enfrentamento com familiares e
amigos
“tem dificuldades
escolares”
Comportamento de não execução
das atividades escolares ou de
execução incompleta, com mais
erros do que acertos
Posteriormente, foram
identificadas e descritas as relações
ordenadas entre as variáveis ambientais
(antecedentes e conseqüentes) e os
comportamentos de interesse. Na Tabela
5, os resultados destes procedimentos
podem ser visualizados para cada
comportamento-queixa.
Assim sendo, a partir dos
resultados das observações efetuadas no
processo de avaliação de A, evidenciaramse
dificuldades relacionais
predominantemente nas díades clienteirmã
e cliente-mãe. A demonstrava
dependência com relação à sua irmã e
busca por desejabilidade social e materna.
Apresentava dificuldades aritméticas e
Análise funcional do comportamento na avaliação e terapia com crianças
Rev. Bras. de Ter. Comp. Cogn., Campinas-SP, 2010, Vol. XII, nº 1/2, 1-19
12
lingüísticas, provavelmente oriundas da
falta de estimulação e da demanda
reduzida do ambiente. Este último fator
está ligado às dificuldades afetivas da
cliente, ou seja, ela era reforçada ao não
realizar as tarefas solicitadas.
Tabela 5. Antecedentes e conseqüentes dos comportamentos-queixa
da cliente.
Antecedentes Comportamentosqueixa
Conseqüentes
Solicitação
repetida de
execução das
tarefas escolares
pela tia ou pela
mãe
“agitada” – exemplo:
A não pára quieta
enquanto faz os
temas
Não completa as
atividades e a tia
permite que ela vá
brincar
Solicitação
repetida de
arrumação e
organização de
roupas e objetos,
acompanhada de
comparação com
a excelente
organização da
irmã-gêmea
“desobediente” –
exemplo: A nega a
solicitação da mãe de
arrumar a bagunça de
seu quarto
Mãe arruma seu
quarto, enquanto
briga com ela
Aumento da
demanda de
execução da
tarefa com
delimitação de
tempo
“desatenta” –
exemplo: A olha pela
janela enquanto faz
as tarefas escolares
em casa ou na escola
Não termina as
tarefas e sua mãe ou
professora briga com
ela; sua irmã
completa as tarefas
da A para que as duas
possam brincar ou ir
para casa
Prima, amiga da
escola ou familiar
optam por dar
atenção (brincar,
conversar) à irmã
“agressiva com
familiares e amigos”
– exemplo: chama a
prima, a amiga da
escola ou o pai com
algum apelido ou
palavrão
A recebe atenção da
prima, da amiga ou
do familiar, uma vez
que estes passam a
discutir com ela
Aumento da
demanda de
realização de
uma tarefa
escolar com
exigência de bom
desempenho e
delimitação de
tempo
“tem dificuldades
escolares” –
exemplo: erra
operações
matemáticas
Professora e
familiares conversam
com ela, em tom de
xingamento por não
ter se desempenhado
conforme o esperado
Indicou-se atendimento psicoterápico
individual com freqüência de
duas vezes semanais para A e separação
das irmãs em duas turmas de terceira
série. Os objetivos predominantes da
intervenção psicoterápica foram auxiliar a
cliente no seu processo de independência,
melhorar sua auto-estima e autoconfiança
e contribuir para o
aprimoramento do seu desempenho
acadêmico, estimulando suas habilidades
linguísticas e aritméticas.
Resultados da intervenção à luz
da análise funcional do comportamento
Em um primeiro instante,
predições foram formuladas acerca dos
efeitos de manipulação das variáveis
ambientais sobre os comportamentosqueixa
da cliente. No contexto terapeutacliente,
os reforços verbais de elogio à
aparência e vestimenta da cliente,
assim como à legibilidade de sua letra,
foram promovidos com a finalidade de
contribuir para o aumento da autoestima
da cliente. Mostraram um efeito
de modificação do comportamento,
conforme pode ser observado na Tabela
6, em que pode ser observada uma
comparação entre os comportamentos
verificados antes e depois do esquema
de reforçamento de razão variável: a
quantidade de reações
comportamentais aos elogios
aumentaram, após esse esquema de
reforçamento. O aumento do repertório
de habilidades sociais da cliente,
representado pelo aceite aos elogios e
às mudanças na interação com os
Rochele Paz Fonseca - Janaína Thaís Barbosa Pacheco
Rev. Bras. de Ter. Comp. Cogn., Campinas-SP, 2010, Vol. XII, nº 1/2, 1-19
13
demais membros da clínica, denota
uma melhora de sua auto-estima.
Tabela 6. Comparação antes e depois do esquema de
reforçamento de razão variável.
Comportamentos
/Intervenção
Antes Depois
Comportament
os verbais
Silêncio
Intensidade
vocal quase
inaudível ao
cumprimentar
equipe
Agradecimentos e
concordância com
os elogios da
terapeuta
Cumprimentos
audíveis com
equipe
Comportament
os não-verbais
Flexão da cabeça
e expressão
facial de
descontentament
o
Evitação do
olhar aos
membros da
equipe
Sorriso e abraço na
terapeuta
Direcionamento do
olhar, sorrisos e
abraços nos
membros da equipe
Ainda no contexto terapeutacliente,
foi utilizada a técnica
comportamental de economia de fichas,
sendo as fichas corações desenhados
com régua específica de desenho
infantil em papel cartolina e
recortados pela cliente. O objetivo
dessa técnica foi instalar o
comportamento de desempenho
aritmético e acadêmico satisfatório,
assim como, indiretamente,
generalizar o reforço atribuído às
fichas para a atenção e valorização das
pessoas ao seu redor. Na Figura 1, na
qual é exposto o percentual de acertos
em operações matemáticas da linha de
base, até o 13º dia de intervenção,
pode-se constatar um aumento
gradativo do desempenho em tarefas
aritméticas. A partir da linha de base
simples, a cliente foi apresentando
ganhos em desempenho, até alcançar
100%.
Figura 1. Percentual de acertos em operações matemáticas da
linha de base até o décimo terceiro dia de
intervenção.
Nota: D = dia. De tal modo, D1 = dia 1, D2 = dia 2 e assim
sucessivamente.
Após atingir 100% de desempenho
positivo por dois atendimentos
consecutivos, A mostrou o pote de fichas
conquistadas para seus pais, que a
elogiaram e demonstraram carinho
através de trocas de abraços e beijos, com
a cliente. No contexto terapeutafamiliares
e terapeuta-professora, o
resultado das orientações para
diminuição da freqüência de comparações
entre irmãs pelos pais e pela professora
pode ser evidenciado na Figura 2. Nesta,
pode-se notar uma diminuição da
quantidade de emissões de comparação
A-B pelos familiares (principalmente
mãe, pois pai e tia tinham poucas
emissões, desde a primeira entrevista) e
pela professora. Na Figura 2 são
apresentados, então, o número de
emissões, em cada entrevista.
0%
20%
40%
60%
80%
100%
120%
linha de base
D1
D2
D3
D4
D5
D6
D7
D8
D9
D10
D11
D12
D13
fase de intervenção
percentual de acertos
percentual de acertos
Análise funcional do comportamento na avaliação e terapia com crianças
Rev. Bras. de Ter. Comp. Cogn., Campinas-SP, 2010, Vol. XII, nº 1/2, 1-19
14
Além desta orientação, também foi
efetuada uma combinação de pais e
professora elogiando A, após cada
pequena conquista (acerto em uma
operação matemática, por exemplo). Na
última entrevista com cada um deles, a
partir de seu relato verbal, os efeitos
dessa mudança comportamental puderam
ser identificados no repertório
comportamental de A: aumento da
atenção nas atividades escolares e
execução independente das tarefas de
aula e de casa.
Figura 2. Quantidade de emissões de comparação entre
irmãs nas entrevistas realizadas com pais,
professora e tia.
Nota: Emãe1 = Primeira entrevista com a mãe; Emãe2 =
Segunda entrevista com a mãe; Epai = Entrevista com o pai;
Eprof1 = Primeira entrevista com a professora; Etia =
Entrevista com a tia; Epais1 = Primeira entrevista com os pais;
Epais2 = Segunda entrevista com os pais; Eprof2 = Segunda
entrevista com a professora; Epais3 = Terceira entrevista com
os pais.
Atualmente, A encontra-se em fase
final de generalização dos resultados
obtidos em consultório, para os
ambientes casa e escola. Os pais e a
professora demonstraram preocupação,
inicialmente, com as modificações dos
comportamentos da cliente: A mantém-se
em silêncio, enquanto a professora
explica o conteúdo, termina as atividades,
embora demore, ainda, mais que alguns
colegas. Veste-se diferentemente da irmã,
está fazendo novas amizades e impõe sua
vontade à da irmã (de modo, ainda,
agressivo). A terapeuta, então, explicitou
que estas mudanças representam melhora
e não piora, no comportamento de A.
Discussão
Os comportamentos-queixa
trazidos pelos familiares e pela professora
da cliente consistem em características de
comportamento bastante freqüentes, no
início da fase escolar. A contingência de
evitar tarefas escolares é considerada
comum por Northup, Kodak, Lee e Coyne
(2004). Apesar de queixas, tais como as
de desobediência, agitação e desatenção
serem frequentemente originadas pelos
pais (Shapiro & Bradley, 1999), na
literatura, a utilização da análise
funcional, tanto na avaliação, como na
terapia comportamentais, é mais
incidente em casos de queixas mais
bizarras do desenvolvimento infantil, tais
como distúrbios alimentares (Piazza,
Fisher, Brown, Shore, Patel et al., 2003),
transtornos do desenvolvimento (Bosch,
2002) e auto-agressão (Deaver et al.,
2001), entre outros.
0
2
4
6
8
10
12
Emãe1
Emãe2
Epai
Eprof1
Etia
Epais1
Epais2
Eprof2
Epais3
Momento
Número de emissões
Rochele Paz Fonseca - Janaína Thaís Barbosa Pacheco
Rev. Bras. de Ter. Comp. Cogn., Campinas-SP, 2010, Vol. XII, nº 1/2, 1-19
15
Os comportamentos-queixa,
embora considerados inadequados pelas
pessoas com quem a cliente convivia,
mostraram-se funcionais, ou seja,
apresentavam uma função no seu
repertório de comportamentos, com um
antecedente que contribuía para sua
ocorrência e um consequente que
contribuía para a sua manutenção e
posterior repetição. Para a identificação
dos antecedentes e consequentes de cada
comportamento de interesse, assim como
da relação funcional entre
comportamentos da cliente e variáveis
ambientais, os procedimentos sugeridos
por Delitti (2001) e Matos (1999a) foram
fundamentais. A observação das relações
funcionais na história de vida permitiu a
inferência de que a cliente estabeleceu
uma auto-regra de que já era a pior e que
nada que fizesse mudaria este status na
sua família. Esta auto-regra, segundo a
conceituação e classificação de Jonas
(1999), pode ser considerada encoberta.
Graças a esta regra, A passou a tomar
decisões de não completar as tarefas
domésticas e escolares, além do que sua
mãe e sua irmã, as faziam, reforçando o
comportamento de A. Além da história de
vida, comportamentos apresentados na
relação terapeuta-cliente (busca por
agradar constantemente a terapeuta –
desejabilidade social) e relatados por seus
pais, contribuíram para o entendimento
da sua função do repertório da cliente.
Pela observação dos antecedentes e
dos conseqüentes de cada
comportamento-queixa (Tabela 5), podese,
também, inferir que, em geral, o
aumento da demanda por desempenho do
ambiente e as freqüentes comparações
com sua irmã gêmea foram variáveis
independentes significativas no
estabelecimento e manutenção dos seus
padrões comportamentais de não
execução das tarefas. Ressalta-se que a
regra familiar que categorizou B como a
irmã-modelo e A como a irmã malsucedida,
associada à constante punição
materna, contribuiu muito para a
ocorrência dos comportamentos
indicativos de baixa auto-estima e de
busca constante por aceitação materna.
Além disso, associação entre baixa autoestima
e dificuldades escolares é
amplamente destacada na literatura (por
exemplo, Shirk & Harter, 1999).
A partir da identificação destas
variáveis, a análise funcional do
comportamento de A pôde ser planejada.
Conforme o modelo triádico preconiza, a
participação de, no mínimo, três pessoas
é fundamental para o sucesso da
intervenção psicoterápica infantil. Elliott
e Fuqua (2000) ilustram casos bemsucedidos
de tratamento de auto-agressão
Análise funcional do comportamento na avaliação e terapia com crianças
Rev. Bras. de Ter. Comp. Cogn., Campinas-SP, 2010, Vol. XII, nº 1/2, 1-19
16
infantil, a partir do envolvimento de
modificações comportamentais dos pais,
do terapeuta e da professora. Para tanto,
a conscientização dos pais sobre as
contingências que circundam o
comportamento da criança, mostram-se
essenciais (Bosch, 2002; Rocha &
Brandão, 2001). No caso em estudo, o
relato verbal da terapeuta, sobre os
antecedentes e conseqüentes dos
comportamentos de A, auxiliaram neste
processo de conscientização dos seus pais
e da professora, sendo fundamental para
o aceite das orientações de modificação
dos seus comportamentos nos ambientes
casa e escola. McNeill, Watson,
Henington e Meeks (2002) salientam,
inclusive, que em seu estudo o
treinamento de pais na realização de
análises funcionais foi bem-sucedido,
conseguindo estes identificar as relações
funcionais entre os comportamentos.
No contexto terapeuta-cliente, o
reforço verbal (ver em Simonassi, Borges
& Loja, 2000 e Tomanari, 2000) e a
técnica de economia de fichas (ver em
Tomanari, 2000), o elogio e as fichas
foram muito importantes para o
estabelecimento de padrões comportamentais
de maior auto-estima e de
melhor desempenho escolar. As fichas
atuaram como reforçadores condicionados
generalizados, cujos comportamentos
a elas relacionados foram
ampliados para o ambiente casa, a partir
da transferência do controle por elas
exercido para a aprovação de seus pais
(reforçador natural).
Apesar de se ter conquistado bons
resultados até o momento, a fase atual de
generalização é crucial para a conclusão
efetiva da terapia comportamental.
Simonassi et al. (2000) abordam a
importância desta ampliação do efeito
alcançado de alguns estímulos
discriminativos para outros importantes,
tendo-se em vista uma maior adaptação
da cliente ao seu ambiente. O processo de
generalização em contexto clínico é
complexo e envolve variáveis extrínsecas
ao setting terapêutico, podendo ser
dificultado pela inconsistência ou não
sistematicidade dos esquemas de
reforçamento (Gadelha & Vasconcelos,
2005). Dessa forma, a manutenção das
orientações ensinadas à família de A,
principalmente no sentido de reforçar
positivamente as condutas esperadas,
será fundamental para que o processo de
generalização das aprendizagens ocorra
satisfatoriamente, ampliando o repertório
comportamental da cliente.
Conclusão
Apesar de o ambiente de
consultório não permitir um controle
rigoroso como o laboratório o faria e de a
Rochele Paz Fonseca - Janaína Thaís Barbosa Pacheco
Rev. Bras. de Ter. Comp. Cogn., Campinas-SP, 2010, Vol. XII, nº 1/2, 1-19
17
modificação do comportamento em
ambiente natural não ter sido efetuada, o
presente estudo de caso demonstrou que
os pressupostos da avaliação e da análise
funcional do comportamento podem
embasar os processos de avaliação e de
psicoterapia de uma criança, tornando-os
mais efetivos. A ferramenta análise
funcional foi essencial para que as
funções das variáveis, que controlavam os
comportamentos-queixa da cliente,
fossem identificadas e, a partir da
previsão do efeito da manipulação de
variáveis independentes (comportamentos
do pai, da mãe, da terapeuta e da
professora), novos padrões comportamentais
fossem planejados e instalados.
Assim sendo, a avaliação funcional
foi promovida, graças à observação do
comportamento da cliente em diversos
contextos de interação comportamental,
relato verbal e aplicação de
alguns instrumentos, que objetivaram a
avaliação clínica. Com base nestes
procedimentos avaliativos, conduziu-se a
uma análise funcional do
comportamento, que fundamentou a
intervenção de mudanças ambientais,
refletindo diretamente nos comportamentos
disfuncionais da cliente.
Procedimentos de reforço verbal e
generalizado foram utilizados para
aumentar a auto-estima e desenvolver
comportamento de melhor desempenho
aritmético e acadêmico, com objetivos de
intervenção atingidos. Esse estudo de
caso reforça a importância da aplicação
da análise experimental do comportamento,
na clínica psicoterápica infantil.
Referências
Angelini, A. L., Alves, I. C. B., Custódio, E. M., Duarte, W. F. & Duarte, J. L. M. (1999).
Matrizes Progressivas Coloridas de Raven: Escala Especial. Manual. São Paulo:
CETEPP.
Bosch, J.J. (2002). Use of directed history and behavioral indicators in the assessment of
the children with a developmental disability. Journal of Pedriatics Health and Care,
16(4): 170-179.
Conte, F.C.S. & Regra, J.A.G. (2004). A psicoterapia comportamental infantil: novos
aspectos. Em E.F.M. Silvares (org.). Estudos de caso em psicologia clínica
comportamental infantil (vol.1), pp. 79-136. Campinas: Papirus.
Deaver, C.M., Miltenberger, R.G. & Stricker, J.M. (2001). Functional analysis and
treatment of hair twirling in a young child. Journal of Applied Behavior Analysis,
34(4): 535-538.
Análise funcional do comportamento na avaliação e terapia com crianças
Rev. Bras. de Ter. Comp. Cogn., Campinas-SP, 2010, Vol. XII, nº 1/2, 1-19
18
Del Prette, G., Silvares, E.F.M. & Meyer, S.B. (2005). Validade interna em vinte estudos de
caso comportamentais brasileiros sobre terapia infantil. Revista Brasileira de Terapia
Comportamental e Cognitiva, 7(1): 93-105.
Delitti, M. (2001). Análise functional: o comportamento do cliente como foco da análise
funcional. Em M. Delitti (org.). Sobre o comportamento e cognição (v.2), pp. 35-42.
São Paulo: ESETec.
Elliott, A.J. & Fuqua, R.W. (2000). Trichotillomania : conceptualization, measurement,
and treatment. Behavior Therapy, 29: 211-219.
Ferreiro, E. & Teberosky, A. (1985). Psicogênese da língua escrita. Porto Alegre: Artes
Médicas.
Field, C.E., Nash, H.M., Handwerk, M.L. & Friman, P.C. (2004). Using functional
assessment and experimental functional analysis to individualize treatment for
adolescents in a residential care setting. Clinical case studies, 3(1): 25-36.
Gadelha, Y.A. & Vasconcelos, L.A. (2005). Generalização de estímulos: aspectos
conceituais, metodológicos e de intervenção. Em J. Abreu-Rodrigues & M. Rodrigues
Ribeiro (Orgs.), Análise do comportamento. Pesquisa, Teoria e aplicação (pp. 139-
158). Porto Alegre: Artmed.
Jonas, A.L. (1999). O que é auto-regra? Em M. Delitti (org.). Sobre o comportamento e
cognição (v.1), pp. 142-145. São Paulo: ESETec.
Kerbauy, R.R. (2001). Contribuição da psicologia comportamental para a psicoterapia. Em
M. Delitti (org.). Sobre o comportamento e cognição (v.2), pp. 1-7. São Paulo: ESETec.
Kohlenberg, R.J. & Tsai, M. (2001). Psicoterapia Analítica Funcional: criando relações
terapêuticas e curativas. Tradução organizada por R.R. Kerbauy. Santo André:
ESETec. (trabalho original publicado em 1991).
Matos, M.A. (1999a). Análise funcional do comportamento. Revista Estudos de Psicologia,
16(3): 8-18.
Matos, M.A. (1999b). O Behaviorismo metodológico e suas relações com o mentalismo e o
behaviorismo radical. Em M. Delitti (org.). Sobre o comportamento e cognição (v.1),
pp. 57-69. São Paulo: ESETec.
Moura, C., Grossi, R. & Hirata, P. (2009). Análise funcional como estratégia para tomada
de decisão em psicoterapia infantil. Estudos de Psicologia, 26(2): 173-183.
McNeill, S.L., Watson, T.S., Henington, C. & Meeks, C. (2002). The effects of training
parents in functional behavior assessment on problem identification, problem analysis,
and intervention design. Behavior Modification, 26(4): 499-515.
Meyer, S.B. (2001). O conceito de análise funcional. Em M. Delitti (org.). Sobre o
comportamento e cognição (v.2), pp. 29-34. São Paulo: ESETec.
Northup, J., Kodak, T., Lee, J. & Coyne, A. (2004). Instructional influences on analogue
functional analysis outcomes. Journal of Applied Behavior Analysis, 37(4): 509-512.
Rochele Paz Fonseca - Janaína Thaís Barbosa Pacheco
Rev. Bras. de Ter. Comp. Cogn., Campinas-SP, 2010, Vol. XII, nº 1/2, 1-19
19
Pasquali, L. (2003). Psicometria: teoria dos testes na psicologia e na educação (1ª. ed.).
Petrópolis, RJ: Vozes.
Piazza, C.C., Fisher, W.W., Brown, K.A., Shore, B.A., Patel, M.R., Katz, R.M., Sevin, B.M.,
Gulotta, C.S. & Blakely-Smith, A. (2003). Functional analysis of inappropriate
mealtime behaviors. Journal of Applied Behavior Analysis, 36(2): 187-204.
Regra, J.A.G. (2000). Formas de trabalho na psicoterapia infantil: mudanças ocorridas e
novas direções. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, 2(1): 79-
101.
Rocha, M.M. & Brandão, M.Z.S. (2001). A importância do autoconhecimento dos pais na
análise e modificação de suas interações com os filhos. Em M. Delitti (org.). Sobre o
comportamento e cognição (v.2), pp. 133-141. São Paulo: ESETec.
Santarem, E.M.M. (2000). Análise funcional do comportamento. Em F.F. Sisto, E.T.B.
Sbardelini & R. Primi. Contextos e questões da avaliação psicológica, pp. 203-218. São
Paulo: Casa do Psicólogo.
Shapiro, E.S. & Bradley, K.L. (1999). Tratamento de problemas escolares. Em M.A.
Reinecke, F.M. Dattilio & A. Freeman (org.). Terapia cognitiva com crianças e
adolescentes, pp. 261-275. Porto Alegre: Artmed.
Shirk, S. & Harter, S. (1999). Tratamento da baixa auto-estima. Em M.A. Reinecke, F.M.
Dattilio & A. Freeman (org.). Terapia cognitiva com crianças e adolescentes, pp. 143-
159. Porto Alegre: Artmed.
Silvares, E.F.M. (1995). Intervenção clínica e comportamental com crianças. Em B. Range
(org.). Psicoterapia comportamental e cognitiva, pp. 133-141. Campinas: Editorial Psy.
Silvares, E.F.M. (2004). Avaliação e intervenção clínica comportamental infantil. Em
E.F.M. Silvares (org.). Estudos de caso em psicologia clínica comportamental infantil,
(vol.1), pp. 13-29. Campinas: Papirus.
Simonassi, L.E., Borges, F.S. & Loja, B.O.B. (2000). Efeito do reforçamento diferencial de
uma classe de resposta e generalização para outra classe sob controle instrucional de
um mando. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, 2(1): 21-29.
Tomanari, G.Y. (2000). Reforçamento condicionado. Revista Brasileira de Terapia
Comportamental e Cognitiva, 2(1): 61-77.
Torós, D. (2001). O que é diagnóstico comportamental. Em M. Delitti (org.). Sobre o
comportamento e cognição (v.2), pp. 94-99. São Paulo: ESETec.
Recebido em: 03/04/2007
Aceito para publicação em: 04/03/2009

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postar um comentário